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» RIO DE JANEIRO, 11 DE NOVEMBRO DE 2007

O Roteirista, Juliete e o Músico

por Irineo Nunes*
gut_lopes@yahoo.com.br

 

O avião pousou suave no antigo Galeão, hoje Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim. O vôo estava chegando com apenas dez minutos de atraso, apesar de só nos encontrarmos quase meia hora depois.

O roteiro estava todo na cabeça. Precisaria consultá-lo poucas vezes. Dificilmente esqueço os detalhes de um sonho quando o escrevo. E foi por ser um sonho este conto que a francezinha, com brasileiros em sua ascendência, aceitou o convite para transformá-lo em filme; seria um curta-metragem com orçamento bastante reduzido. 

Ela já tinha atuado em pelo menos um filme de Hollywood e por ele recebera a premiação da Academia. Melhor atriz co-adjuvante. Agora estaria sob meus cuidados. Coisa de sonho.  Por dois meses estaria no Rio de Janeiro e, além de acompanhá-la nas gravações, tinha me comprometido a levá-la aos pontos mais importantes da cidade, onde ela já estivera em outras ocasiões pouco “relevantes”, segundo suas próprias palavras.

– Ficaria muito feliz em conhecer melhor sua cidade, monsieur –, traduziu-me uma amiga que pouco antes estivera morando nos arredores de Paris, em Noisy Le Grand.

O roteiro não apresentava nenhuma situação muito diferente da que ela encontrara para gravar nas ruas de Paris, contracenando com um mendigo cospe-fogo, morador da Pont Neuf fechada para manutenção; resumidamente, ela viveria no Rio, viajando da Ilha do Governador à Zona Sul, um breve romance com um estudante de música da Escola Villa-Lôbos.

Ele, o estudante de música, mora na estrada do Galeão, na Ilha do Governador e vai todos os dias para o Centro da Cidade, onde é a escola. Tem vinte e tantos anos e, junto aos seus estudos de Música Clássica, cultiva o prazer de ler Filosofia e Teologia, herança de sua formação intelectual protestante. Ultimamente dedica-se quase integralmente à música. Essas sãos suas únicas paixões, até encontrar-se com Juliete.

No dia do encontro, quando ele colocou o pé do lado de fora do portão de sua casa, o ônibus via Linha Vermelha chegava ao ponto. Seria preciso um esforço físico descomunal para aquela hora da manhã. O próximo ônibus só viria trinta minutos depois. Pensando na demora, primeiro apertou o passo, em seguida disparou correndo. Conseguindo a boa vontade do motorista, esgueirou-se ônibus adentro e seguiu viagem sentado à janela, ao som da “Emperor”, de Beethoven, que tocava no seu discman.

Um ponto depois da peixaria, na Base Aérea do Galeão, entra Juliete. Inquieta e com olhar assustado, pequena mochila nas costas, vem encostar-se ao lado dele. A lotação normal do ônibus está completa. E ela é um dos poucos passageiros que viaja em pé.

Com o balanço do ônibus, Juliete tem alguma dificuldade em manter o equilíbro. Era fácil perceber que era gringa. O músico, tentando amenizar-lhe o sofrimento, pediu para segurar a mochila. E foi quando teve certeza de sua origem.

– Merci – disse-lhe com delicadeza a moreninha de olhar melancólico.

– De nada – respondeu ele.

Depois desse breve diálogo bi-língüe, não conseguia mais tirar os olhos dela.

O ônibus passou pela ponte velha. Ela observava a tudo com vivaz curiosidade, sem que a melancolia deixasse seu olhar. E foi esse olhar que o aprisionou.

A Orquestra da Capela Istropolitana tocava majestosamente no discman quando o ônibus começou a subir a Linha Vermelha. De pé como estava, a francezinha deu de cara com a blade-runneana paisagem do Complexo da Maré. Foi sob o impacto desta visão que ela voltou-se para ele e ficou claro que desejava saber do que se tratava.

– Favela – antecipou-se ele, tirando os fones do ouvido.

– Favelá? – repetiu Juliete.

– Sim, favela! Citè de Dieu, lembra? – Era a única referência que lhe ocorria, embora soubesse que a Cidade de Deus fica em Jacarepaguá.

Ela continuou observando a inquietante paisagem, até que de favela em favela, o ônibus chegou ao ponto na Leopoldina. Muitos passageiros desceram e ficou vazio o lugar ao lado do músico.

Ele estava pouco interessado se ela o entenderia, ou não, e sem esperar que ela se acomodasse completamente, foi logo puxando conversa.

– De onde você está vindo?

– Paris –, respondeu recebendo de volta sua mochila. E disse, com um português sofrível, carregado de sotaque, que se chamava Juliete e do quanto gostaria de ter nascido no Rio de Janeiro. Adorava as praias, as montanhas, as pessoas... Disse também que conhecia por cartões postais quase todos os principais pontos da cidade. E agora queria conhecê-los “de verdade”.

– E como veio parar neste ônibus? – perguntou o músico.

– Me perdi de minha amiga brasileira no aeroporto e descobri que poderia ir ao seu encontro passando pelo centro da cidade – explicou. – Imaginei que seria uma experiência interessante!

– Se você desejar é minha convidada para uma pequena apresentação de minha turma na Sala Cecília Meirelles – convidou ele.

Oui – aceitou prontamente.

A pequena orquestra tocou algumas peças do músico brasileiro que dava nome à escola e em pouco mais de duas horas estava encerrado o ensaio. Foram ao Cine Odeon. Ele pediu um café expresso. Para ela, trouxe um cappuccino com trufa.

Olhares semelhantes se encontram no meio da multidão. Em pouco tempo perceberam que, inexplicavelmente, era essa semelhança que lhes mantinham presos um ao outro. E nesse instante a mão do músico alcançou a da franceza. Como percebera que seus pequenos olhos castanhos sorriram, inclinou a cabeça em direção aos seus lábios onde ainda pôde saborear o gosto da mistura café com chocolate…

Saíram juntos de mãos dadas em direção à Lapa. Depois de uma pequena parada perto dos Arcos, tomaram um táxi em direção ao Leblon, de onde ela desejava ver o pôr do Sol.

Apaixonados, na Pedra do Arpoador, esqueceram do tempo…

Quando se deram conta, eram quase sete da noite. Lembraram da amiga brasileira. Acharam um orelhão e com poucas palavras Juliete se desculpou e explicou a razão de seu petit desaparecimento. A amiga estava perto, em Ipanema. Marcaram de se encontar em trinta minutos, na Livraria da Visconde de Pirajá.

Os três se reuniram e beberam café, falaram sobre livros, cidades e músicas. Conversaram até de madrugada.

Era essa a idéia do roteiro. Corrigi apenas alguns erros de pontuação e me despedi da pessoa ao lado, que pouco antes viera me perguntar por que eu falava sozinho.

Finalmente Juliete saiu empurrando o carrinho com as malas. Acenei-lhe e quando tomei a bagagem para levá-la ao estacionamento, ela me olhou e disse:

Dèja vu, mon cherry! Dèja vu!

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