Cobaia Amiga (parte 2)
O problema é ajudar na África quando falta tudo. Não estamos preparados. Queremos ser felizes e as famílias vão se acabando. Queremos ser bonitos, bem nutridos, quereremos vencer sem sermos importunados pela sujeira dos mendigos. Pouco adianta: barbeados e fedorentos também virão nos assaltar e seremos clientes do perigo. Estava caminhando no observar de árvores frutíferas que circulam a Avenida Brasil, quando vi uma lagarta solitária, linda, reluzente em listras amarelas e negras na ciclovia perdida. Se continuasse ali, logo seria esmagada pela sola dos nikes e rebooks que passam rápido sobre nossas colunas ou alguma bicicleta com cestinha de pão, pedalada por um conga. Parei e busquei uma folha limpa para ajudá-la. Calmamente me curvo para próximo dela estar e nem sei como fazer, sem machucar. A mão é bruta e amedronta: virou-se contra mim com a rapidez do ataque! Susto que leva vidas ao asfalto: agora estava caída, contorcendo-se próximo ao meio fio e a culpa era minha em segundos, estaria esmagada pelo aço dos Pirellis que ficaram parados. Um barco salvador atravessava o sinal, carregado pelos braços de jovens remadores. Foi tempo suficiente para vencer o medo e pegá-la como fezes caninas de volta a jaqueira. Salvei a lagarta bem perto de um hospital na Lagoa aonde um dia eu corri e entrei sem ver a faixa que diz “não temos emergência”. Não pude reparar: a ponta do dedo quase amputada sangrava e muito e assim tive que apelar à solidariedade de um taxista que me levasse ao Hospital Miguel Couto. Saíra sozinho, na pressa que esquece documentos, até ser costurado por uma minúscula agulha curvada e por sorridente acadêmico que falava: “está doendo? Não se preocupe, respira fundo, o mal vai passar e em breve estará escrevendo de novo..." Naquele momento só queria ficar bom, só queria ser uma cobaia amiga! O amigo do ladrão, ameaçado pelo gatilho que não disparou: alguém que sobreviveu á violência na cidade e hoje escreve.
Se fôssemos artistas não seríamos enganados por todos e todo o tempo. Pensar que estamos bem, pensar que somos infelizes, que nossos filhos serão felizes e terão segurança, que Jesus voltará a uma Jerusalém de Paz e as mulheres ficarão sem falar de doenças depois dos 40, porque seguimos comendo enlatados, folhas de agrotóxicos e bebendo álcool e refrigerantes diet. Fumamos tabaco passivamente e como quase três bilhões de seres e também não precisaremos dos planos de saúde no futuro! Cápsulas de berinjela e chá verde são farinha? Quando osEts chegarem só espero que sejam cobaias inimigas de Bush e Lula! E das fumaças negras da Humanidade. Abbiamo Papa.
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*Abraços do DrGuto, cidadão que já teve o polegar esquerdo esfaqueado
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