SANTO ANTÔNIO
por Elano Ribeiro*
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Lá vai a procissão, com Santo Antônio sendo carregado sempre a quatro pares de braços por senhores que se revezam na pesada, porém confortante e gloriosa, tarefa de levar pelas estreitas ruas da pequenina cidade do interior do Estado Rio de Janeiro, a imagem do santo casamenteiro sobre o pesado andor de madeira. Logo atrás seguem os demais devotos, com velas acesas, fitas vermelhas cruzando o peito, terços, cantos e rezas. Entre eles, crianças, adultos e velhos. E entre esses, aqueles e, principalmente aquelas, que em segredo vinham já fazendo promessas ao Santo, solicitando dele um bom casamento, um amor, uma paixão. Todos confiantes de que até o final dos festejos santoantonianos terão seus pedidos atendidos.
Pobre Santo Antônio. Levando-se em conta o grande número de papelotes dobrados, todos eles depositados aos pés de sua imagem, teria ele trabalho duro pelos próximos cinco festejos anuais em seu louvor. Digo teria, porque o santo, já cansado de tantos apelos por parte das mulheres solteiras e também daquelas já desesperançosas de um amor que lhes tratassem com dignidade, e de uns tempos pra cá, até os homens já começavam a lhe incomodar, visto o crescente número de pedidos feitos pela classe que sempre zombou daquelas que recorriam às promessas santoantonianas, resolveu dar um basta, e em tom ríspido comunicou sua decisão a Deus, alegando que os pedidos feitos à sua santa imagem barroca do século XVIII, vinham repletos de sacrilégios e impropérios:
Basta, Senhor! Estou farto dessa gente que não pensa em outra coisa a não ser arrumar um outro alguém, como se ficar sem um marido ou uma esposa fosse algo fora do normal. Qual o problema de se viver apenas na companhia do Senhor? Não quero mais saber de nenhum desses pedidos, muitos deles absurdos, de um despautério sem limites. Veja o Senhor que, não raro, aparecem-me alguns a pedir que a pessoa desejada, que já se encontra casada, deixe a sua família, para que assim esse ser repugnante que colocou enfadonho pedido aos meus pés, certamente confundindo-me com uma entidade umbandista, possa apropriar-se do amor alheio e levar a tristeza à casa abandonada por um pai ou uma mãe de família.
Basta, Senhor! Não agüento essas mulheres que só me aparecem uma vez ao ano, exatamente na ocasião dos festejos a mim destinados, pedindo um casamento. Como querem casar-se, Senhor? Será que elas não têm espelhos? Não vêem que os figurinos que usam, juntamente com aqueles cabelos desgrenhados, estão pra lá de démodé? Nunca ouviram, essas mulheres, sobre uma tal de “escova progressiva”? E pior: a quem algumas delas acham que vão agradar com aquela conversa de garotas ginasiais, que só abrem o jornal para ler o resumo das novelas? Pediu-me ainda, Senhor, uma jovem desavisada das tradições religiosas, e também da maneira respeitosa que se deve dirigir a um representante de Deus, que eu lhe arranjasse um casamento com um homem que tivesse todos os dentes naturais, pois sentia náuseas ao se lembrar de seu ex-marido, que todas as noites antes de dormir, após intenso e frenético ato sexual, depositava num copo com água, seu par de dentaduras. Caso contrário, alertou-me a jovem, ficaria eu, ou melhor, uma imagem minha, de cara para a parede, quando o correto, de acordo com as tais tradições criadas pelos próprios mortais, é me deixar de cabeça para baixo.
É claro que eu não me esqueci, Senhor, de que o verdadeiro amor não olha a beleza exterior, mas convenhamos, que se eles não ajudarem, fico eu numa situação dificílima. Faço milagres, sim, até porque essa é uma das minhas tarefas, mas até milagres têm limites. Veja o Senhor, como posso ajudar a um homem que apela por “um par de costelas” para aquecer seu coração? – isso mesmo Senhor, está escrito assim mesmo “um par de costelas” no papelote de pão que esse desrespeitoso energúmeno deixou aos pés da minha santa imagem. Outros não percebem, Senhor, que enquanto andarem com um “bafo” de cachaça na boca, ou banhados em Lancaster de farmácia, não conseguirão despertar o desejo de qualquer mulher que se preze. Isso pra não dizer daqueles que acham que asseio é coisa de homem afrescalhado. Como podem alguns associar falta de higiene à masculinidade? Olhe esse pedido descabido, Senhor, e veja se minha ira não tem razão de ser: Meu poderoso Santo, consiga-me uma mulher bonita, mais velha, fogosa e com bastante dinheiro, de preferência uma viúva, que use os proventos deixados pelo falecido para bancar os meus mimos. Em troca, prometeu-me o miserável, a leitura semanal de uma trezena, ressaltando com a maior paudurescência, se me permite palavra tão obscura, Senhor: isso quando eu não estiver de férias, pois devido as regalias dos passeios, poderei esquecer-me das trezenas.
Basta, Senhor!
Na quermesse, após o retorno da procissão, o leiloeiro batia nervosamente seu martelo, anunciando que mais uma prenda havia sido arrematada por alguém: cinco cinco oito dez dez dez reais...toc toc toc... por dez reais leva o cavalheiro ali de blusa preta uma deliciosa rosca de padaria e mais uma garrafa de um fino aguardente produzido aqui na nossa região... bela aquisição cavalheiro... passemos a próxima prenda... um par de frangos assados... quem dá mais quem dá mais... O “cantador do Bingo” gritava a plenos pulmões os números que saíam, impressos nas bolinhas que caíam do globo giratório... 22 (dois patinhos na lagoa), 58, 37, 01 (começou o jogo)... 20... 03... BINGO! Gritou alguém... O fogueteiro liberou mais uma saraivada de fogos que coloriram o céu que estava cheio de nuvens carregadas, surgidas repentinamente... E no palco, quando o sanfoneiro já dava início a um outro forró, o padre, empolgadíssimo com a aglomeração em torno da capela, o que ingenuamente ele acreditava ser por causa da devoção santoantoniana, tomou o microfone nas mãos e pediu, aos gritos, uma salva de palmas para o Santo Casamenteiro. Recebeu como resposta, além de alguns desinteressados aplausos, um grito, ensurdecedor e indignado, saído não se sabe de onde: BASTA, SENHOR!
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*Elano Ribeiro, 33, é escritor, autor de contos, crônicas e poesias.
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