O Amor se fez gente
Ah, o Amor! Disseram-me que ele deixou sua forma abstrata, e que, agora, está andando por aí, entre nós, pobres mortais, disfarçado de gente. Não sei se de homem ou mulher, porque, assim como os anjos, o amor não tem sexo. Esperto esse Amor, não demorou pra perceber que seu nome anda meio fora de moda, principalmente entre os mais jovens. Justamente eles, que estão se beijando na boca cada vez mais cedo, e dizendo “eu te amo” um ao outro, sem a exata noção da responsabilidade e importância da palavra “amor”. Se o Amor prestar bem a atenção, vai descobrir que, até os adultos mais experientes, já não conseguem transmitir com clareza, aos mais jovens, o significado desse sentimento tão nobre.
Ele quis saber onde estavam as crianças, com suas gudes, piões, pipas, bolas e bonecas. Foi surpreendido pelas risadas – com certo ar de deboche – de um transeunte, que passava apressado, e lhe respondeu: “De que planeta você é? As crianças estão dentro de casa, ou nas lan houses, na frente do computador. Os brinquedos de que você falou, são coisas do passado. Agora, o negócio é Orkut, MSN, Second Life, amizade virtual. Se liga, meu irmão!”
O Amor ficou espantado, e também curioso, pra saber como funciona essa coisa de “amizade virtual”. Como pode duas pessoas serem amigas, sem que uma possa olhar direto nos olhos do outra, sem poder trocar um abraço ou um beijo? Resolveu conhecer isso na prática: entrou numa lan e virou um orkuteiro. Fez vários “amigos” rapidamente, só porque colocou no seu perfil que ele era uma pessoa legal, amiga e que todos podiam contar com ele pra superar qualquer problema. O Amor se surpreendeu ainda mais quando descobriu – através de um convite sem meias palavras – que além da “amizade”, existe também o “sexo virtual”. Aí, foi demais pra cabeça dele. Ou melhor, pro coração dele. O Amor resolveu caminhar e respirar um pouco de ar puro.
“Vou ter uma conversa com os pais”, disse o Amor. “Só os pais podem dar um norte à vida de seus filhos, que estão deixando passar momentos preciosos, enquanto vivem num mundo de “faz-de-conta”, concluiu sabiamente. Mas, depois de tanto tentar, o Amor desistiu. Afinal, sempre que chegava numa casa, a reposta era sempre a mesma: “estamos muito ocupados pra conversar agora, mesmo que seja sobre nossos filhos, pois temos que trabalhar muito para dar tudo o que eles desejam”. Aí está o grande problema, pensou o Amor. “Os pais, de tão ocupados que estão, por causa desse mundo cada vez mais consumista, não têm tempo para o diálogo, o carinho, o abraço e as brincadeiras com os filhos. Em troca, lhes oferecem um celular de última geração, um mp4, um vídeo game moderníssimo...”.
Fiquei sabendo que o Amor se entristeceu. Pensou em deixar a forma humana e se tornar novamente, apenas um sentimento, algo unicamente abstrato. Achou que tudo estava perdido, que os homens não precisavam mais dele. Afinal, trocamos o mais nobre dos sentimentos, por bens materiais, por agressões verbais, por fantasias e ilusões virtuais. Há muito que não temos mais um tempinho para o Amor. E, sem ele, não enxergamos o amigo que necessita de apoio, não cumprimentamos o vizinho – que muitas vezes nem sabemos quem é –, não educamos mais os nossos filhos com a nossa presença, não acreditamos em mais ninguém. Mas uma coisa, de última hora, fez o Amor escolher permanecer entre nós: enquanto de seus olhos escorriam lágrimas, ele recebeu de um recém nascido, um sorriso cheio de esperança e fé. Fé nele. No Amor.
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Elano Ribeiro, 33, é escritor, autor de contos, crônicas e poesias.
*Este autor escreve às quartas-ferias.
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