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» SALVADOR, BA, 1 DE ABRIL DE 2008

HOMENAGEM AO ANJO QUE NÃO QUIS ESPERAR O FIM

por Iza Calbo*
izacalbo@oi.com.br

 

As garras da morte são sempre afiadas. Há alguns dias, um jovem desistiu de viver. Era uma pessoa que pensava. Aliás, pensava demais. Só quem não pensa – começo a acreditar nisso – descarta a possibilidade de antecipar a morte. Mas, vem a questão: e se a morte do jovem fosse, de fato, o seu destino? E se isto já estivesse escrito como muitos teimam acreditar? Bem, o suicídio é condenado por várias religiões.  Questão polêmica!

Mas voltando ao jovem, ele deixou em todos aquele velho ponto de interrogação: Por quê? Era jovem, bonito, bem de vida, enfim... tudo que todos parecem querer. Mas como estava o coração e a cabeça deste moço, em que mundo ele respirava de fato, o que o impedia de querer continuar aqui? São tantos os motivos dele, que julgá-lo, isto sim, seria cometer o maior dos pecados.

A morte assim, no entanto, fragiliza a todos que estavam habituados à presença da pessoa. De longe ou de perto. Só não justifica a vontade de alguns de fazer o mesmo. Cabe a estes perguntar a si mesmos porque esperar algo tão radical acontecer para agora, só agora, cometer o mesmo?

Não é a vida ceifada pelas próprias mãos deste jovem que desperta o desejo de agir da mesma maneira. Muito pelo contrário. Quem assim pensa, deveria estar se questionando sobre a dor sentida por ele para tomar tal decisão, mesmo sabendo que o possível fim do sofrimento dele daria início ao dos demais.

Falar de suicídio, na maior parte das vezes, implica em cair no poço escuro da depressão. E, deste ângulo, sabemos que ela nos acompanha possivelmente desde a tenra infância ou faz parte de uma “herança” difícil de entender e explicar. Neste momento, os que ficaram sofrem profundamente. Uns mais. Uns menos. Até porque o sofrer ou a intensidade do sofrer não importa muito.

O que dói é conviver com a falta, com saber que não veremos mais fisicamente a pessoa e que as nossas lágrimas não vão parar de rolar por muito, muito tempo mesmo. O choro vai se tornar menos intenso, mas um dia qualquer virá de novo. Suave como brisa ou forte como tempestade.

Uma morte não pode justificar que potenciais suicidas se joguem na rede, tomando tal fatalidade como justificativa. Nem ele, o belo rapaz que se foi, concordaria com isso. Angustiado, sem forças, talvez ele – naquele momento – tenha parado de pensar. Só aí a coragem de pôr fim ao tormento, tornou-se concreta. Se ele tivesse continuado a pensar – como costumava fazer embora fosse esta a sua maior agonia – não deixaria a vida para trás. Esta dor continuada de estar vivo o mantinha vivo. Para ter feito o que fez, ele deve ter se entorpecido e estagnado o pensamento.

Inteligente, sarcástico, jamais teria tomado o suicídio para si se estivesse tão lúcido a ponto de se inquietar. Não. Não é uma questão de covardia ou de coragem. É tão somente desespero. Se estivesse pensando, ele teria continuado o sofrimento, estaria alimentando a dor como fez por 25 anos.

Então, aos desesperados despertados e “encorajados” pelo ato deste pequeno príncipe – ele era mais ou menos assim – resta refletir. Ou seja, resta alguma coisa. Não adianta achar que seguindo a mesma trilha, a dor vai passar. E, pessoalmente, como suicida em potencial do alto deste momento de embriagante lucidez, não sei se as coisas mudam e se resolvem porque partimos. Aliás, ninguém sabe. Ninguém voltou dos mortos para nos contar se suas aflições cessaram após a morte. Seja antecipada ou não. Matada ou morrida.

Nem mesmo Jesus Cristo, supostamente ressuscitado, abordou o tema.

E, sendo assim, prefiro acreditar nas pessoas e nas suas fragilidades. Neste sonho de Ícaro, voando até o sol sem desconfiar da possibilidade de queimar as asas. O jovem se foi. Oremos pelo anjo e peçamos aos anjos que ficaram que aguardem o amadurecimento das asas antes de se atirar em vôos de “salvação”. Porque há o risco de cairmos no precipício das incertezas do existir, sem termos experimentado a beleza de voar pelos percalços da vida.

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*IZA CALBO é jornalista e escritora

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