Tentei trocar três palavras com um ser virtual e consegui sete. De sete foram onze, que se multiplicaram em revisões gramaticais no além-mar, sem hífens nem tremas, e surgiram mais trinta e cinco amigos estrangeiros, mais treze à mesa, um sempre morre, não é? Ladrão bom, ladrão ruim, voto sim, voto não e mais uma lista de seres apagados. Assim ficou a surpresa de quem chega ao imaginário de uma sociedade deprimida. Não bastasse a televisão, cinqüentona de válvulas arriadas e despidas de controles de pilha, mostrou o astronauta na lua sobrevivendo: os cacos do muro viraram arte e o cristal gigante reduz o espaço das mentes. Computador no bolso, caneta que toca o cartão do jogo e a todo instante. Sem informatização não há vida e esta é a nova ética: se informar. Pra que? Milhões de crianças grandes pisam em barro, se escondem sem computador e mal assinam o nome. Ler jornal, nem pensar. Fui muito longe não, estava à uma hora da metrópole pulsante que se ilumina da ponte Rio/Niterói. Estou perto de vocês, saindo da rodovia, área rural de Rio Bonito, estrada de terra, vida tão simples! Geladeira a querosene, acreditam? Água de poço e fui seguindo... Aqui pelo menos não tem guerra e ainda dá para abrir uma franquia de alguma empresa. E ser escravo das horas atrás de algum ofício. Bobagem? Ler para viver, comer para ficar forte, amar para sofrer, conexões tão rápidas, entre o fogo e o alimento, entre o cru e o cozido. A rã me olhava no riacho, enquanto o cavalo empacou com sede, era bainho seu nome e não saiu mais. Esperei bom tempo ali, pensando, se algum dia a frente teria vontade de continuar por aqueles trechos. Garoto que saía sozinho sob sol quente ia adentrando sítios e matas, até Bacaxá, até perto do mar. Levantou espora e molhou os pés na lama, enquanto a tarde corria com sitiantes do local, chapéus de palha, calças rasgadas, carregando tochas para queimar ninhos de marimbondos, bem parecidos com duas colméias reviradas, uns cascalhos cor de cinza, meio compridos e ovalados, eu lembro, se incendiando e o bando em guerra. Transformar o podre em algo que comer, ainda que sejam futuras páginas. Prazer solitário. Li Dante e O Leviatã, Duverger, San Tiago Dantas e Paulo Coelho, Lia Luft, CoraCoralina ou mesmo Bruna Surfistinha, tudo é Literatura, cosmologia. E pouco entendi que sem o café da manhã de quem trabalha, digo esvaziar a quitanda algum dia, democratizar um pouco o acesso ao mel, de nada adianta aprender. Tentar será a agonia dos escritórios, dos que pensam produzir algo, a não ser cansaço. Vivemos cansados de bandos e reféns dos amigos (o HomeBanc, o delivery, o mercado livre, resquício das horas de algum game). O que tantos olhos fechados de sono, que não aplicam na bolsa de valores, não participam das regras, procuram? Somos um pontinho de id, identificados pelo universo em algum edifício, uma parabólica na casa de sapê, interligados, metódicos e se começarmos a perceber que as antenas de celular nos seguem pelas rodovias, alaranjadas, às vezes vermelhas, como uniforme das ambulâncias, poderemos ajudar... Temos sede de cultura, afeto, diversão, consumo, canseira e fuga. Celulares ligados embaixo da cama, para que? Esperando alguma notícia a macular o sono? Despertos pela amizade de quem deseja bom dia e tecla! São palavras e frases amigas de quem se importam conosco. Escritos poéticos em pára-choques de caminhões, em muros e imundos banheiros: trincheiras culturais. Se os clássicos nunca consegui ler mais que meia dúzia, fico míope politicamente e paro. Hoje sou um pouco menos alienado do que fui e votações secretas já não me causam asco. A falta d´água sim, o aquecimento global e abandono de crianças mutiladas, mortas de fome, mortas de tudo, sim!
Lutaremos ainda que seja com a frase de uma pichação “esfaqueie o presente e suborne o futuro, não o contrário”. Serão trechos de fogueiras, resgatados no tempo, nos viadutos, nos riachos de sítios abandonados. E desconfiem sempre dos certinhos e bem sucedidos...
................................................................................................................................................................................. *Dr Guto aprendeu a ser livre nessas estradas de terra