A Trágica Morte do Dramaturgo Quase Bi-Centenário
por Irineo Nunes*
gut_lopes@yahoo.com.br
A experiência de viver seus próprios personagens bem poderia ser considerada uma aventura. O dramaturgo que vive no risco de se expor ao ridículo, de cara, já deveria ser considerado um herói: o risco de no final do drama não ter deixado de ser ele mesmo o tempo todo seria ridículo. Tudo é ridículo. Mesmo as melhores coisas do mundo podem se tornar ridículas, se vividas por espíritos pequenos. “... se a alma não é pequena, se a alma não é pequena...”. Esta é uma experiência de vida e também de morte. Uma tragédia de um dramaturgo que resolveu viver seus próprios personagens para provar que eles “funcionavam”. E deveria ir morar em Berlim porque de lá vieram seus antepassados. Acreditava o pobre que para representar bem outros, deveria conhecer primeiro sua linhagem pelo menos.
Decidiu viver mais do que lhe permitia a natureza. Vendeu tudo para ter direito a viver trezentos e cinqüenta anos sobre a Terra. E já caminhava para o segundo centenário. Ensaiava “o pobre dramaturgo bi-centenário, com aspecto de trinta e cinco” falar na mesa do boteco. Ninguém entenderia nada. Papo de bêbado. Dramaturgo e bêbado. Como é que Femile podia aturar? Ninguém entendia nada. O pobre dramaturgo bi-centenário terminava, invariavelmente, suas noites de bebedeira falando sozinho com um poste qualquer do Jardim Botânico. E baldiando no Castelo acabou chegando ao Aeroporto. Caminhou por ali e adormeceu num banco, esperando seu vôo para Berlim. Decidiu também não levar nada. Viajaria bêbado, apenas com a roupa do corpo. O passaporte? Sim, o passaporte. Estava todo amassado no bolso da calça jeans surrada. O dramaturgo fracassado trabalhava em coisa bem diferente do que melhor sabia fazer: personagens. E ganhava mal pelo que fazia. Embora o fizesse com a maior dedicação e responsabilidade. Trabalhava em algo que seu pai muito tinha gosto. Mas o dramaturgo só se sentia no controle de sua própria vida, enquanto representava os seis personagens que precisou criar nestes rápidos cento e noventa e nove anos.
“Morreu” mesmo aos oitenta e seis. Já não suportava mais aquela família pequeno-burguesa. Esposa, filhos, netos, cachorro, casa de praia, casa de campo. Sempre isto na mesma ordem. Providenciou logo um belo acidente, na serra, na estrada para a casa de campo, com seu carro dirigido por um mendigo de quem ninguém se daria falta. Bem parecido com ele. Logo em seguida era dono de um hotel fazenda lá pelos lados de Visconde de Mauá. Ali fez-se chamar senhor-doutor sempre com uma pistola na cintura, documentos de policial, distintivo e tudo mais. Senhor-doutor dono do hotel fazenda. Que ninguém por ali passasse fazendo algazarra. Principalmente nos arredores de sua propriedade. Primeiro, eram tiros para o alto. Em seguida senhor-doutor procurava com a mira do rifle alguma cabeça. Várias vezes encontrou. A perícia vinha. Registrava como acidente. E senhor-doutor seguia dormindo, sonhando com sua viagem para Berlim. Foi senhor-doutor até que uma hippie descabelada, assustada, que tinha sido estuprada lhe pediu abrigo. Vendeu o hotel fazenda e foi viajar pelo mundo com a hippie que se tornou uma dondoca muito da vagaba. Se encantou tanto com Paris que por lá ficou. Vive lá até hoje, pelo que dizem.
Deveria ter ido o dramaturgo para as terras de seus avós, conhecer sua linhagem. Que nada! Por isso está agora esperando o vôo para Berlim, bêbado em um aeroporto vazio de um país estranhamente ébrio e subdesenvolvido. Dormir ali provocava pesadelos.
Foi-me lá o dramaturgo bi-centenário para os lados de Budapeste em companhia de uma moreninha de pele branca, e “carpaccio” rosado. Parece demais com a mulher que tinha visto na internet. Devem ser gêmeas. E correu para o banheiro onde encontrou uma faxineira jeitosinha que não se assustou com seu aspecto. Sacou dez reais do bolso. Estendeu a mão na direção da desgraçada. Ela sorriu. Entrou em uma das portas. Veio engatinhando como uma cadela no cio, balançando o rabo. Abaixou-lhe a calça jeans surrada. Fechou a porta encostando-se com a bunda arrebitada. E sem tocar com as mãos, engoliu tudo. “Se quiser, pode voltar, ta? Você é muito divertido!”
O dramaturgo volta para o banco onde espera o seu vôo para Berlim. Tinha acabado de voltar de Budapeste. Precisava encontrar Femile que tinha ficado esperando quando ele saiu para comprar pão na padaria da esquina. Femile já tinha saído e deixado um bilhete: “Adeus, sonhador! Cansei de te esperar acordar para a vida!” Ele sobressaltou-se.
“Não, meu amigo! Não quero ver sua carteira de trabalho. Sim, acredito que o senhor seja mesmo trabalhador, mas, por favor, queira retirar-se”, insistia o segurança do aeroporto. “O dia já amanheceu”.
“Vou pra Berlim, idiota! Olha meu passaporte!”, pateticamente o dramaturgo agonizava mostrando ao guarda sua carteira de trabalho.
Peixaria. Daqui há dois ou três pontos tem que saltar. A cabeça pesava-lhe mais que a consciência. Que ignorante aquele filho da puta! Acordou o peixeiro e acabou de matar, a facadas de ordens, gritos, socos e ponta-pés o dramaturgo quase bi-centeário.
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