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» RIO DE JANEIRO, 13 DE JUNHO DE 2007

São Pedro x Eu

por Elida Kronig*
adile.rj@gmail.com

 

Ando de pá virada pra São Pedro. Não é pra menos, ele anda nos enganando a todo momento. Carioca não quer saber de previsões meteorológicas, quer olhar o céu e pegar o recado direto com o santo. Aí começa nossa guerra.

No outro dia, depois de um sol quente e lindo o tempo todo, nasce uma noite azul estonteante com as estrelas vestindo todo seu brilho como há muito tempo não se via, escolho uma roupa quentinha mas sem os exageros anteriores, de dias cinzas e noites negras. Caio na gandaia, já comemorando o fim do freezer natural a que fomos jogados sem possibilidade de escolha.

Dormir cheia de roupa pra quê? Arranco tudo, agarro o moreno e mando um abraço pro meu dia que se finda ao meio da madrugada de uma nova manhã que em breve baterá à porta.

Esplendorosa? Duas horas de sono e meu automático me avisa que é hora da alvorada. Levanto apressada estranhando o friozinho mais gelado do que deveria. Penso comigo que o gelo é por conta do cobertor de orelhas, esse novo modelo me esquenta demais. Mesmo com frio, e vestida de raça e pele, corro pra abrir a cortina, trazendo na mente a fotografia viva de muitas outras alvoradas.

Deparo-me com São Pedro rolando de rir com a minha cara de fome. O santo chega ao cúmulo de balançar freneticamente todas as árvores que avisto da minha janela. Até mordaça nos bicos dos pássaros o homem colocou, não ouço nenhum dando um piozinho sequer. Nem os escandalosos galos do vizinho ligaram seus gogós. Tudo no mais absoluto silêncio. Não se escuta nem uma rajadinha de fuzis e metralhadoras, tão normais em nossos dias, só a gargalhada de São Pedro ecoando estridentemente na minha cabeça. O homem anda caçoando da pessoa errada, ele não tem noção de quem ele inventou de arrumar briga.

Pra nossa guerrinha particular não encerrar com um primeiro ponto pro adversário, corro pro micro e rebato em alto estilo colocando Kelce Moraes pra cantar no meu player – pelo menos um sabiá encantado eu vou ouvir! Aposto que com essa o Pedro não contava.

Ele não contava mesmo. Começar um dia de guerra com um santo ouvindo essa passarinha afinada não tem como deixar cinzento o dia de qualquer um. Não é que o cara se deu por vencido? Concedeu-me a retirada das mordaças dos pássaros como ponto de reconhecimento da perda da batalha. Esses não demoraram a mostrar a vontade de fazer coro com a Kel, tornando-a mais encantada. Volto à janela e solto uma careta pro céu, digerindo minha vitória.

Com calma, depois de ganhar mais essa alvorada, tomo uma fortificante chuveirada. Retorno à cama sem nenhuma intenção de dormir, com a certeza de que meu dia será muito bom. Na luta morena que se segue, alcanço outras vitórias em empates - não me peça pra explicar, só quem pratica é que entende.

São Pedro resolve me encher a paciência mais um pouco no momento que tenho que escolher a roupa para sair. Agora é que são elas: quentinhas, de frio ou roupas de outono no Rio? Olho as nuvens cinza mas disposta a acreditar em minha primeira vitória do dia, decido pela roupa mais cara de carioca: completar o terceiro dia cheia de tecidos pesados por cima da pele seria o meu fim. Alguém ainda me lembra que, de moto sentimos mais frio, mas permaneço decidida com minha escolha.

Não é à toa que não encontro a menor disposição para controlar minha teimosia. Vejo na rua quase todas as pessoas agasalhadas até o penico e, como por algum milagre, não sinto uma gota de frio. São Pedro, mais uma vez, reconhece minha vitória e me preenche de um calor que só eu entendo. Digo pra ele que não está certo tantas pessoas numa terra de chão queimando, se vestirem daquele jeito, sem sentirem o consolador aquecimento do sol. Ainda bem que santos são sensatos porque não se demorou muito para que, aos poucos, um tímido raio de luz surgisse com força suficiente para todos retirarem seus casacos.

O engraçado é que quando o sol começou a despontar estava passando uma criança e a ouvi perguntando pra mãe: "porque só tá fazendo sol na moça, mãe?" Senti-me como uma estrela dos anos cinqüenta de Hollywood ao reparar que o astro começara a aquecer no pedaço da rua justamente onde eu passava. Não me importa que exista alguma explicação lógica pra todos esses acontecimentos, não vou permitir que um detalhe desses estrague minha história. A vida é uma fantasia e as minhas são sempre recompensadoras.

Mais tarde, quando retornei pra casa, coloquei um Cesar Weber e deixei que seu Salve Pedro homenageasse o santo que me fez ganhar o dia.

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