O Pier e a Legião
Não sei até que ponto faz sentido uma lembrança, quando emaranhados de pontos vão surgindo no espelho, sob a sombra que balança de uma amendoeira e o ruído ao longe de um avião. Algodão doce que balança, carrinho de bebidas, a carroça de milho fervendo em meio ao canto das cigarras. Uma rede de vôlei vazia, o estar sozinho e modernos quiosques apinhados. O estar ali, meditando num feriado.
Se fosse um antigo 727da Cruzeiro do Sul, lá pela última fileira um jovem passageiro estaria preso ao cinto de segurança e sem saber abri-lo, começou a suar frio e ter medo. Motivo algum havia para isto, bastava chamar alguma comissária ou mesmo perguntar como fazer. Não chamou, não perguntou, ainda que a fileira fosse tripla e ao seu lado ninguém sentava, escondeu-se na janela esquerda e pasmem! Foi se contorcendo, se contorcendo, teimoso, até que conseguisse passar perna sobre perna embaixo do cinto (não perguntem como, tinha agilidade nesta época hehe) e se viu um pouco português, inteligente, livre! Que pessoa difícil, relutante em pedir ajuda por um simples problema, e já fumara maconha até vomitar e ficar tossindo sem parar sobre o carpete... O receio de tornar-se advogado num país vendido ao capital externo, onde se matava e arremessavam os corpos e o que víamos eram leis ineficazes e um grande circo na mídia para distrair um povo ignorante. Deve ter mudado. Bem, parou de fumar do nada (graças a Deus), como, aliás, tomava decisões, continuou a faculdade e resolveu mudar o mundo se filiando a um partido e para a capital inicial voava aquele dia! Engraçado, ninguém na juventude tinha dinheiro para ir nem ao calçadão de Madureira ou ao bar amarelinho na Lapa, quanto mais fazer uma viagem interestadual, e o ônibus fretado pelo nascente partido da social democracia brasileira, já estava lotado, e a decisão de ir foi de véspera, então voou pela 1ª vez, não sei exatamente para que nem o porquê. Escala rápida em BH e chegariam. Pegou carona com um cara que usava camisetas iguais, boa idéia para economizar uns trocados e o carro foi cheio de paulistas e ficaram zoando o sotaque carioca... Deveria ter ido no outro carro, com gente do Mato Grosso do Sul que talvez não o deixassem no eixão porque ainda iriam a outro canto ou outra direção; largado próximo a um hotel chamado Planalto, duas estrelas acho, entrou. Depois seguiu em linha reta pela imensa avenida, sem mochila, em direção ao 1º Congresso Nacional. Foi fácil: entre o verde, o azul e o negro falou com as meninas da recepção “Oi, tudo bom? Quero ser delegado” e no cadastramento nem perguntaram nada, imprimiram o crachá e pronto, deveriam estar precisando de jovens mesmo... Até que se distraiu bastante tumultuando algumas discussões e junto com um operário chamado Amaral, também do Rio de Janeiro, bicaram de penetra uma festa na casa de um banqueiro, onde estavam Covas, Fernando Henrique, Richa, Serra, e outros puderam conversar com alguns cardeais que já governaram esta nação...
Boas estórias ele nunca conta, porém a melhor foi subir no alto da torre de televisão e ter visto a cidade, que em Tiradentes faz aniversário, criada por candangos, Niemeyer e Lúcio Costa, ao anoitecer. O Píer e a legião passam tão rápido neste fim de semana, só única foto ficou, e agora ouvindo o barulho daquele avião ao longe, deitado às margens da Lagoa, sinto saudades deste amigo, que pode estar em algum bar do Lago sul, correndo na Pampulha ou no Ibirapuera, em qualquer outro espelho protestando, onde mergulhe um mp3 ao som da Legião Urbana!
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*Dr Guto aprendeu com este amigo a abrir cintos de segurança.
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