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» SALVADOR, BA, 1 DE AGOSTO DE 2007

Recomeço à meia-noite

por Iza Calbo*
izacalbo@oi.com.br

 

Passa da meia-noite. A zero hora foi-se. Mas o tempo não passa pelo zero. Segue, em progressiva escalada, até me alcançar. E eu, velha em mim mesma, escrevinho cartas de lembranças mofadas pelo baú da memória. Sinto sede. Na minha cama de idade avançada, meus sonhos são entrecortados pelos sentidos das coisas passadas. Algumas esquecidas. Célere como um coelho, as rugas avançam em meus olhos, marcando, sem sutileza, as minhas histórias de vida. Com ou sem encantamentos.

O quarto, passada a meia-noite, é mais vazio do que antes. Tem sido assim dias a fio. Lembro-me do rosto que tinha ao meu lado quando, ainda jovem, arriscava-me às tempestades do amor. Acordava assustada, muitas vezes, com o ponteiro marcando a zero hora, e ele estava ali, dormindo, sonhando com sei lá o quê, e o quarto ficava cheio da sua presença, aplacando a possível solidão. Mas nós, os velhos, temos que enfrentar não apenas o fim de uma relação, como também o partir da companhia. E, salvo raras exceções, um de nós sempre morre antes. Mas fica a alma. Uma espécie de penumbra. Como se daqui a pouco fôssemos nos reencontrar e retomar o amor interrompido, revivendo os nossos longos bate-papos, num tempo em que éramos quase siameses.

É. Ainda sinto a sua falta, meu lindo velho. Conseguimos chegar aonde muitos não chegam. E fizemos isso junto, de mãos dadas, apaixonados, desde o dia em que nos reencontramos até o dia em que te levei às pressas para o hospital e você simplesmente parou de respirar. “Falta-me o ar, minha pretinha”, você disse, antes de partir.

Agora, falta-me o ar também. Tudo nessa casa me abafa, como se a minha vida tivesse ido junto com você. Não é fácil estar aqui agora. E eu que achava que antes era difícil, vejo que agora é simplesmente impossível. Claro, estou aqui, apesar de tudo e, para acalmar a ansiedade, revejo as fotos e, de novo, me intriga, te ver ali, congelado no tempo, em diferentes etapas, com o rosto jovem e vigoroso ou com um olhar perdido no mar incontido do envelhecer.

Ando cansada dessa cama. De acordar, molhar as plantas que plantamos juntos em nosso jardim – única coisa que parece florescer ultimamente – e depois comer, andar de um lado a outro, assistir um pouco de TV, ainda que já enxergue com certa dificuldade e, em seguida, após um prato de sopa, dormir por umas quatro horas. Sim, porque, quando envelhecemos, o sono nos escapa e sequer lembramos dos sonhos que tivemos. Parece que o tempo teima em nos manter acordados para que possamos, literalmente, ver o nosso resto de vida passar.

Estou sem ar. Acho que chegou a minha hora. Vou dormir arrumada para não dar trabalho a ninguém e, amanhã, quando nossos filhos e netos chegarem, ficarão tristes, mas, não se preocupe, meu velho, pois estou deixando um bilhete que termina assim: “Meus queridos, abram um sorriso. Nada de tristeza. Tive uma vida longa e um amor que me ponteou de momentos inesquecíveis. Agora, vou ter com ele e, nesse momento, quando um de vocês estiver lendo estas linhas, já estaremos de mãos dadas, estirados na rede de amor tecida com algodão cru e uma alegria de fazer a zero hora parecer recomeço, porque a meia-noite agora é assim. Amamos vocês”.

Publicado em A TARDE em 21/06/2002

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*IZA CALBO é jornalista e escritora

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