Retrospectivas
07|02|07 • Cristina fazia uma leve retrospectiva de seus amores. Seu primeiro namorado, quando ainda iniciante em rebeldias adolescentes, fora um menino mais velho que a encantou por já fazer parte de um mundo que em breve ela entraria. Ele cursava a faculdade, trabalhava e até já tinha carro. Ela aprendeu algumas coisas da vida, aprendeu o básico em relacionamentos, descobriu que o mundo dele não tinha nada demais e o trocou por um de sua idade para aprenderem juntos a participar da vida adulta.
Debateram e discutiram vários assuntos juntos. Aprenderam a coletar dados para depois selecionar, dançaram e aprenderam a beber junto, ganharam alguma experiência em relacionamentos. Até que chegou um momento em que Cristina começou a se sentir mais à frente que ele. Trocou-o por Augusto, que trabalhava na empresa do tio e cursava um pré-vestibular pela quarta vez.
Augusto sabia se divertir e com esse aprendeu a dirigir e a rir de tudo, conheceu lugares que ainda nem tinha ouvido falar e aprendeu a apreciar alguns acontecimentos e passeios que antes não dava a mínima atenção. Ele não tinha mais nada com que impressioná-la e foi trocado por Leonardo.
Este era inteligente e mostrou a Cristina o mundo dos livros e das artes. Empolgou-se com tantas coisas novas, fez curso de fotografia e artesanato pra acompanhar Leonardo. Com o tempo, ela demonstrou uma predileção pela literatura marginal e o concreto. Ele era chegado aos grandes clássicos e pensadores. Em caminhos distintos, tornaram-se apenas bons amigos.
Quase ao fim da faculdade e depois de dois anos sozinha, Cristina enamorou-se de um roteirista de peças teatrais. Conheceu através dele, o teatro por dentro e por fora, sua história e desenvolvimento. Por muito tempo surpreendeu-se com a agilidade de todos os detalhes que ficavam ao largo do público. Foi uma paixão pelo homem e por seu trabalho. Juntou a larga experiência dele com a teoria de seu curso finalizado de psicologia, desenvolveu cenas de relacionamentos e produziram uma peça teatral de sucesso com Leonardo na direção e produção.
Os problemas começaram a surgir entre os dois e o caso esfriou completamente. O encanto de Cristina pelos homens havia enregelado. Apesar dos muitos pretendentes, nenhum parecia poder acrescentar-lhe algo. Sabia muito da vida e "eles" davam a impressão de serem todas iguais. Sozinha, pela primeira vez permitiu-se aprofundar-se nas tarefas que mais lhe davam prazer. Cresceu como pessoa e como profissional. Os homens pareciam-lhe cada vez mais sem graça.
Quando pensava que não encontraria mais ninguém que a estimulasse, apaixonou-se perdidamente por um vendedor nordestino. Vendeu redes nas praias, vomitou cervejas e caipirinhas de péssima qualidade, freqüentou churrascos movidos a pagodes e muito papo sacana, ficou conhecida em comunidades e bairros pobres. Fazia sucesso onde chegava e era tratada como uma princesa.
Depois do fim do namoro com o vendedor nordestino, passou a relacionar-se pelo sexo. Transou com médicos, advogados, artistas, jornalistas, micro empresários e desempregados. Descobriu, ardente, que os biólogos são os melhores amantes.
Hoje, do alto de seus sessenta anos recém completos, vive com dois labradores, alguns periquitos, um louro e um gato. Freqüenta bailes da terceira idade, acha homem um saco e os amigos dizem que nunca viram alguém tão saudável e feliz.
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