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» RIO DE JANEIRO, 13 DE DEZEMBRO DE 2007

O anacronismo a partir de uma fotografia

por Bia Mies*
nubiagremion@hotmail.com

 

É engraçado ver como o tempo passa e como nossos traços diferem, sem que percebamos suas mudanças.

É estranho olhar para uma fotografia tirada há pouco mais de um ano e deparar-nos com um você mais infantil, cabelos longos, mais magro, feliz.

Amando. É desconcertante olhar para trás e sentir-se num desenho animado em que todo o chão desaba, rapidamente, ao compasso dos seus próprios passos.

É intrigante ver como aquele brilho intenso imortalizou-se naquela noite de São João, marco de mais um retorno num relacionamento repleto de altos e baixos.

Crescemos juntos. Aprendemos a conhecer-nos juntos e depois nos despedimos, largando ênclises, mesóclises e todas as regras “gramato-relacionamentais”. Mas não nos demos tchau como a maioria dos casais de hoje em dia. Dissemos até logo, quando um telefone bateu enraivecido em dois pontos distintos do estado do Rio de Janeiro.

Muito em breve, aprendemos que lições aprendidas são difíceis de serem esquecidas. Assim é o amor.

E quanto mais se afastam duas almas entrelaçadas pelo destino, mais saudades solidificam-se em algum canto do peito. Reprimem-se. Fazem de nós meros fantoches, hipnotizados com as mais bizarras - num vocabulário completamente carioca - situações em que são postos os recém-solteiros.

Trocamos informações e carícias com outros "alguéns". Mascaramo-nos num mundo que não nos pertence e muitas vezes, tentados pelas feridas ainda abertas, trancamos nossos corações e enterramos as chaves em algum lugar no qual as mãos entrelaçadas não passem de simples mãos entrelaçadas, moléculas que nunca se tocam.

Enganamo-nos tão bem a ponto de envolver-nos em fumaças inebriantes, fumo e cocaína. Encerramos nossas tardes entre bares e garçons amigos, enquanto o leito cansa de entregar-se ao lençol virgem.

Amamo-nos sempre em sonhos. Desvarios à parte, somos feitos um do outro. E quando, por fim, nossos lábios se tocam (mais uma vez se tocam...), parte de nós troca de corpo.

Nunca seremos aqueles que fomos antes de haver o nós. Conjugamos verbos a dois, não há mais volta quando tentamos o eu imparcial.

O problema é que as chaves sumiram, e como senhas esquecidas, perderam-se no vazio de um buraco-negro.

Sugaram nossas almas quando éramos inocentes.

Restou-nos o cinismo; e todo este amor retraído.

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Crônicas Cariocas® - 2006/2007
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