O sapato
12|10|06 • A carne latejava sem pudor tornando cada passo um suplício, a pele gotejava de agonia encharcando a testa enrugada, flashes de inúmeros pontinhos de luz espocavam em sua visão forçando-o a uma caminhada mais lenta.
Só pensava chegar em casa e libertar os pés da tortura que lhe subjugava qualquer ilusão de conforto. Tamanha ansiedade nem lhe permitia notar o que se passava ao seu redor, só queria chegar em casa. O pensamento estava completamente voltado à libertação de seus pés.
Lembrava da cara do vendedor e brotava uma zanga espontânea, quase criminosa.
- Pode levar que ele cede com o tempo – dissera ele.
Sua natureza calma e a falta de horários vagos para dedicar-se às compras básicas terminaram por fazê-lo se decidir a comprar o tal sapato que agora matava seus pés. "Ele" não cedera com o tempo e as muitas horas andando apressado pelas ruas cobravam um preço alto demais para qualquer mortal, provocando dores dilacerantes.
Finalmente conseguia avistar seu prédio ao longe, mais um pouco e estaria livre. O emprego ingrato, o apartamento sufocante, as coisas velhas que mantinha em casa - algumas do tempo de criança, tudo era mínimo nesse momento. As horas que passava no escritório sentado, atendendo ao telefone que não parava de tocar com reclamação de clientes, pareciam-lhe uma benção, ao menos permanecia sentado e vez por outra deixava os pés ao chão. O apartamento mínimo lhe permitiria mergulhar os pés numa bacia de água fria em menor tempo. As coisas velhas serviriam para que pudesse apoiar os pés num nível mais alto para que o sangue pudesse finalmente circular sem barreiras.
Sabia que errara, não devia ter colocado os sapatos novos num dia que sabia que teria que andar tanto. Pedira licença a seu chefe para resolver os problemas de documentação de seu carro e aproveitara para fazer sua inscrição numa clínica de saúde. Nos dois lugares que esteve, o jogo de empurra decretara a falência de seu limite com aqueles sapatos.
De repente estacou e olhou irritado para o grupo de pessoas na portaria do seu prédio, algo estava acontecendo de muito sério. Contava três carros da polícia com seus ocupantes andando de um lado a outro com suas armas a postos. Alguns falavam pelo rádio, mas de onde estava não podia saber o que se passava.
Assim que se aproximou de um grupo de vizinhos, foi se inteirar do motivo daquela agitação.
- Ladrão, seu Ronaldo. Estão no apartamento da Dona Lucinda com as duas crianças de refém – era o vizinho do bloco dos fundos que lhe contava.
- Não podemos entrar, a polícia bloqueou tudo. Querem que a gente saia daqui pro caso de haver tiroteio – completava a esposa do vizinho.
Nosso homem pensou que ia entrar em colapso ao ouvir as primeiras palavras da mulher. Um desespero agonizante percorreu-lhe todo o corpo. Não podia entrar em casa. Olhou em volta para avaliar as possibilidades. Não havia nenhum bar ou mesmo alguma birosca aberta. Os comerciantes, dois idosos que ele não entendia como se agüentavam de pé, resolveram cerrar as portas ao saberem que havia ladrão na vizinhança. Poderia sentar-se na calçada, afastado daquele burburinho excitado dos curiosos. Desistiu ao olhar para baixo. Chovera por duas semanas seguidas, o que se via era apenas lixo e lama por todos os lados.
- O que fazer? Não podia simplesmente tirar os sapatos, sua educação não lhe permitia tal ação. Mas estava desesperado e a dor lhe convencia que valia qualquer coisa para se ver livre dos sapatos novos. Procurou um lugar que pudesse se apoiar e nem teve tempo de encontrá-lo. Um barulho de vidro se partindo logo após alguns estalidos despertaram seus reflexos e por alguns segundos esqueceu-se totalmente da dor. O marginal e a polícia trocaram mais alguns disparos. A rua ficou cheia de cacos do que antes era uma ampla janela do apartamento onde o ladrão protegia-se com as crianças de refém.
Não conseguia encontrar saída para sua aflição quando dois policiais, cada um segurando um dos braços de um homem forte e alto, atravessavam sua portaria em direção à viatura. O preso imediatamente causou-lhe inveja apenas por estar descalço. Quando se aproximavam da rua coberta de cacos, pararam indecisos. Era a sua chance. Correu de encontro ao grupo e sem pensar duas vezes, ofereceu seus sapatos novos para o ladrão. Os policiais olharam-no desconfiados mas ele não lhes dera tempo de reagirem. Já alcançara a parte segura do prédio e descalçava o mais rapidamente possível, seus instrumentos de tortura. O ladrão chegou a dirigir-lhe um olhar de gratidão. Nosso homem, agora aliviado, apenas sorriu. Pensava em toda a dificuldade e sofrimento que aquele par de sapatos lhe causara, pensara na decepção frustrante de não poder entrar em casa por causa daquele maldito ladrãozinho.
- Ah! Agora você vai ter o que merece – pensava com a segurança de quem conhece o martírio de ter seus pés espremidos horas sem fim.
Alguns vizinhos comentavam sobre sua nobreza, outros o olhavam com desprezo cruel. Mas ele sabia, só ele sabia o quanto aquele ladrãozinho ia levar de troco por atrasar sua salvação.
- Ora, se vai!
Subiu para o seu apartamento sentindo-se livre. Livre como nunca havia se sentido antes.
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