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*Esta autora escreve neste espaço às quartas-feiras
 

Desastrada, eu?

23|10|06 • Até que ultimamente, apesar de toda a agitação, tenho me mantido bem disfarçada como pessoa "normal". Mas tem coisas que parecem funcionar como represa e, quando se abrm as comportas é aquela enxurrada.

Acordo bem como em qualquer outro dia. Para abrir os olhos não há nenhuma dificuldade. Essas começam  a partir do momento que me movo para sair da cama.

Começo dando uma joelhada numa mesinha que  sempre esteve aí mas nunca me dei conta dela. Não, não foi essa joelhadinha de gente que se levanta meio em câmera lenta não. Foi um poff sonoro e em bom som, digno de pessoas que já se levantam afobadas. E depois de tentar com alguns carinhos, fazer com que meu joelho paresse de doer, sem alcançar o menor sucesso, tenho que me conformar e ir mancando para o banheiro. Devia ter percebido que meu dia não seria normal, ou melhor, que este seria um dia do meu normal!...

Lá-rá-ri la-lá... Toda feliz tomando o meu banho e o sabonete cai no chão. Bobagem, comigo ele sempre cai todas as vezes que tomo meu banho. É infalível! Abaixo-me para pegar o escorregadio espumoso sem me atentar com o fato que eu estava justamente lavando os pés. Poff de novo! Bunda ao chão e a maior vergonha do que eu não sei, já que só tinha eu no banheiro. Minha cabeça está doendo, acho que bati com ela nos ladrilhos também. Ai como dói!

Não vou deixar que esses pequenos acidentes estraguem o meu humor. Acabei de acordar e tem muita coisa pela frente. Por um milagre consigo terminar meu banho sem outros acontecimentos.

Vou para a cozinha louca para tomar um café fresquinho. Droga! Esqueci de lavar a louça do jantar. Ainda bem que é pouca coisa, alguns pratos e talheres. Plaft! Quebrei um prato. P l a f t ! Calma, não quebrei o outro não. Só estava dando um replay pra você rever o lance em câmera lenta.

Ótimo, consegui lavar a louça. Ponho a água do café para ferver e vou pegar os componentes necessários para preparar tudo. Abro a geladeira e vou afastar a panela que ficou na frente do meu pote de manteiga. Ploft! Caiu a panela. A comida se esparramou no chão limpinho da minha cozinha.

Chego a pensar em voltar pra cama mas como sou teimosa e tenho mil e uma coisas a fazer, afasto esse mau pensamento pras coxias dos infernos.

Não sei se limpo o chão ou termino de pegar as coisas. resolvo terminar de pegar as coisas porque assim se algo mais cair, o trabalho de limpeza será um só. Tenho que tomar cuidado porque esse chão de ladrilho fica escorregadio por qualquer coisinha e já tive minha cota de tombo por alguns dias.

Limpo o chão, coloco mais água na panela que a essa altura já tinha evaporado mais da metade. Tudo pronto. É a hora de acordar alguém com uns beijinhos.

- Mô, o café tá pronto, você não vem?

Smack aqui, smack ali.... O homem teve a infeliz idéia de se virar pra me dar uns smackinhos também. Poft! Demos uma cabeçada. Mas a culpa não foi minha. Ninguém o mandou se mexer. Devia ter esperado que eu me afastasse primeiro, oras!

Com a consciência pesada, ainda pergunto com a cara mais idiota do mundo:
- Doeu amorzinho?
Até agora ainda não sei como não me mandaram catar coquinhos no pico do Himalaia...

Vamos tomar café. Resolvo antes tirar a roupa da corda que estava deixando a cozinha escura. Não vou ficar guardando roupa agora enquanto o homem toma café sozinho. Deixo a roupa em cima da tal mesa que eu nunca tinha visto mais gorda e vou tomar meu café já quase frio.

Ele já tinha acabado, se apoderara do jornal e voltava pra cama pra fazer sua leitura.

Vou atrás tomar café com ele no quarto. Nem preciso dizer aonde esta imbecil que vos fala, resolveu apoiar o copo de café. Depois desse início de dia, preciso dizer que o café derrubou? O copo cheinho....

Eu começo um corre-corre danado pra colocar a roupa na máquina antes que manche perpetuamente. Desisto do café e pego um pedaço de bolo de fubá velho e um copo de água. Sinto-me como uma prisioneira em quarentena. Será que elas também comem bolo de fubá velho nesses dias? Duvido muito... Já aconteceu tudo que tinha para acontecer, com certeza o restante do dia será livre de acidentes.

Foi apenas uma coincidência que na rua eu tenha derrubado uma barraca de caquis deixando o vendedor paralisado com o susto.

Também foi uma mera coincidência que, na hora que fui me sentar para tomar uma cervejinha eu tenha conseguido esbarrar em duas mesas de uma só vez, derrubando tudo. Sabe que até agora eu não sei como eu consegui isso? Ainda bem que pelo visto, as pessoas já tinham tomado todas e estavam naquela fase de achar graça de tudo. Porque eu morri de rir na mesma hora!

Estava escrito no destino que na hora em que eu me decidisse entrar numa loja rapidinho pra ver uma blusinha pra minha filha, esbarraria numa senhora com uma sacola que se esborrachou no chão tamanha a força do encontrão. São coisas que acontecem naturalmente. E fui ajudar a senhora a se levantar e a juntar as comprinhas dela, lógico. Só não reparei que vinha uma mãe com o filho comendo um enorme sorvete de casquinha recém-comprado. Que culpa tenho se minha dolorida bunda resolveu tirar casquinha do sorvete do menino? Quem ficou melada no traseiro fui eu...

Depois de tantas aventuras é desculpável que eu não tenha olhado para os dois lados da rua de mão única antes de tentar atravessar. Ainda bem que os freios do carro estavam em dia. O motorista ainda teve o atrevimento de me xingar!...

Ai meu caramba! Olha a perna da minha calça. Como é que eu ia adivinhar que essa poça era desse tamanho todo?

- Molhou a senhora? Desculpe, eu não tinha visto o buraco.

Acho que ela não acreditou em mim, esse povo anda tão descrente das pessoas...

Mas que cheiro ruim é esse? Agora já é demais! Essa foi a gota d'água.  Devia ser proibido levar cachorro pra fazer coco na rua. O meu faz direitinho no banheirinho dele, que gente mais relaxada! Tento achar um lugar para limpar a sola do meu tênis. Ainda bem que achei um gramadinho que se prestasse a esse trabalho sujo.

Depois disso, vim andando bem devagarzinho tentando concentrar toda a minha atenção no caminho de volta pra casa. Nunca achei o trajeto tão longe, a não ser naquelas vezes que estou apertada pra ir ao banheiro e tudo parece ficar cada vez mais longe...

Tiro o tênis antes mesmo de começar a subir as escadinhas. Entro em casa, atiro os fedorentos no tanque e corro pro banho. Jogo a roupa num canto qualquer e o cachorro corre pra cheirar. Coitado!

Acabo o banho, me enrolo na toalha e decido não sair mais da cama até que o dia seguinte chegue.

E ponto final!


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