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*Esta autora escreve neste espaço às quartas-feiras
 

Presídio de Livros

16|01|07 • Lembro com saudades de meus tempos de vida estudantil. Não gostava de nenhuma matéria em especial mas adorava trabalhos de pesquisa. Era oportunidade perfeita para passar horas na biblioteca da escola.

Em épocas de pesquisas, assistia às aulas de manhã, saía da escola para um breve lanche e retornava ansiosa por estar na biblioteca. Só não sentia prazer quando era pesquisa em grupo, aquele zum-zum-zum de um bando de colegas à sua volta lendo trechos de livros em voz alta ou tentando organizar os outros membros. Não era a imagem ideal para aquele ambiente, sem contar que não conseguia dar umas escapulidas para folhear os livros que me imploravam por um pouco de atenção.

Foi neste santuário de conhecimento que acompanhei a dor de Iracema, a reviravolta de Senhora, a fidelidade de Moreninha, os sonhos de Clarissa. Senti a dor do chicote no tombadilho de um Navio Negreiro, para logo depois me apaixonar pelo Velho Tema.

Quando me tornei mãe, quis mostrar esse mundo à minha filha. Não tinha biblioteca no bairro que morávamos, a mais próxima ficava no Méier. Escolhi um dia perfeito para a primeira visita dela: nem sol nem chuva num céu azul bordado de nuvens claras e refinada. Na saída de casa recomendei:
- Pega um caderno e caneta pra anotar o que você gostar.

Foi minha primeira decepção com bibliotecas e o fato repercutiu pejorativamente na vida futura de minha criança. Na entrada, uma moça de pele escura nos olhou de má vontade como se fôssemos tomar de assalto seu local de trabalho. Eu, com pouco mais de vinte anos, carregava uma bolsa pequena e fina de um lado e minha menina de sete anos no outro. Ela carregava orgulhosa sua pasta de cartolina, onde havia colocado o caderno e algumas canetas e lápis.

- Não pode entrar com bolsa.

Na variada e imensa biblioteca do Colégio Imaculado Coração de Maria, aqui perto, onde passei muitas horas agradáveis, nunca haviam me exigido que deixasse de lado minha mala com o material escolar.

- Biblioteca pública, pensei comigo, deve haver muitos roubos de livros aqui.

Passei os olhos pelo ambiente e descansei os olhos na única mesa ocupada. Eram três estudantes com uniforme de minha antiga escola, os três traziam suas mochilas ao chão.

Meio zangada mas em consideração à minha filha, resolvi fingir que estava tudo bem. Abri a bolsa e passei a ocupar-me de meus poucos pertences: a carteira que guardava dinheiro e documentos, um pequeno relógio de pulso, balinhas para evitar a hipoglicemia e minha toalhinha que eu sempre trazia comigo para alguma emergência. Dentro da bolsa, ficou apenas meu pente e um espelhinho. Entreguei de má vontade a bolsa pra atendente mal encarada.

- O que tem na pasta da menina?
- Um caderno e alguns lápis e canetas pra ela fazer anotações.
- Caderno de brochura não pode, porque vai marcar os livros.
- Caderno espiral pode?
- Pode.

Com essa resposta, tive certeza de que ela estava de má vontade comigo. Caderno espiral cheio de arame prendendo e rasgando tudo pelas pontas, tinham livre acesso. O caderno brochura com seus dois grampos que guardavam suas pontas no meio das folhas, sem causar maiores danos pelo lado externo, eram proibidos. Entendi logo que o objetivo da negra Hitler era implicar comigo. Ainda tentando evitar confrontos, arranquei os grampos do caderno sob o olhar desconsolado de minha filha. Se eu não estivesse tão decidida a implantar o gosto pela leitura e a riqueza de uma biblioteca, teria ido embora naquele momento.

- Agora pode? - perguntei com cara de ironia à Hitler.
- O caderno pode, mas tem que tirar o relógio.

Tive que me controlar para não sopapear a Hitler.

- Qual o problema do relógio?
- Pode marcar os livros.
- E se eu deixar na cintura?
- Tem que deixar aqui.
- Se eu deixar no bolso de trás, o relógio nem vai chegar perto dos livros.
Pus o relógio no bolso de trás de minha calça e mostrei a bunda pra ela.
- Viu? Não vai atrapalhar nem marcar nada.

Ela me olhou meio desconfiada, zangada por eu ter encontrado uma solução. Parecia analisar a situação para buscar algum empecilho à entrada do relógio. Tentei completar meus argumentos antes que ela inventasse mais alguma coisa:
- Meu relógio é caro e original, tem várias imitações pela cidade. Tem algum formulário pra preencher avaliando o valor de meu relógio para o caso de você perder ou deixar cair e quebrar? Você assume o prejuízo? Se me der alguma garantia, deixo o relógio. Caso contrário, sei que estou no meu direito manter essa parcela de meu patrimônio sob minha tutela.

Ela ficou na dúvida por alguns instantes mas resolveu me deixar com meu relógio desde que eu o mantivesse no bolso de trás.

- Concordo! Quando eu precisar verificar as horas venho até o seu balcão.

De alguma forma ambas nos sentimos vitoriosas. De minha parte, a sensação não durou muito.

- Não pode entrar com alimentos, as balinhas ficam.

Desesperei-me. Como explicar pra tapada que o que ela via como balinha era minha salvação caso eu começasse a sentir os sintomas da hipoglicemia de minha diabete? Ela já havia cedido com o relógio, não teria mais nenhuma boa vontade para comigo.

- Sofro de diabete.

Ela não esboçou nenhuma reação, apenas me encarava séria, impaciente e zangada.

- As balinhas são para me prevenir da hipoglicemia.
- As balinhas não entram.

Olhei para minha filha. Vi seu rostinho assustado e inseguro olhando para a Hitler. Senti seu medo. Pela única vez na vida tive real desejo de matar alguém. Pedi minha bolsa de volta, arrumei meus pertences e saí.

Não entramos em biblioteca naquele dia e em mais nenhum dia após o duelo. O reflexo daquele fato grudou na memória de minha filha como bicho peçonhento. Os livros escolares, antes constantemente manuseados, passaram a ser usado o mínimo possível. Os livros infantis que fui comprando aos poucos, só eram folheados quando eu a punha de castigo obrigando-a a leitura em voz alta, numa tentativa de agregar-lhe algum amor à literatura.

Mesmo depois da vida adulta, ainda vejo minha filha arregalar os olhos cada vez que se fala em visitar biblioteca, que ela encara como salas de tortura da Idade Média. Chega a dirigir-se à ponta da calçada ao passar em frente às livrarias, como se os livros fossem voar em sua direção num ataque ao mais perfeito estilo Hitchcock.

Fico com meus botões amaldiçoando a Hitler até os dias de hoje. Penso nas pessoas que pegam livros emprestados e nunca devolvem, naqueles que sabem esconder qualquer objeto junto ao corpo e em muitas outras situações que a Hitler não tem como controlar. Sinto a decepção de saber existir um lugar que deveria ser um culto à cultura, agir contrariamente a sua proposta inicial. Até a última vez que passei em frente à Biblioteca do Méier, pude notar a falta de visitantes. A Hitler permanecia em sua função de tentar impedir de todas as formas que qualquer pessoa alcançasse os livros. Ela me reconhecia ao passar dos anos, nos encarávamos discretamente e logo depois eu percorria o olhar pelos inúmeros autores e personagens, proibidos de receberem visitas ou mostrarem ao mundo seu conteúdo. Um presídio de livros sem palavras.


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