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» RIO DE JANEIRO, 18 DE DEZEMBRO DE 2007

O CAIPORA

por João Manoel*

- Vocês já ouviram falar do “Caipora”, não ouviram? - Perguntei. Todos disseram que sim. - Pois bem, vou contar uma das histórias dele. Uma em que era perseguido pelo diabo...

- Cruz, credo!... Genésio. - Disse “dona” Ernestina, se benzendo.

- Pois é... - Continuei. “Havia no sertão nordestino, uma estrada que levava à “Mulungu”, uma cidadezinha daquelas bandas. Vivia por ali um caipora.

Um dia, ele estava sentado à beira da estrada, quando passou um viajante à cavalo e lhe perguntou: “Bom-dia, baixinho. Pode me dizer se “Mulungu” está longe?”

Ele respondeu: “Mais à frente. Umas duas léguas.”

O homem agradeceu, e quando ia esporear o cavalo, esse se assustou com uma cobra que apareceu à frente. Empinou e jogou o viajante por terra. Este, na queda, bateu com a cabeça numa pedra e morreu ali mesmo.

O caipora correu em seu socorro, mas já era tarde. Revoltado, ergueu as mãos ao Céu e disse: “Por que sou castigado assim?... Todos que se aproximam de mim são atingidos de alguma forma pela maldição que eu sofri: azarar à todos ao meu lado, e por isso eles têm medo de mim. Até os desconhecidos sofrem com isso? Ó Satanás que me castigastes com tua fúria. Liberta-me da maldição! Liberta-me para que eu possa morrer em paz como todo mundo!...

Uma voz se ouviu e o diabo apareceu...

“Chamaste-me, Caipora? Sabes que teu destino será outro se assinares o contrato!”

“Não te darei a única coisa sã que ainda me resta!” Disse o caipora.

“Então, continuarás condenado! Viverás causando o mal aos homens e tua alma, de qualquer modo, jamais irá para o Céu.” Dizendo isso, o diabo evaporou-se no ar.

“Volte, miserável!” Gruiu o caipora e saiu, cabisbaixo, se lamentando.

No dia seguinte, em um bar da cidadezinha de Mulungu, fizeram um comentário: “Acharam um “cabra” morto na estrada. Dizem que foi acidente...” Outro disse: “Uma mulher cruzou com um caipora por aquelas bandas. Vai ver, o coitado também...” O homem respondeu: “É... ele era estranho por aqui...”

Nisso, um outro estranho que ouvia a conversa, indagou:

“Desculpem-me. Eu também sou de fora. Já ouvi falar nessa criatura... Então, ela existe mesmo?”

Todos confirmaram.

“Como é ele?” Perguntou o viajante.

“Olha, moço, - Disse um deles. - pouquíssimas pessoas o viram ou falaram com ele. Quem fala com ele ou o toca, leva o azar para o resto da vida!” Disse outro: “Se não for fulminado por um raio na hora!”

“Estranho... Gostaria de vê-lo. Bem, agradeço à vocês o esclarecimento. Até logo.”

O estranho saiu dali sem notar que estava sendo observado por alguém escondido atrás de umas caixas: era o caipora.

O homem se afastou e o caipora foi no seu encalço. Quando atravessou a rua, o caipora se aproximou: “Hei, moço...” disse. Ele virou-se, perguntando: “Hã?... Quem é você?”

O caipora respondeu: “Eu estava no bar e ouvi a conversa.”

“Conhece Caipora? Já o viu?” Perguntou o estranho, interessado.

“Sim. - Foi a resposta. - Venha comigo que eu lhe mostro...”

“Certo, vamos.”

Algumas pessoas que passavam naquele momento, reconheceram o caipora: “Olhem! É o caipora, tenho certeza!” Disse um deles, e outro: “É!”

E mais outro: “Vamos queimá-lo!”

O caipora tratou de sair dali, correndo.

“O danado tá fugindo!” Reparou um dos homens.

O estranho então disse: “Esperem! Deixem-no ir.”

“Quem é você?” - Perguntou alguém. Um outro disse: “Afastem-se dele! Tava com o bicho. Pode nos afetar!”

Outro falou: “Vai ver é um deles!”

Calma, gente. Sou igual à todos vocês!” Respondeu o viajante, sorrindo. “Deixem-no comigo. Vou pegá-lo!”

Todos se assustaram. Alguém disse: “Tá doido, homem? Antes de encostar um dedo nele, acontecerá algo de mal com o “sinhô”...”

Sem dá muita importância, o estranho seguiu na direção tomada pelo caipora: “Logo o encontrarei.” Pensou.

Mais à frente, cansado, o pobre caipora sentou-se numa pedra pra descansar...

“Não posso continuar assim... Preciso achar um meio de tirar a vida desta velha carcaça.”

Nisso, o caipora ouviu um barulho atrás de si: “Hã? Quem é?”

Era o diabo que reaparecia.

“Eu, teu senhor e amo! - Disse este. - Estais desesperado? Precisas de ajuda?”

“Eu não posso mais lutar consigo. Liberta-me, por favor!”

O diabo riu e disse: “Existe uma condição e bem sabes qual! Podes se livrar disto tudo.”

Desesperado, o pobre coitado cedeu: “Você venceu! Eu aceito.”

Sentindo-se vitorioso, Satanás encheu o peito: “Ótimo!”

Naquele momento, uma voz veio de trás deles: “Um momento!”

Era o estranho da cidade que seguira o caipora. O diabo perguntou: “Quem é você, intrometido? Não tem medo de mim?

Ele respondeu: “Como, se não podes me atingir?”

“Não posso? Sabes quem eu sou?” Perguntou o demônio.

“Sim... És o diabo...”

O rei do inferno encheu o peito de novo, dizendo: “Então, como ousas pensar em desafiar-me?”

O homem tirou a máscara que usava e mostrou o verdadeiro rosto: “Sou a morte!... Nem o diabo pode vencer a morte! Vim buscar esse infeliz, que por sua culpa já fez muitos sofrerem!”

Se pondo em posição de ataque com o tridente, ele retrucou: “Terás de vencer-me primeiro!”

E os dois oponente travaram uma luta de gigantes, onde a morte, com sua foice, enfrentava o rei do fogo com seu tridente. A morte, entre um golpe e outro, disse: “Conseguiste escondê-lo até agora, mas acabou-se!”

O pobre caipora à tudo via, sem poder intervir: “Meu Deus!”

Ao se tocarem, os dois desapareceram, deixando-o sozinho: “Nossa!” Disse o caipora.
Muito além dali, os dois oponentes trocavam golpes.
“Desista!” Dizia a morte. “Nunca!” respondia o diabo.

Era uma disputa em que a vida e a alma de outro ser estava em jogo...

Uma luta da qual não poderia haver vencedor nem vencido...

“Não podes me matar... Esqueces que sou eu que tiro a vida dos outros?...” E o diabo retrucava: “Veremos!”

A morte disse: “Sou o fim de tudo!... De uma maneira ou outra, vencerei... Esqueces de quem eu sou enviado?”

“Não o menciones!!!”

Longe dali, o caipora sentiu-se mal e caiu por terra...

“Está acontecendo algo...” Pensou.

“Estou envelhecendo rápido!... Isso só significa uma coisa...”

E o rosto do caipora, enfiado na terra, ainda pôde sorrir: “A morte venceu... Estou livre... Minha alma está salva... Morro em paz...” E só restou o pó se misturando, pelo vento, com a areia da terra...

Mas, há outros caiporas pelo sertão à fora. E o diabo está de plantão, no alto de um morro, observando, doido para pôr a mão neles, até o fim.

Aí, pessoal, acabou-se a história...

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*João Manoel escreve às terças-feiras no Crônicas Cariocas


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