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» RIO DE JANEIRO, RJ, 10 DE MAIO DE 2007

JOGOS DE DADOS

por S. Quimas*
quimas@gmail.com

 

4 e 1. O circo estava abarrotado de pessoas. Era uma sessão especial, pois estrearia o novo domador, um francês que lidava com tigres. Os animais, quatro tigres albinos do Himalaia, sendo um único macho, já haviam feito sucesso em um outro circo, mas como o domador se desentendera com o dono por questões financeiras, resolveu abandoná-lo. A proposta dos Irmãos Vincenzo era muito atrativa, pois previa uma participação na bilheteria e um fixo.
           
O burburinho de crianças e adultos subitamente cessou aos primeiros acordes da banda, que anunciavam com toda a pompa a entrada da nova atração.
           
— Respeitável público. Senhoras e senhores. Jovens e crianças. O circo Irmãos Vincenzo tem o imenso prazer de apresentar uma das maiores atrações circenses de todo o mundo. No nosso picadeiro Monsieur Henri Prescault, o maior domador de todos os tempos e os seus tigres albinos do Himalaia.
           
Na entrada de Prescault e seus tigres a platéia foi a delírio, aplaudindo efusivamente o domador e os seus animais.
           
1 e 1. Do lado de fora, devido aquela ser a última cessão, as últimas barracas em atividade já estavam finalizando o expediente.
           
Todo o dinheiro recolhido era contado e colocado em uma caixa metálica, que era trancada com um cadeado e, depois, etiquetada com o nome e o valor do conteúdo. Então, era entregue no trailer da gerência para ser contabilizado.
           
— Está preparado? — Perguntou o homem vestido de palhaço para um outro que se trajava de mágico.
           
— Já desde cedo. O importante é fazermos dentro do tempo cronometrado para que não haja erros. — Respondeu o outro.
           
— Não haverá. O número será perfeito. — Retrucou o palhaço dando uma piscadela e abrindo um sorriso.
           
2 e 1. A mulher, seminua estava sentada sobre a cama no trailer, acariciando a cabeça do seu gato persa. Nesse momento entra um homem. Era o mágico.
           
— Nossa, que cheiro terrível de uísque! — Disse a mulher com a sua voz aguda quase infantil, visivelmente irritada. — Voltou a beber. Não tem jeito mesmo. Uma vez alcoólatra, alcoólatra para sempre.
           
— Não me aborreça. — Falou o homem asperamente.
           
— Não lhe aborrecer? Ora, você é quem me aborrece com este bafo maldito.
           
Aproximando-se da mulher, o mágico a esbofeteia. Neste momento o gato dá um salto e foge pela janela entreaberta do trailer. A mulher desaba e cai deitada sobre a cama. Da sua boca e do seu nariz corre o sangue.
           
Ele avança mais sobre ela, pondo as duas mãos entorno do seu pescoço e, pressionando com força durante alguns instantes, a enforca.
           
Vai até a janela, olha para fora e vê que ninguém passava por perto.
           
“Melhor assim”. Pensa consigo.
           
Embrulha o corpo da mulher nos lençóis e carrega-o até o carro, depositando-o no porta-malas.
           
Volta ao trailer, pega alguns objetos, que coloca numa maleta, junto com alguns documentos.
           
Pega o carro e o estaciona a alguns metros, um pouco além da entrada do circo.
           
1 e 2. A última caixa é entregue no trailer da gerência. No interior do circo, os assobios e os aplausos se sucedem. Parece que o público se apaixonou pelo número do domador francês.
           
— Como fomos hoje? — Pergunta um dos Vincenzos ao tesoureiro que abria a última caixa metálica.
           
— Se o valor da etiqueta estiver conferindo, hoje foi a nossa melhor arrecadação em muitos anos. Sucesso total de bilheteria. Calculado, os espetáculos mais o apurado nas barracas, passam hoje de trinta e cinco mil. — Disse abrindo um largo sorriso.
           
De súbito, entra no trailer o homem vestido de palhaço. Empunhando uma arma, pede que coloquem todo o dinheiro numa sacola de viagem.
            Os outros dois com os olhos arregalados e sem ter o que fazer para se livrar da situação, apenas obedecem.
           
— Agora o cofre. Abram o cofre e me passem o dinheiro lá de dentro também.

— Não posso. — Diz aflito o contador. — Nós precisamos da chave que está com Giovane.
           
O palhaço mete a mão em uma abertura na fantasia e saca de lá uma chave presa numa corrente prateada.

— Seria esta? — Diz, sorrindo maldosamente. — Agora vamos. Rápido com isto.
           
O contador pega a chave que estava com o palhaço e a do outro Vincenzo, que a entrega muito contrariado.
           
— Você não irá longe... — Disse, sendo interrompido por uma coronhada nas têmporas, que o faz cair desacordado no chão.
           
— Agora anda. — Grita o palhaço para o contador, que finalmente abria a porta do cofre. — Coloca tudo junto dentro da sacola.
           
Dá um tiro no rosto do contador, após este colocar o último maço de notas na sacola e ter recuado para junto do outro, estirado no chão.
           
Dispara mais uma vez, em direção ao irmão Vincenzo, cujo corpo se contrai em um último espasmo.
           
Entreabre a porta do trailer e verifica se tudo está bem. Sai e toma o rumo dos bastidores da lona.
           
1 e 1. Encontra-se com o mágico e pergunta:
           
— Tudo pronto? A minha parte está feita. — Diz, dando um tapinha na sacola abarrotada de cédulas.
           
— Tudo. Só estou esperando o aplauso final.
           
— E Lenita? — Pergunta o palhaço.
           
— No carro. — Diz o mágico sem mais nada revelar.
           
6 e 6. A explosão foi ouvida por todos dentro do circo e o pânico tomou a platéia, que desesperada com as chamas que vinham desde os bastidores, tomando rapidamente a lona.
           
Os animais dentro da grade agitaram-se e nervosos, mataram o domador que tentava sair pela porta entreaberta. Para agravar ainda mais, saíram da jaula, atacando várias pessoas, trazendo ainda mais pânico a todos no interior da lona.
           
As pessoas em fuga desabalada pisoteavam aquelas que tombavam ao chão. Morriam muitas como insetos, sobre os pés das outras. Gritos inundavam o ambiente e a tragédia seguia nefasta.
           
Alguns funcionários tentavam os primeiros esforços para administrar a situação. Uns gritando num megafone, tentando controlar a multidão, outros o incêndio que se alastrava célere e ainda outros os animais que se debatiam em suas jaulas, ou que circulavam apavorados entre a multidão e as instalações.
           
Nos limites do circo já se podia sentir o cheiro de carne queimada. Viaturas policiais próximas chegavam, acorrendo ao chamado urgente. Os bombeiros vinham a toda a velocidade pelas ruas, mas como diriam as manchetes do dia seguinte, não conseguiram evitar a tragédia: duzentas e cinqüenta e oito pessoas mortas, muitas por pisoteamento e outras por queimaduras. Mais de quarenta em estado grave nos hospitais e cerca de setenta feridos convalescendo.
           
Horas depois, no fundo de um precipício com mais de duzentos metros de altura, foi encontrado um carro. No interior, dois homens e uma mulher morta por estrangulamento no porta-malas.

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*S. QUIMAS é artis plástico, designer e escritor

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