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*Esta autora escreve neste espaço às quartas-feiras
 

Decisão

27|12|06 • Mariana dá uma última olhada em frente ao espelho. Não estava completamente satisfeita mas essa semana também não tivera tempo de lavar suas roupas. Apesar do armário cheio, o vestido que queria para aquela ocasião, dormia tranqüila no cesto de roupas sujas.

Conseguiu se formar em arquitetura, um bom emprego lhe garantia a continuidade de seus dias na metrópole com certo conforto. Sentia falta do carinho da família que deixara no interior de Minas Gerais.

Todos os detalhes deviam estar perfeitos. Dessa noite dependia o que seria a sua vida dali por diante. O jantar tinha sido encomendado através de um serviço de cozinheiros na Internet. Nunca tinha contratado nada pela Internet, mas os compromissos e o estresse das últimas semanas não lhe deixaram outra saída. O cheiro que exalava das travessas, parecia querer tranqüilizá-la quanto à qualidade do sabor.

Jonas era o homem da sua vida, não tinha a menor dúvida quanto a isso. E essa noite era definitiva para ambos. Apesar de todas as demonstrações que fizera para provar todo o seu amor, esse homem ainda titubeava em confiar nela, era ciumento e possessivo.

Dizia que não confiava era nos outros homens. Mas como mulher vivida, Marina sabia que a insegurança de Jonas atrapalhava o relacionamento dos dois. Estavam bem quando estavam sozinhos, entre amigos – principalmente os dela, não demorava a surgirem olhares de crítica e reprovação. Quando chegavam ao apartamento dele, aconteciam as brigas.

A última tinha passado todos os limites. Ou ela ficava sem os amigos, alguns de muitos anos, e curtia a companhia do homem que seu coração escolhera para parceiro ou ficava com os amigos e se condenava a uma vida sem a brasa por cima de colchões ardentes. Uma coisa era certa: combinavam muito bem na cama. Esse era o último acerto entre os dois. Lógico que queria conservar seus amigos e seu homem.

O interfone tocou, tirando Marina de seus devaneios. Um longo suspiro de guerreira partindo pra luta escapulira de sua garganta.

Ele chega com flores e uma garrafa de seu vinho preferido, usava o perfume predileto de Marina assim como também a blusa que ela lhe dera no último aniversário. Estava lindo e muito sexy. Trocam olhares, sorrisos e um beijo ardente.

Marina interrompe o interlúdio. Gastara uma nota com os cozinheiros para desperdiçar todo o jantar. Além do mais, estava mesmo faminta! A conversa seria vital para o futuro dos dois, não se permitiria relevar tudo mais uma vez. Era a hora do vai ou racha. Estava pronta para assumir qualquer conseqüência que viessem a decidir.

Jantavam ao som de músicas românticas de compositores brasileiros. Ajudavam no clima, que estava meio pesado. Ambos processavam um milhão de pensamentos de sim e não.

Acaba o jantar. Sorviam a sobremesa feita de frutas.

Ela mal sentia o gosto da fausta refeição que fizera tanta questão de experimentar. Seus sentidos estavam aguçados para outra questão, em alerta total. Os homens sempre fogem de conversas sérias, sabia que teria que puxar o assunto antes que terminassem na cama.

- Meus amigos eu não deixo. Conheci todos eles antes de conhecer você. Estiveram comigo em muitos momentos pesados e solitários de minha vida aqui na cidade.
- Você não precisa daqueles seus amigos beberrões. Agora você me tem para te apoiar quando precisar. Não fica bem ser vista na companhia deles. E como falam palavrão...
- Meus amigos são pessoas de bem. Quando saem para se divertir agem como qualquer outro grupo de amigos: deixam a seriedade de lado e relaxam.
- Mas você relaxa demais, não gosto da maneira que vocês se tocam tanto. Pra ser amigo, tem que abraçar tanto?
- Eles estavam me cumprimentando pela promoção na empresa. Você que cismou que um deles estava exagerando muito. O Sérgio é carinhoso com todos, você que ainda não reparou.
- Ele pode ser carinhoso com quem ele quiser, mas você está comigo e eu não gosto dessas demonstrações de amizade entre vocês. Incomoda-me e pronto.
- Jonas, eu conheço o Sérgio há mais de 10 anos, se fosse para termos algum caso ou qualquer outra coisa, não acha que já teria rolado?
- Ele estava namorando, agora ele está sozinho e não gosto das olhadas que ele dá pra você. Só se é para me irritar.
- Essas olhadas só existem na sua imaginação.
- Você que não está querendo ver o que todos estão vendo, não se importa com meus sentimentos.

Lá vem ele outra vez com esse papo. Jonas não mudaria nunca, jamais confiaria nela. Sua insegurança estaria sempre entre eles. Hoje era o Sérgio, amanhã seria o João e depois seria uma sucessão de "nãos". Não queria isso para sua vida. Não queria viver com alguém se sentindo uma prisioneira.

Marina levanta-se. Desliga o som.

Ele enlaça sua cintura pelas costas e põe-se a lhe encher de beijinhos sensuais pela nuca e ombros desnudos de Marina. Ela fecha os olhos e respira fundo. Volta-se para ele e o olha bem nos olhos. Vê o desejo incontido, ela também o desejava com ardor. Estavam sem se ver a uma semana e o corpo de Marina sentia falta das carícias quentes do corpo de Jonas.

Os lábios de ambos se unem num prolongado e apaixonado beijo. Marina revivia todos os momentos que passara com Jonas. Todas as brigas, todos as camas que partilharam. Aguarda pacientemente que o beijo se finde, aproveitando ao máximo cada último gosto de Jonas.

Afasta-se o pegando pelas mãos. Encaminha-se para a porta. Ele assume uma expressão de surpresa. Ela abre a porta. Não precisam palavras, ele entendeu tudo.

Lança-lhe um olhar penoso e ela ainda vê uma lágrima nascendo nos olhos dele. Ela também não havia gostado da maneira que as coisas ocorreram. Segura uma lágrima teimosa e telefona para uma das amigas.

- Onde vocês estão agora?
- Tudo bom, Marina? Está faltando você aqui. Estamos no barzinho perto da casa da Júlia, lembra onde é? Aquele que tem aquele carinha tocando violão. Está lotado isso aqui hoje. Você vem?
- Estou indo praí agora mesmo.
- Como foi com o Jonas? Ele vem com você?
- Não.

Não precisava dizer mais nada. Seus amigos saberiam o resultado dessa noite assim que ela chegasse lá sozinha.

Entra no bar meia hora depois e logo avista o grupo de amigos, todos rindo, já afetados pela ingestão do álcool. Marina sorri. Estava atrasada a alguns chopes, para empatar com o clima da galera.

Assim que chega perto do grupo, uma sucessão de abraços e beijos lhe cercam de todo carinho. E pensar que por um momento pensara em renunciar a tudo isso. Estava no meio de gente que a aceitava como ela era. Seus amigos não faziam cobranças, lhe divertiam. Nada como relaxar com os amigos depois de uma semana estressante.

A cama? Um tempinho sem sexo não lhe faria mal. Serviria para esquecer as marcas invisíveis que Jonas deixara em sua pele, em seus desejos...

Em algum lugar havia alguém perfeito pra ela. Não aceitaria qualquer um. Aprendera a ser exigente consigo mesma, era uma pessoa de valor. Ela esperaria, não tinha pressa.

Definitivamente, não havia a menor pressa...


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