O JUDAS
- Há uma coisa que eu queria contar...
Disse “dona” Ernestina, e continuou...
- É um “caso” que aconteceu num dia de aleluia... sábado de aleluia, pra ser mais precisa... Pode ser?
- Claro - disse “seu” Otávio.
- Pois bem... - seguiu ela. - Como todos sabem, em noite de sexta-feira santa, lá pela madrugada para o sábado de aleluia, muita gente coloca bonecos amarrados nos postes ou árvores. São os “judas”, que na manhã de sábado a garotada malha à pauladas...
“Havia lá no sertão agreste, numa cidadezinha chamada Seridó, um “cabra” metido a valente que infernizava a vida de muita gente daquela cidade.
Estava sempre nos bares tomando uma “pinga”...
Vai não vai, brigava com alguém. E, como era muito covarde, só escolhia os homens mais fracos que ele.
Nas brigas, ganhava todas, ou seus oponentes temerosos, se afastavam.
De tanto apanhar dele, sua mulher havia fugido pra longe dali e nunca mais se soube dela.
Ele também costumava fazer más ações.
Diziam que roubava os viajantes na estrada e que já matara alguns deles.
Outra coisa também é que ele não levava à sério as coisas da Igreja... Zombava daqueles que a freqüentavam. Ria e praticava heresias contra o nome de Jesus.
Um dia chegou a entrar na igreja montado no cavalo. Só saiu de lá quando o delegado, com alguns soldados, se aproximou.
Fugiu e passou uns dias fora. Depois voltou e continuou fazendo suas algazarras.
Outra vez, entrou na igreja completamente cheia e desafiou o padre local para uma disputa qualquer.
Ao ser recusado, xingou e falou mal de Jesus, que aquela igreja era maldita e que bendizia à Judas por ter entregado Jesus aos soldados romanos.
Todos se revoltaram e em coro o chamaram de “Judas”. Que judas era ele por ser tão mau e incrédulo.
O padre, fulo de raiva, o descomungou e o chamou também de “Judas”.
Logo depois, chegou a semana santa.
Toda a cidade estava em penitência. Alguns jejuavam e outros se confessavam e comungavam.
Na sexta-feira, houve uma procissão, onde um membro da igreja carregou uma cruz nas costas.
Todos os religiosos o acompanharam em louvor ao dia consagrado à morte de Jesus, crucificado.
O bastardo estava lá para infernizar a vida daqueles que participavam do evento.
Dando gargalhadas e portando uma garrafa de cachaça numa mão, dizia, zombeteiro:
“Aí, cambada!... Estão indo para o calvário, é?... Cuidado para não tropeçar na cruz... Há, há, há!...”
Falou outro monte de besteira.
Alguns o chamaram de herege, outros de Judas.
A verdade é que não tinha nenhum “cabra macho” ali pra dá uns tapas naquele safado.
A procissão se afastou e o nojento entrou no boteco, pedindo outra garrafa.
Ficou por ali bebendo até alta hora da noite.
Saiu dali totalmente bêbado. Montou no cavalo e enfiou a espora no pobre coitado em direção a sua casa, fora da cidade.
Quando passou em frente a igreja há uns cem metros depois do final da última rua da cidade, levantou a garrafa no alto da cabeça e soltou um palavrão.
Em seguida, esporeou o animal e saiu em desabalada carreira...
Dia seguinte, sábado de aleluia, a cidade acordou.
A molecada saiu às ruas procurando pelas esquinas, nos postes e nas árvores das ruas e da praça, os judas para malharem.
Onde os encontravam, era aquela festa.
Os mais velhos gostavam de ver os meninos pegando os judas pelos braços e puxarem para os lados, rasgando-os. Às vezes, até participavam da brincadeira.
Quando não havia mais judas pela cidade, alguém gritou ter visto um judas pendurado numa árvore à beira da estrada além da igreja há uns quinhentos metros.
Todos correram pra lá, vibrando os paus e varas.
Quando chegaram lá foram logo batendo e puxando o judas que tinha o chapéu de couro caído sobre o rosto e um laço apertado preso ao pescoço.
A gritaria era de euforia até que, de repente, um menino gritou:
“O judas está sangrando... Vejam! Está sangrando!... É de verdade!...”
Todos saíram correndo em direção à igreja ali perto.
O padre, que já notara a algazarra que os “moleques” faziam, estava chegando à janela quando viu a turma se aproximando. Todos gritavam:
“É de verdade!... É de verdade!”
O padre sem entender direito o que se passava, abriu a porta e foi ao encontro dos garotos.
Esses, puxando-o pela batina, diziam:
“Venha ver, Padre. É de verdade!”
Aí, o padre perguntou:
“O que é de verdade, meninos?”
E todos gritavam:
“O judas, Padre. É de verdade. Não é um boneco...”
O padre, assustado com aquilo, correu pra lá e chegando, conferiu com horror: pendurado à um galho pelo próprio laço do pescoço, estava aquele herege infeliz, malvado e demoníaco que atormentava à todos na cidadezinha com sua implacável perseguição maléfica.
Quis o destino que ele fosse castigado por suas maldades e heresias, morrendo enforcado como o próprio Judas morreu num longínquo sábado de aleluia, quando seu cérebro foi comido pelo arrependimento de ter vendido Jesus por trinta moedas: enforcou-se na primeira árvore que encontrou.
Mais tarde, se constatou que ele, ao correr com o cavalo, bêbado como estava na noite anterior, ao passar em baixo da árvore, se enroscou com o laço do pescoço naquele galho e ficou ali pendurado até morrer...”
D. Ernestina ainda disse, pra terminar.
- E assim foi como aconteceu, acreditem ou não.
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*João Manoel escreve para o site Crônicas Cariocas
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