Morbo
Sua mente percorria as ruas da sua solidão, ensimesmara-se consigo mesmo, pois não enxergava sua realidade, enceguecido por sua covardia. Em sua mente desequilibrada o flagelo de sua impotência fustigava-lhe a alma, tal algoz implacável a lhe torturar com a chibata da sua imobilidade.
Assim passava as horas, inerte, vencido, incapaz de reagir à sua morbidez.
O tic-tac do relógio agravava a monotonia do ambiente, onde, jogado no sofá, deitava o seu corpo quase sem movimento. Fazia da sala mausoléu, claustro de sua angústia.
Ficou assim, até que a morte veio colher-lhe a vida.
Abandonado, em seu cadáver putrefato nasceram vermes que lhe corroeram as carnes mortas, destituindo-lhe a conformidade e expondo-lhe os ossos.
Somente foi encontrado meses depois, quando mendigos invadiram-lhe a casa e chocados pela cena abominável de seu corpo já quase sem carnes estirado no sofá, debandaram aos gritos, o que finalmente chamou a atenção dos vizinhos, que prontamente acionaram a polícia.
Foi recolhido e necropsiado. Hoje seu corpo ainda mora em uma gaveta, aguardando reclame, pois não tinha parentes e não fez amigos.
Em breve terá assentamento em uma tumba ordinária, cumprindo a lei. Nela haverá uma lápide discreta e ali se escreverá piedosamente: “Aqui jaz aquele que, vivo, de fato jamais viveu”.
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*S. QUIMAS é artista plástico, designer e escritor
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