A sombra
21|11|06 • Eduardo terminou mais uma etapa do seu trabalho naquela manhã e hesitava em desligar o micro. Não queria começar outra etapa antes de sair para o almoço, faltavam apenas alguns minutos. Olhou para a tela e seus dedos ágeis digitaram um endereço como se criassem vida sozinhos.
De consciência pesada e com um calor anormal para a temperatura baixa que fazia naquela terça-feira, viu surgir à sua frente o blog dela, sua ex. Depois de tantos meses, uma necessidade o impelia cada vez com mais freqüência a visitar as páginas dos sites em que ela participava. Até fizera um e-mail com nome diferente do seu para acompanhar os e-mails em alguns grupos on-line que descobrira ao acaso que ela participava. Ler suas poucas palavras fazia com que sentisse uma força que apenas ela sabia transmitir-lhe.
Quando haviam terminado, sentia um furor ferino a cada lembrança dela. Os dias e meses passaram, o furor acalmou, as coisas passaram a seguir seu rumo normalmente. Uma vez, por curiosidade inocente, visitara o blog dela rapidamente e desde então, não conseguia afastar-se. Inicialmente suas visitas eram espaçadas mas nos últimos meses, não passava uma semana sem que pesquisasse por seu nome em sites de busca ou não digitasse diretamente um de seus muitos endereços na Internet. Isso ajudava-o a sentir de novo seu perfume que insistia em marcar presença em sua memória.
Tinha outra namorada agora, aliás, por causa dela que tudo se desmoronara mas recusava-se a admitir que não se sentia plenamente feliz. Ela não era "ela", apesar dos muitos pontos em comum entre as duas. Mentia para si e para todos, não queria desperdiçar a sorte que batera e sua porta quando sua atual mostrara algum interesse por ele. Preparara razões lógicas e desculpas suficientes para o caso de sua atual o pegar no flagra visitando sua ex, não queria desperdiçar a sorte que batera e sua porta quando sua atual mostrara algum interesse por ele.
Terminara com sua ex de forma a garantir que ela nunca mais o procuraria. Era a única maneira de sentir-se seguro com a atual, que estudava para juíza de direito. Para ele, um ex-feirante e ex-presidiário, a sorte havia caído do céu. Suas maiores preocupações eram de ordem financeira e o salário de uma juíza não era algo que pudesse ser ignorado. Esta o forçava a estudar, ele achava um saco mas enchia-se de risos e fazia uma cara mais animada quanto possível, cada vez que ela interrogava-o sobre os estudos. A oportunidade não caía duas vezes no mesmo lugar, havia se repetido muitas vezes essa mesma frase antes de tomar a decisão que mudaria sua vida pra melhor.
Já não tinha tanta certeza assim. Num impulso, havia enviado alguns e-mails melosos à ex e sentia-se acabrunhado por não ter tido nenhuma resposta. Não era assim que tinha que ser? Isso o fazia voltar muitas e muitas vezes às suas páginas, buscando uma resposta em código, algum recado, algum comentário que fosse. Ao mesmo tempo um frio na barriga o deixava paralisado por conta de sua imprudência. E se ela deixasse algum comentário direto e a atual visse? Que desculpa inventaria?
"Ela só está te provocando."
"Deixe de ciúme, eu não estou com você?."
"Foi você que eu escolhi, isso não quer dizer nada pra você?"
Frases assim já haviam surtido efeito muitas vezes, trazendo de volta o sorriso à sua atual. Até quando poderia usá-las? Sabia que estava metido num rolo emocional que não queria reconhecer. Como agüentar mais um dia com essa falta que sentia?
Os pequenos aborrecimentos que passara nos últimos meses, o fizeram chamar por seu passado inconscientemente. Assustara-se um pouco com esses pensamentos mas resolvera não lhes dar crédito. Sua única preocupação devia ser voltada para a juíza, devia esforçar-se em satisfazê-la em todos os pontos. O que importava se ao fazerem amor nunca mais tivera o mesmo prazer que experimentara nos braços de sua ex? Chegara a comentar isso naquele primeiro e-mail que lhe enviara e se arrependera logo depois. O que ela pensaria se soubesse que toda vez que transava com a atual, o único jeito de sentir prazer era pensando nela? Não fizera bem lhe confessando sua situação íntima. Depois houve o segundo e-mail, o terceiro... Quantos mesmo havia lhe enviado? Não tinha certeza, mas sabia de cor e salteado tudo que ele havia lhe escrito. Será que ela tinha lido?
Teria que ser mais cuidadoso, a juíza desconfiava que algo não ia bem. Podia sentir sua desconfiança no ar ou seria sua consciência pesada? Para sua sorte, ela achava que sua situação profissional lhe dava todas as vantagens perante a ex, sua função era mantê-la com essa confiança nem que fosse necessário manter-se sob sua total vigilância. Seu coração não podia interferir em seu futuro, era sua última chance de melhorar financeiramente. Se fosse mais novo...
Digitou mais um endereço "dela" e todo seu corpo tremeu ao verificar que havia um novo post. Logo se acalmou com a decepção ao notar que este, assim como os outros, não lhe dizia nada. Desligou o micro num reflexo, com raiva, como se assim pudesse apagar a memória "dela". Tinha que aprender a controlar seus pensamentos.
Dirigiu-se ao banheiro para lavar o rosto e retirar qualquer vestígio sobre os últimos minutos. Sua atual provavelmente já estaria se dirigindo ao restaurante onde a encontraria para almoçarem juntos. Assim que acabou de lavar o rosto, ela ligou. Atendeu tentando parecer o mais feliz possível.
Não sabia até quando conseguiria enrolar a juíza, até quando a manteria confiando cegamente nele. De sua parte estava decidido a não permitir que ela caísse em si sobre o tumulto que assombrava sua alma tão dolorosamente. O amor? Quem queria o amor? Sua atual não queria, ela precisava apenas de um corpo a seu lado e alguém que pudesse lhe dizer palavras bonitas de vez em quando para elevar-lhe a estima. Ele não queria o amor, queria apenas garantir uma velhice tranqüila. Isso lhe bastava. Até quando?
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