A PASSAGEIRA MISTERIOSA
Isso que vou contar agora, aconteceu comigo quando eu era mais novo, bem mais novo...
Há exatamente sessenta anos atrás, em minha cidade, Natal, Rio Grande do Norte, em uma noite de lua cheia, aconteceu uma coisa que marcou muito a minha vida, me deixando incrédulo e assustado até hoje.
Antes daquela fatídica noite de lua-cheia, umas duas semanas, precisamente, foi o começo de tudo.
Eu costumava altas horas da noite pegar o bonde no bairro da Cidade Alta, onde trabalhava, e ir até o Alecrim, onde morava com meus pais e irmãos, eu era o mais velho.
Saía do serviço cansado e cheio de vontade de chegar em casa e dormir...
Naquela primeira noite das duas pré-faladas semanas, eu à vi pela primeira vez.
Estava sentado à um banco bem atrás no bonde, que àquela hora, transitava quase vazio. Ela subiu num ponto e sentou-se a um banco lá na frente, atrás do condutor.
Seus cabelos negros esvoaçavam por sobre seus ombros, por cima do seu casaco. Era mês de julho e, naquela época, o inverno era rígido. Fazia muito frio - diferente do que é hoje.
Pois bem, fiquei curioso e prestei atenção em seus movimentos, que não foram muitos.
Chegando ao Alecrim desci no ponto costumeiro e ainda olhei pra trás a fim de ver seu rosto. Não consegui. Enfim, não dei muita importância. O bonde seguiu seu rumo, em direção ao bairro das Quintas...
Dia seguinte, já esquecido do acontecido, fui trabalhar e, quando saí, peguei o bonde. Dois pontos após vi um vulto de mulher subir lá na frente e sentar-se atrás do condutor. Era ela.
Fiquei olhando, curioso.
De onde viria? Estaria trabalhando como eu, até tarde? Seria casada? Estaria indo para casa?... Bolas, pensei. Estaria eu interessado?... Nem vira ainda seu rosto... Seria bonita?... Se eu tivesse sentado lá na frente, saberia...
Deu-me vontade de levantar e ir até lá, sentar ao seu lado e puxar conversa. O bonde estava vazio como sempre. Seria normal um homem sentar-se ao lado de uma jovem, mesmo que desconhecida...
Algo me fez recuar... Talvez não fosse muito certo. Ela poderia pensar tratar-se de algo diferente... Talvez pensasse até que estaria querendo assaltá-la... Não, isso não. Não tenho cara de assaltante.
Enfim, desisti.
Quando cheguei a meu destino, saltei e olhei pra ela. Caramba! Me olhava também, com um leve sorriso em seus lábios, embora eu não conseguisse ver suas feições direito.
Aquilo me desconsertou. Quando me dei conta o bonde já ia longe. Fui pra casa com o pensamento de sentar-me à frente, dia seguinte.
Dito e feito.
Só que quando passamos no ponto ela não estava lá.
Dia seguinte, a mesma coisa.
Que teria acontecido? Me perguntei...
Era melhor deixar pra lá. Foi o que fiz...
Dois dias depois, já esquecido daquilo tudo, a vi subir, no mesmo local.
Estava eufórico. Tinha que vê-la, falar com ela, saber algo sobre sua vida... Enfim, conversar.
O bonde, como sempre, quase vazio e eu lá atrás me perguntando por que não sentei lá na frente, no mesmo banco que ela.
O cobrador, preguiçosamente, veio cobrar a passagem. Meti a mão no bolso, tirei uma nota e entreguei-lhe. Ele me deu o troco e foi para o último banco. Olhei em direção à jovem e não a vi. Estranhei o fato. Ela descera?... Impossível. Foi só um minuto de distração minha e o bonde nem parou...
Chateado fui pra casa.
Dia seguinte, sentei-me lá na frente.
Por incrível que pareça ela sentou lá atrás. Aquilo me deixou perplexo e cada vez mais curioso. Olhei pra trás. Havia algumas pessoas em diversos lugares. À um canto do banco atrás de mim, um casal se beijava, com paixão. Ela olhava para os dois e parecia gostar do que via... Em seguida me olhou com aquele mesmo sorriso. Aquilo me encorajou. Sorri também e fiz um sinal com a cabeça...
Levantei-me e andei pelo estribo, me segurando, até chegar lá...
Boa noite, posso sentar? E ela respondeu, balançando a cabeça, afirmativamente... Continuei... Tenho-a visto sempre neste bonde, neste mesmo horário. Por acaso é pelo mesmo motivo que eu?...
Ela disse... Como assim?
Ora, respondi, eu saio do trabalho e pego este bonde de volta à minha casa, no Alecrim... Você mora mais adiante, não é verdade?
Bem mais distante, disse ela. E de fato, também trabalho, só saindo agora. Também estou me dirigindo à minha casa, nas Quintas...
Nesse ínterim, o bonde chegava aonde eu ia descer.
Posso acompanhá-la até sua casa? Perguntei...
Não, hoje não... outro dia, quem sabe...
A contragosto despedi-me dela e saltei, dando com a mão...
O bonde afastou-se lentamente, deixando pra trás o barulho de suas rodas sobre os trilhos e à mim, com um sorriso de alegria.
Como ela é bonita, pensei...
Nos dias que vieram a seguir, me encontrava com ela e conversávamos no bonde sem que ela me deixasse acompanhá-la até sua casa.
É casada?... Não, dizia ela.
E durante aqueles restos de dias das duas semanas tentei de todas as formas ir com ela até sua casa... Inútil. Não sabia por quê. Ela sempre dizia não...
Foi quando resolvi seguí-la, furtivamente...
Despedi-me dela e saltei no ponto habitual... o bonde seguiu seu curso. Rapidamente, subi no último vão do bonde e abaixei-me, sem que ela me visse.
Quando entrou no bairro das Quintas, já passava da meia-noite. Só estavam eu, ela, o condutor e o cobrador.
Em uma rua pouco iluminada ela desceu e seguiu pela calçada. Desci e a segui. Minha idéia era me aproximar e fazer-lhe uma surpresa. O bonde já ia longe...
Tentei me aproximar, apressando os passos... apressei-me um pouco mais... Não estava entendendo... quanto mais eu andava mais ela se afastava. Tentei chamar seu nome... Aí lembrei. Eu não sabia seu nome! Não havia perguntado! Nem ela sabia o meu. Que estupidez! Durante aquele tempo todo nem ao menos sabíamos o nome um do outro...
Então gritei: Êi, espere-me!... Sou eu!
Nada. Então corri e a alcancei. Pus a mão à frente em direção ao seu ombro, na intenção de virá-la. Ela parou de chofre, virando-se rapidamente e minha mão aprofundou-se em seu rosto, rasgando suas carnes...
Quase morri...
No lugar de suas feições havia uma macabra mistura de tecidos, ossos e cabelos... No lugar dos olhos, dois buracos escuros e sombrios...
Assustado, aturdido e sem a menor reação... com os olhos esbugalhados e o terror estampado no rosto, fiquei ali parado, sentindo as pernas dormentes e um cansaço enorme tomando conta de minha mente, entorpecendo o meu cérebro.
Ela ali, parada... como olhando pra mim. Depois virou-se e seguiu adiante, na escura calçada...
Cambaleando e sentindo que os sentidos fugiam de mim, ainda vi quando ela atravessou a rua, subiu a calçada do outro lado e entrou por um portão.
Antes de cair atordoado, dei-me conta de onde ela entrara... Um cemitério.
Quando me levantei, saí dali o mais rápido que pude. Andei muito sem entender o que acontecera. Só parei quando entrei em minha casa.
Passaram-se meses.
Ia de volta pra casa no bonde e cochilei. Quando abri os olhos tive um calafrio que me percorreu até a alma ao olhar pra frente... No banco atrás do condutor havia um vulto de mulher cujos cabelos negros esvoaçavam com o vento...
FIM
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*João Manoel escreve para o site Crônicas Cariocas
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