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» CAJAZEIRAS, PB, 29 de junho de 2007

Entre o chopp e a livraria

por Adalberto dos Santos*
adalbertodossantos@gmail.com

 

Há dois lugares num shopping que não se pode passar feito um doido. É olhar direito pra eles e sair como um bom visitante, daqueles que tiram proveito. Quem saiu sem percebê-los, dançou. Num, lugar da fome do espírito, onde a alma se sacia; no outro é uma outra coisa: os olhos se encantam com as cores, cheiros e sabores que o ar inspira.
           
Você entra numa livraria e é como estar passeando por sua casa; aqui se conhece tudo, como se estivesse em família. Quando sai dela, ficam os livros nos cantos da estante, no canto dos olhos só as vontades de idéias, de consumir idéias; quando se pode, leva-se alguma coisa, quando não, resta o que ficou nos sentidos, na imaginação do querer.
           
Mas saia da livraria, procure ir direto onde outras estantes aguardam os olhos. Atine o nariz nessa direção; na certa vai encontrar a continuação dos prazeres antes provados: um sem-número de pequenas casinhas todas juntas fazendo menção de que os olhos reclamam outra fome. Aquele colorido das fachadas, os desenhos multicores, os funcionários todos bem fardados, é um frenesi de que alhures não tem mais razão procurar outra coisa.

Finalmente chegamos: é a praça da alimentação. Ali, as estantes dos litros, as velhas prateleiras onde os litros se encontram. Se na livraria havia mesas, aqui também. Se lá a boca parecia molhada de qualquer coisa ainda não provada, aqui é uma babação sem tamanho. Você sente, você sabe o que estar para provar: sente a sua alma, sente o prazer que o seu corpo com a súbita alegria.
           
Olhando os manjares que fora se espalham, seu nariz ficou gostoso. Em cada centímetro daquele espaço o ar é de um gosto como as coisas do mar escondidas no vento da maresia. Desejo de misturar alimentos, provas do que pensar e do que sentir embaixo e além da língua: palavra-comida, alentos pra mais querer as coisas boas do lugar. Shopping é assim, só têm graça esses dois lugares.
           
Edson Carlos e Seu Antonio, por exemplo. Os dois são pequenos empresários, cada um tem um pequeno comércio dentro de um shopping que uma vez visitei. O Edson é dono de uma agradável chopperia, das boas, das melhores que vi já até hoje. Seu Antonio tem uma livraria quase perto da casa de chope do Edson. Esses aí fazem questão de me dar prazer. Na livraria do Seu Antonio, enquanto você escolhe um livro ou fica passeando com vontade de comprar, aparecem umas meninas com uns petisquinhos embaixo do braço pra você provar enquanto fica de bobo no meio dos livros. Toma-se chá café, às vezes um suco gostoso de abacaxi ou maracujá.

O Edson inventou de seguir a idéia do Seu Antonio, quer dizer, mais ou menos. Pra acompanhar a moda do homem dos livros, na chopperia do Edson você é convidado a tomar uma cervejinha enquanto degusta pequenas pérolas de pensamento sobre a arte de beber e outras artes.
           
Geralmente quando a clientela é pouca, fica melhor. Senta-se na mesa, olha-se o barril que convida, ouve-se a quase sempre boa música das caixas espalhadas pelo sistema de som do shopping e aproveita-se a cerveja enquanto um cardápio cheio de novidades vai dando o tom de uma verdadeira chopp-livraria. Os petiscos, além dos normais da casa, são idéias por empréstimos que o dono do barraco introduziu ao cardápio em meio a preços das comidas e bebidas que oferece. Segundo me disse, pegou a maioria das coisas na Internet, mas não importa; achei interessante a iniciativa do cara; num lugar onde a gente costuma ir muitas vezes só (e é o meu caso), um negócio desse pode distrair muito a solidão de um indivíduo em meio à confusão de pessoas tão indiferentes e desconhecidas como as que freqüentam um shopping.
           
A qualquer momento pode-se mudar o cardápio. Quando o cliente lê/vê tudo o que escolheu (parece que você está diante de um verdadeiro almanaque), vem outra lista com anedotas, filosóficos aforismos, trechos de poemas famosos, provérbios, desenhos, e, claro, toda uma sorte de conselhos apreciáveis ao bom bebedor.
           
Por exemplo, há a famosa “Decisão” do dono chopperia que é de uma elegância poucas vezes encontrada em qualquer ambiente: “Aqui você só paga o que come. A bebida nós cobramos”. (Sensacional. Informações assim nenhum bêbado deve ignorar. Caso tenha deixado todo o seu dinheiro na livraria, melhor voltar outra hora).
           
Mas as mais amáveis e de boa-educação, as que comovem mesmo, são as que demonstram a preocupação que a casa tem com o freguês, afinal este é a razão da existência do lugar, e não pode deixar de saber coisas como “Seja rápido no começo, não deixe a bebida esquentar em cima da mesa. Peça sempre um tira-gosto para acompanhar: petiscos retardam a embriaguez e evitam enjôos, embora engordem”, ou “O chopp é uma das bebidas menos abrasíveis (sic) ao estômago, já que o álcool está diluído em grande quantidade de água; portanto, aproveite, beba muito”.
           
Essas, quando as li, achei um pouco incompletas. Não sei se o Edson aprovaria, mas uma pequena anotação num canto de página lhes seria útil. Quem sabe os dizeres: Na coerente relação que ambas mantêm, podem ser lidas (e seguidas) em qualquer ordem. Mas vamos em frente, tem mais coisa para ver.
           
Há também as interessantes “Gerais e ordinárias inculcações”. De ordinárias, quase todas, mas que inculcam, nem tanto; pode-se até sair um pouco mais inteligente depois do terceiro copo, embora não possa garantir nada.

São essas as interessantes inculçações. Aliás, INTELIGENTES: “Ambiente familiar” – taí uma placa que poderia ser colocada em muitas repartições públicas”; FILOSÓFICAS: “Você já notou como é bom fazer só o proibido, beber o impossível e fazer só o detestável?”; MORALISTAS: “Combinar e casar é fácil; o difícil é casar e continuar combinando”; POLÍTICAS: “Política no Brasil é assim: quem legisla nada paga, quem julga está isento e quem governa pouco contribui”, e “Na vida não tem reeleição, só os políticos fazem de conta que não sabem disso”; INGÊNUAS: “A propósito, ladrão de colarinho branco quando inicia a carreira é de colarinho sujo?”; METIDAS A ENGRAÇADINHAS: “Todo homem casado que quer sair de casa sozinho tem que pensar duas vezes: a primeira é na desculpa para poder sair; a segunda na desculpa para chegar em casa”; e finalmente, as POLITICAMENTE INCORRETAS, como esta: “Cerveja a mais de R$ 2,00 é um verdadeiro crime do colarinho branco”.
           
Pois é, parece que a coisa é fazer com que ninguém durma no ponto - só se você quiser ficar em cima da mesa, com cara de tonto, descendo uma cerveja após outra.            Quer evitar o vexame?

(Olha, de bar eu entendo um pouquinho, pode continuar lendo).
Quando visitar um shopping, caso goste de bares e chopperias como eu, procure saber se o cardápio é como o do Edson, cheio de boas doses de informações e divertimentos. Antes de qualquer coisa, chame o garçom e faça, primeiro, este pedido:
           
- Ô, mano, vocês têm o Almanaque do Bebum?!
           
Depois, como dizem os boêmios, “é só lazer!” Pode ser que aí você encontre até uma espécie de “Receita para cachaceiro profissional”, que, aliás, eu não cito aqui por ser muito extensa. Se encontrar, mande brasa; na certa você sairá bêbado de idéias.

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*Adalberto dos Santos é escritor e professor paraibano.

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