Sobriedade regurgitada
por Miguel Barroso*
desgovernos@gmail.com
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Já que o meu orgulho doentio não me permitia - como seria de não esperar – aprender com os meus erros, tentei aprender com os dos outros. Amiúde, ao refogar-me sob o efeito pungente da cebola cortada em cubos punha ou azeite ou sal a mais.
Não se extraiam inventários murais desta prática secular que consiste em tornarmo-nos inconsequentemente inconsistentes…ela existe e eu salivava-a.
Fermentava eu a ideia de que o vinho tinto e o serenal poderiam erigir uma casa sólida e comungar de vivências ao som de Wagner de frigideira em punho. Enganei-me e quem estava a nadar no azeite era eu.
Lembrei-me então que a auto-gestão e a vontade própria tinham defenestrado o Artur dum 7º andar pelos mesmos motivos: o refogado de cebola, esse mestre manhoso e manipulador. No caso dele, a obsessão compulsiva aliada ao cultivo da sardinha transgénica quis que, ao vislumbrar uma cegonha en passan, ele quisesse expiar seus pecados à polícia astral, transformando a via pública naquele dia num pesadelo expressionista.
Para mim não queria aquilo. No meu caso, o refogado teletransportou o auto-conhecimento para lá dos limites do sério. Wagner continuava ali a debater Odin com Nietzsche, enquanto Rimbaud lavava os olhos com absinto. Eu estava no estômago de Artaud e ao rever pedaços do joelho metálico do Artur tirei um papelinho do bolso:
“Receita para gente escandalizada -
1 chávena de halotano
1 dildo
1/2 colher de clorofórmio
1 jornal sensacionalista
3 guardanapos
1 água mineral
2 colheres de sopa de éter
1 pitada de colorau
muita vontade
pouca vontade
ingolir tudo com "e" “
Fique ali a fritar, a fritar, a fritar, a fruir a fruir a ir a ir…
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*Miguel Barroso, 34, poeta e escritor Português, atualmente reside em Coimbra e mantém o blog A Seiva - www.aseiva.blogspot.com Voltar para Contos | Capa
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