CREDO... E CRUZ!
- É um conto... Aposto que todos estão doidos pra ouvir.
Todos disseram que sim?
- Muito bem... É um “causo” real. Não pensem que não é. Aconteceu no interior do Rio Grande do Norte... e com um parente meu. O irmão de minha avó, que Deus a tenha em bom lugar. - Sei que alguns não acreditarão ser real este “causo”, passado há muitos anos atrás.
- Claro que acreditaremos, “seu” João. Todos sabemos que o senhor não é de inventar mentiras... - Raimundo, desta vez, deu uma força.
- Então, lá vai... “Há muito tempo, num lugar chamado Serro Corá, município do Rio Grande do Norte, onde viviam a família da minha falecida avó e seus irmãos... Sabem como é, lá eles também prosam à noite...
Alguém interrompeu com uma interrogação.
- Eu não sabia que o senhor é de lá, “seu” João...
- E não sou. Na verdade sou da capital. Meus pais se conheceram e casaram em Natal... Depois que minha avó saiu de Serro Corá foi morar em Natal, lá casou com o meu falecido avô Bernardo, daí, minha mãe nasceu e depois meus tios.
Já adulto é que vim pra cá...
- Para de interromper, deixa o pai contar. Essa estória é boa e...
Januário tentou ajudar, porém, o fiz calar.
- Calado, filho... Assim, falando de detalhes, você tira o impacto do “causo”. Como ia dizendo, a turma lá também gostam de um papo antes de dormir.
Então, certa noite, eles estavam sentados à volta da fogueira... era uma noite de junho e lua cheia. Nessa época faz um pouco de frio por lá.
O fato é que eles conversavam animadamente sobre o dia-a-dia na fazenda... é, eles criavam algumas vaquinhas e também tinham muitas cabras.
Contavam histórias e “causos” de assombração... enfim, tudo que podiam falar... Como ia dizendo, naquela noite, um dos rapazes acabara de contar um “causo” e causou um impacto tão grande, que muitos ficaram com medo. E era aquela história: na hora de ir dormir, os menores se agarravam na saia da mãe e só iam com ela ao lado. Nesse meio tempo, sempre aparecia uma das moças da família com um bule cheio de café e servia à todos...
Bem, voltemos ao “causo”... Então, no meio daquilo tudo, uns diziam que aquele “causo” que acabavam de ouvir não era tão assustador. Outro disse, que se fosse com ele, não teria medo de enfrentar o perigo, fosse verdadeiro ou assombração. Nesse meio tempo, meu tio Dino, que na verdade se chamava Bernardino, estava encostado a um poste próximo, fumando seu cigarrinho de palha. À tudo ouvia e prestava atenção...
O “causo” que fora contado, era à respeito de um cemitério onde mataram o coveiro e esse, algum tempo depois, saiu da tumba e, com a cruz tirada da própria cova, rebentou a cabeça do outro que o havia morto, voltando à tumba depois.
Pois bem, um dos rapazes a fim de provocar à todos, disse que ninguém teria coragem de ir ao cemitério pegar uma cruz daquelas... Um outro se apresentou: “Eu vou. Tenho muita coragem pra isso!” - “Essa quero ver!” - disse todos. O “corajoso” deu pra trás: “Tá besta, homem... Vai que uma alma aparece e puxa minha perna... É brincadeira.”
Então, alguém disse: “Quero ver se aqui tem “cabra macho” mesmo. Aquele que for homem de fato, vai lá buscar uma cruz!” Aí, um levantou dizendo: “Olha aqui, ó meu. Sou muito macho.” Outro disse: “Então quero ver você ir.” E a desculpa: “Bem, não vou porque tenho que acordar cedo amanhã e isso vai me atrapalhar, pois tenho que dormir cedo.”
Risadas e gozações. Todos riam e zombavam uns dos outros. As mulheres por sua vez, tentavam encorajar os maridos e irmãos ali presentes. Nada. E o “papo” continuou.
O tio Dino, que ouvira tudo aquilo, acabou de fumar seu cigarro, saiu dali tranqüilamente, de fininho, foi até a estrebaria e selou seu cavalo. Montou e saiu despercebido. Ninguém notou, já que estavam todos entretidos em volta da fogueira. Nem minha avó viu o irmão sair.
O fato é que o tio Dino cavalgou até o cemitério do lugarejo, que era um pouco afastado dali e, lá dentro, desmontou e foi até uma cova onde tinha uma cruz novinha e pintada de branco. Arrancou a cruz dali, deu meia volta, montou no cavalo e partiu de volta pra fazenda.
Nesse meio tempo, todos lá continuavam na “prosa” e já tinham até esquecido do assunto da cruz.
Estavam rindo de uma outra história contada por um deles.
De repente, sem que ninguém esperasse, caiu no meio deles, perto da fogueira, aquela cruz branca. Foi um susto só. Todos gritaram e se espantaram com a coisa.
Nisso, apareceu o tio Dino no seu cavalo e foi logo dizendo: “Vocês não disseram, quiseram até apostar, que aqui não tinha “cabra macho” que fosse ao cemitério pegar uma cruz?... Pois se enganaram! Tem um homem aqui e está à frente de vocês. Nunca ponham em prova a masculinidade de ninguém.”
“Calma, Dino. Era brincadeira... Não precisava ficar zangado.”, disse um deles.
Aí, tio Dino completou: “E pra provar mais uma vez o erro de vocês, vou lá devolver a cruz...”
E se abaixando da cela onde estava, pegou a cruz no chão e partiu à galope de volta ao cemitério e lá recolocou a cruz no lugar.
Desde esse dia, as “prosas” lá ficaram mais calmas...
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*João Manoel escreve para o site Crônicas Cariocas
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