A BUTIJA
por João Manoel*
- É um “caso” de lá da minha terra, em que nas fazendas, era muito comum. Posso contar?
E todos, numa só voz.
- Claro que pode.
- Todos por aquelas bandas tinham a mania de juntar dinheiro. Alguns escondiam debaixo do colchão da cama. Outros escondiam em baixo de um tijolo frouxo no chão ou nas paredes. E tinham aqueles que escondiam em “botijas”, vasos ou sacos de couro, e os enterravam no quintal ou no meio da fazenda, num lugar que só mesmo eles sabiam. Era o medo de ser roubado. Não confiavam nem nas próprias mulheres. Com o tempo, tinham economizado um dinheirão que dava até pra fazer a indepen-dência de alguns. O fato é que era assim...
Pois bem, havia numa fazenda um casal da qual eram donos. Ele juntara dinheiro e escondera numa botija no quintal. Nem mesmo ela, a esposa, sabia.
Um dia ele morreu e a viúva, depois de enterrá-lo, ficou endividada com os fornecedores da fazenda.
Ela, uma mulher de fibra, tratou de explorar melhor a fazenda e contratou alguns outros empregados.
No meio deles teve um que se tornou da confiança de Lourdes, a patroa. Seu nome era Antônio. Ele era muito trabalhador e um rapaz bonito.
Aos poucos, “dona” Lourdes foi gostando do rapaz e este dela. Com mais um tempo ele se tornou seu capataz e homem de confiança.
Tudo que ela queria pedia ao jovem. Este atendia prontamente: “Antônio, quero que vá a cidade fazer umas compras pra mim.” “Às suas ordens, Patroa.” Era assim.
Uma noite, Antônio, no alojamento, teve um sonho estranho. Sonhou que um rosto de homem lhe aparecia e pedia ajuda: “Ajude... Ache-a, no quintal. Ache-a...”
Quando acordou, achou se tratar de um sonho qualquer: “A gente sonha cada coisa...”
Na noite seguinte teve o mesmo sonho: “Cave... Cave... A botija... Socoooorro!”
Ele acordou com o corpo molhado de suor, pensou: “De novo... foi um pesadelo. Parecia tão real...”
No outro dia, achou que fora coincidência e não deu importância. Quando anoiteceu, lembrou-se do sonho e não conseguiu dormir. Era como se a lembrança fosse viva e martelasse em sua cabeça: “Cave... ache-a, a botija... Socorro...”
Não conseguindo dormir, levantou-se e foi dar uma volta, fumando, pela fazenda...
Passou o dia chateado, o que não passou desapercebido por “dona” Lourdes: “Há alguma coisa errada com o Antônio. Nunca o vi assim.”
Ela desmontou do cavalo e perguntou a ele: “Que se passa rapaz? Parece preocupado... Algo que eu possa ajudar?”
Ele respondeu: “Obrigado, “dona” Lourdes. Creio que não possa mesmo...”
Ela, solícita, disse: “Não quer tentar? Se estiver precisando de dinheiro, posso lhe adiantar algum...”
“Não se trata disso. É simplesmente algo que vem me afetando a cuca.” Respondeu ele.
Ela, maliciosamente: “Ora, se é alguma mulher...”
“Não - cortou ele -, é só um sonho...”
E Antônio contou tudo, desde a primeira noite: “Pois é isso que me atormenta...”
“Lembra como era esse homem? Pode descrevê-lo?”
E ele disse: “Sim. É como um retrato vivo!”
Antônio descreveu-o, dando todos os detalhes da fisionomia do homem do sonho. Aí...
Ela pensou, olhos arregalados: “O falecido!...”
“Patroa!... Ficou pálida de repente!...” Disse ele.
Então, ela o pegou pelo braço, dizendo: “Antônio, venha comigo. Quero mostrar-lhe uma coisa.” E ele: “Onde?”
Puxando-o pela mão, ela entrou na casa grande e levou-o até a sala: “É este?” E apontou para o retrato do marido em uma moldura na parede.
“Virgem Santa! É ele mesmo!”
E ela disse: “Meu marido...”
O rapaz se arrepiou da cabeça ao pés.
“Tô todo arrepiado. Como posso ter sonhado com alguém que eu nunca vi?”
Então, ela disse: “É estranho esse negócio da botija no sonho... Ele, realmente, escondia dinheiro de mim, sabe? Ele tinha outra mulher na cidade. Com certeza gastava com ela.
Por isso escondia de mim... Talvez ele nunca tenha vindo em meus sonhos por causa disto... Verdade! É isto! Antes estranhava o fato. Agora sei porque.”
“Entendo.” Disse ele.
“Antônio, escute! Não conte a ninguém. Proponho descobrirmos a verdade. Talvez ele apareça hoje e diga onde enterrou a botija.”
“Dona” Lourdes!... Só em pensar tremo de medo...”
À noite, em seu quarto, a viúva não conseguiu dormir... E no alojamento, depois de muito custo, Antônio dormiu, porém, seu sonho foi diferente. Sonhou tendo relações com “dona” Lourdes. E ela dizia: “Te amo, Antônio.”
Amanheceu, ele foi à casa grande. Ela perguntou: “Então, como foi? Ele apareceu?”
E ele disse: “Não. Sonhei foi com a senhora.”
“E o que sonhou?”
E ele respondeu: “Bobagem...”
A mulher, adivinhando o sonho do rapaz, risonha falou: “Olha, se encontrarmos a botija, prometo tornar este sonho em realidade.”
“Dona” Lourdes!...” Foi o que conseguiu dizer o rapaz.
Os dois combinaram procurar a botija à noite... Então, ela disse: “Dei folga aos rapazes hoje à noite. Eles saem às cinco da tarde e vão a cidade se divertirem. Só voltarão amanhã cedo. Temos a noite toda pra procurar. Vamos...”
E realmente os rapazes foram para a cidade às cinco da tarde. Todos à cavalo.
“Divirtam-se!...” disse ela. Então ele perguntou: “E o preto velho? E a cozinheira?
Ela respondeu: Se perguntarem diremos qualquer coisa. Além do mais, ele enxerga pouco e é meio surdo. Ela dorme cedo. Não haverá problema. Vamos agir.”
No quarto das ferramentas, pegaram pá e enxada.
“Por onde começamos?” Perguntou ele.
“No quintal da casa grande. Ele falou quintal, não foi?”
E começaram a cavar. Cavaram e cavaram, deixando o quintal todo esburacado. Ela disse: “Só estamos nos cansando. Não lembra de algo do sonho que indique o lugar?”
“Espere... Havia sim... Algo escuro como um tronco.”
Ela apontou numa direção, dizendo: “Há aquele toco. Era uma árvore que secou e mandei cortar...”
“É... Pode ser lá.”
Cavaram ao redor, até que finalmente...
“Toquei em algo!... É ela.” Disse ele.
“Tem de ser! - afirmou ela - Depressa! Depois repomos toda a terra nos lugares.”
Tiraram a botija e assim o fizeram. Recolocaram toda a terra que reviraram por todo o quintal. Quando terminaram, Antônio estava cansado: “Ufa! Mas valeu a pena...”
Então ela disse: “Tô doida pra ver o que tem aí dentro.”
Para evitar qualquer encontro com os dois empregados na casa, ela o levou para seu quarto: “Siga-me, sem fazer barulho.” Ele a seguiu, embora temeroso: “Não há perigo?”
Ela respondeu: “Deixa de ser bobo.”
E já no quarto dela, depositaram a botija sobre uma mesinha. Então ela disse: “Bem, veremos que segredo se esconde aí dentro.”
Olhando para o decote de “dona” Lourdes que usava um vestido bem decotado, deixando à mostra seus vastos e bonitos seios, o rapaz lembrou-se do sonho que tivera com ela e aquilo o encheu de paixão: “Gostaria de descobrir outro segredo...” Ele a abraçou, levando
sua mão ao decote.
“Antônio... não... agora não... a botija...”
Carente de amor e de carinho, “dona” Lourdes não resistiu e se entregou: “É maravilhoso... Ame-me...”
E ele: “É muito bom... amor... sinto prazer...”
Quando eles estavam deitados na cama dela, sem roupa, prontos para o amor, de repente aconteceu: Como possuída de vida, a botija estourou e todo o seu conteúdo foi lançado em cima dos dois: “Hã?... Que é isso?” Ela arregalou os olhos, assustada.
Ele só pode exclamar: “Nossa Senhora!”
Pela janela entrou, quebrando os vidros, um vento forte, úmido e frio.
Eles, se agarrando um ao outro, notas e moedas caídas ao redor.
Ela gritou: “Meu Deus! Que está acontecendo?”
O rapaz, vendo um vulto se aproximando por fora da janela, disse: “É ele! Sua alma!”
Ela não via nada: “Que está dizendo? Eu não vejo nada!”
“É ele! O homem do retrato! - retrucou ele - Está tentando dizer alguma coisa! Aponta pra você!”
Ela, mais assustada ainda, agarrou-se firmemente ao corpo do rapaz: “Antônio! Que loucura é essa?”
Então o rapaz entendeu o recado. Aqueles gestos, aquele olhar...
Então ele disse, segurando-a nos ombros nus: “Ele pede perdão à você. Me agradece por achar a botija, mas não pode ver-nos juntos. Ele ainda a ama e tem ciúmes!”
Embora assustada, ela repudiou aquela situação: “Não! Não posso viver com uma sombra. Mande-o embora! Ele não pertence mais a esse mundo!”
Antônio, embora também estivesse assustado, raciocinou friamente e disse: “Vá embora! Eu prometo que não a tocarei mais. Sua penitência acabou! A botija foi achada!... Vá embora!”
Com um sorriso, a aparição foi se desfazendo, até sumir...
Os dois ficaram ali, sem se mover por um longo tempo, como não entendendo o que havia acontecido...
No dia seguinte, Antônio resolveu partir, e já montado no seu cavalo, se despediu da viúva e seus empregados. Apesar dela insistir para ele ficar, estava resoluto: “Não posso ficar.
Depois disso tudo só me resta partir. Com a minha parte da botija, compre velas e mande rezar missas pra alma dele. Gostei de você. Em outras circunstâncias, eu ficaria. Adeus!”
“Adeus, Antônio. Boa sorte! Quando quiser, volte.”
E Antônio se afastou dali, vagarosamente. Se tivesse olhado pra trás, ainda veria sobre sua cabeça, o rosto com um sorriso de agradecimento do falecido... E o rapaz foi embora para sempre... Bom, é esse o final da história...
Foi aí que “seu” Onofre se manifestou.
- Essa eu também conhecia.
E a minha resposta.
- Claro que conhecia. Foi o senhor que me contou!...
Todos riram.
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*João Manoel escreve às terças-feiras no Crônicas Cariocas
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