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» RIO DE JANEIRO, 18 de junho DE 2008

ESPELHO, ESPELHO MEU


Em entrevista à revista Bravo!, do mês de maio desse ano, o cantor Ney Matogrosso diz que, num determinado dia, no início da turnê de seu mais novo show – Inclassificáveis –, sentira muitas dores musculares, provocadas pelos esforços que a apresentação da noite anterior lhe demandara. Por conta disso, ponderou: “é, não vai rolar... Não dou mais conta”. Foi aí que ele resolveu consultar o psicólogo que o orienta há séculos: o espelho.

Na mesma revista, numa suposta carta à Woody Allen, Domingos de Oliveira escreveu: “...O tempo passa como um rato na sala. Se tirarmos todos os espelhos da casa, passaremos melhor o dia...”

Espelhos: psicólogos para alguns, carrascos para outros. Testemunhas oculares da influência que o tempo exerce nas nossas vidas (leia-se aqui, nossa pele, esse revestimento perecível), de momentos íntimos – êxtase ou frustração–, de encontros e desencontros, das mensagens de amor escritas em seu “corpo” com batom vermelho, de sorrisos e lágrimas, de dores e curas, de nascimentos e mortes, de começos e fins.

Espelhos quebrados nos garantem sete anos de azar, dizem os supersticiosos. Por outro lado, refletem a nossa imagem partida, como se, de repente, nos transformássemos em dois. Duas fatias do mesmo ser. Um único cérebro que poderá, enfim, agir emocionalmente e racionalmente ao mesmo tempo. Um mesmo coração que terá, assim, permissão para amar duas pessoas simultaneamente. Um mesmo corpo que poderá, finalmente, se auto-observar em tempo integral – isso, se os dois lados do mesmo corpo caminharem de mãos dadas –, e contrariando as leis impostas pela física, ocuparão dois lugares ao mesmo tempo.

Espelhos, alguns muito grandes, colocados nos camarins dos artistas. Uns presenciarão o calor dos fãs, afoitos por um contato mais íntimo com o ídolo, desnudo das maquiagens, roupas e facetas que o personagem exigia. Outros, farão companhia aos solitários, quase anônimos, artistas circenses, que aos poucos vão retirando de seus rostos o brilho das tintas e purpurinas já desbotadas pelas lágrimas que lhes escorrem por conta dos aplausos negados pelo escasso público, e pela certeza de uma vida longe dos holofotes da fama e dos palcos de muita luz.

Na minha pequena casa existe um único espelho. Também não é grande. Minha esposa reclama: “não consigo me ver por inteira”. Eu, particularmente, acho que ele está de bom tamanho. E, a exemplo de Ney Matogrosso, o considero meu psicólogo pessoal. Perdi a conta de quantas vezes me coloquei na sua frente e lhe aluguei com meus problemas e dilemas. Suas sessões têm um preço bem acessível: vez ou outra um reparo na sua moldura, ou um pano úmido para lhe tirar as manchas de pasta de dente e dos desenhos feitos com as pontas dos dedos.

De frente para o meu psicólogo de parede, compartilhando do seu silêncio quase transparente, tento – muitas vezes em vão – não enxergar a imagem que ele reflete. Não que ela me cause aflições, pelo contrário, gosto dela, como uma espécie de Narciso dos tempos modernos. Sinto-me em paz e feliz com cada contorno que a pele da minha face adquiriu ao longo dos anos e, normalmente, deparo-me com um sorriso refletido. No entanto, esforço-me para buscar a imagem que existe dentro da imagem, e a outra dentro daquela, e mais a outra por detrás da outra e da outra..., até que eu consiga chegar no garoto de muitos anos atrás, cheio de sonhos joviais, que não tinha a menor noção do significado prático da palavra “problema”, e que via o espelho apenas como um objeto decorativo.

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Elano Ribeiro, 33, é escritor, autor de contos, crônicas e poesias.


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