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*Esta autora escreve neste espaço às quartas-feiras
 

Um Passeio pelo Formigueiro

08|12|07 • Meus amores de computador, que não são fantasias de meu coração! Com a proximidade das festas natalinhas, entro em "pausa comercial". Época de fazer as malditas compras... AFF!

Ir ao supermercado é quase um suicídio. Idosos e empregadas domésticas estacionando em filas dupla e tripla. Crianças apostando corrida como se estivessem na pista do Autódromo de Jacarepaguá. Adolescentes, ansiosos pra pegarem as bebidas alcólicas pro churrasco da confraternização com os amigos, na proporção de um quilo de carne para cada vinte litros de cerveja. Jovens gastando seus primeiros décimo-terceiros da vida, olhando todas as marcas e lendo cuidadosamente seus rótulos como se ali fossem registrados, em código milenar, algum mapa da fortuna.

Tomei um banho de panetones. Estava no expositor pegando alguns panetones quando rapidamente chegou um moleque, puxou uma embalagem qualquer e voltou apressado pra junto de sua mãe. Não deu tempo de me afastar da "chuva". Um monte de Bauduccos se jogaram em cima de mim.

Os clientes do mercado e alguns funcionários foram testemunhas que aquelas caixas queriam vir embora comigo. O gerente devia ter-me dado todas!

Na fila do queijo, uma senhora empurra as demais que estão à sua frente (eu entre elas) para não deixar "ninguém furar fila". O velhinho que estava atrás de mim, decidiu tirar partido da idéia de jerico da tal mulher. Acredito que algumas amigas e alguns amigos cor-de-rosa, teriam adorado sentir o "tamanho" do velhinho. Esses velhinhos de cabeça branca estão com tudo!
Saí da fila e deixei pra pegar o queijo na padaria mesmo.

No meio da manhã fui ao centro da cidade. Pude sentir o burburinho e a energia que toma conta das pessoas nesta época. Como num passe de mágica, amigos de velhos tempos são relembrados em listas de presentes e cartões, parentes distantes tornam-se os melhores amigos e os melhores amigos transformam-se em deuses da cumplicidade compartilhada - seja lá o que isso queira dizer exatamente...

Tem gente comprando lembrancinhas para equipe médica que operou o furúnculo da batata da perna do sobrinho da professora do primo do faxineira da garçonete, que trabalhou naquela festa da amiga da avó da colega de cursinho.

Parei numa loja de brinquedos e, de cara, vieram nada menos que quatro vendedoras se colocarem à minha disposição. Eu nem tinha começado a olhar a vitrine. Fui em busca de outra loja, menos ansiosa. Encontrei uma espaçosa, clara e com vendedores bastante ocupados em arrumações e atendimento a clientes. Entrei e comecei a verificar os produtos que estavam à venda. Abaixei-me para olhar algumas agendas (estou precisando de uma, urgente! Alguém se habilita?). Quando estou me levantando, começa o rapaz do microfone berrar bem nas minhas costas. Tomei um susto do capeta e como não podia deixar de ser, derrubei as agendas que estavam em minhas mãos. Veio alguém lá do fundo reclamando que se eu tivesse sujado ou amassado as tais agendas, teria que pagar por elas. Eu apenas disse, calmamente:

- É mesmo? Pode chamar a polícia então...

Virei as costas e saí, deixando o sei-lá-quem soltando imprecações em todos os estilos.

Entro em outra, de roupas finas. Tive que dessitir ao ver as mulheres saindo dos provadores, suadas e com as peças a devolver voltando para os cabides para aguardar as próximas provas. Não serei eu a colocar essas peças sobre a minha valiosa pele.

Insisto. Na verdade o que eu queria mesmo era andar no meio do povo, ouvir pedaços de conversas, absorver aquela freneticidade e namorar o coração da minha cidade. Acabei descobrindo um paraíso num sobradinho recatado sem anunciantes em microfones, sem vendedores ansiosos, com espaço e ar-condicionado. Roupas e alguns artigos femininos. Ao alcançar novamente a rua, lembrei-me porque tinha escolhido a época das compras para retornar ao Saara: era para perder a paciência com o tumulto e vir embora bem rápido, antes de gastar dinheiro. Sinto as sacolas nas minhas mãos rirem-se de mim. Olho pra elas e rio junto.

Dou por encerrada minhas voltinhas e resolvo passear um pouco, bem longe dali. Dirijo meus passos em direção à Praça XV onde, pelo caminho, pretendo escolher um lugar para um bom suquinho com uma fatia de torta do tamanho do mundo. Começo a reparar na quantidade absurda de crianças vendendo toda a espécie de guloseimas e pequenos artigos. Despenteadas, maltrapilhas e... sujas pra kct! Quem tem coragem de adquirir um super Halls dessas mãozinhas imundas?

Descubro um restaurante com a entrada meio reservada e, apesar de preferir locais mais descontraídos, decido tentar a sorte por ali mesmo enquanto observo a molecada testando a paciência dos clientes. No restaurante só tem suco de laranja e as tortas parecem saídas de alguma linha de produção. Fico com o suco de laranja e troco a torta por uma mistura de saladas do self-service.

Foco minha atenção na lanchonete lotada de fregueses em frente. Tem três mulheres sentadas, atrapalhadas com seus embrulhos e lanches. Elas não conseguem conversar, são interrompidas a todo segundo por uma das crianças. Estas não se satisfazem mais com um "não, obrigada". Ficam rodeando, insistindo, implorando... Duas das mulheres fazem caras de zangadas enquanto a leitura labial da terceira diz "não vamos querer nada, pode ir embora".

As crianças notam que estou olhando e tentam entrar no "meu" restaurante. O garçom que está plantado na porta não deixa e elas somem - ou pelo menos pensava eu que tivessem sumido. Quando saio, uma nuvem delas me cerca, disputando quem vai conseguir me vender alguma coisa. Meu primeiro pensamento foi para meus pertences. Podem ser simples crianças assim como perigosos pivetes. Chega a Guarda Municipal e dispersa o grupo.

Saio aliviada e com um pouco de peso na consciência ao olhar seus olhinhos tristes. Eu terei um natal e elas? Provavelmente terão alguma confraternização através das igrejas de suas comunidades. Todas as igrejas que conheço têm um evento parecido, vai ver até esbarrarei com elas num desses. De repente, lembro-me de comprar alguns brinquedos extras para levar na festinha da associação, sempre abrimos as portas nesses dias para as crianças de rua e todos os anos fica faltando um ou outro presentinho.

Já totalmente satisfeita, vou andando devagar em direção ao ponto de ônibus. As pessoas passam por mim, algumas nem me olham, outras olham as sacolas, as mais indiscretas me olham dos pés à cabeça e ficam me encarando pelo curto trajeto até nos cruzarmos e traçarmos caminhos opostos. Tem aquelas também que vão andando apressadas, calculam muito mal o espaço que precisam para passar num espaço pequeno formado por duas ou mais pessoas e saem esbarrando em todos. Imagino um efeito dominó nessas horas.

Um rapaz me dá um encontrão tão forte que amassa meus sacrossantos seios. Tenho a nítida impressão que meu par foi parar nas costas. Ele me olha como se tivesse acordado de um sono profundo e eu, de olhos arregalados, tento dar um passo à direita para prosseguir meu caminho. Ele, de frente pra mim, resolve dar um passo para a esquerda. Tento um passo para o outro lado e ele teve a mesma idéia. A dor nos seios vai embora e ficamos os dois rindo, tentando escolher quem vai dar o próximo passo. Ele é novinho, mas ainda se lembra de algumas regras da educação. Se vira de lado e faz um gesto com as mãos me oferecendo a passagem. Agradeço e sigo meu caminho relembrando a dor nos seios. Quando dou dois passos, escuto uma gracinha que me fez trocar de cor na pele do rosto.

É. Época de fim de ano definitivamente não é a melhor época para fazer compras ou passear. Ou talvez... até seja!

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