A
NEGRA JACI
A luz tremeluzente do lampião
sobre a mesa rude deixava o negro como se fosse uma
imagem em preto e branco, recortada no centro da cozinha.
Comia mogango com leite e chupava a colher fazendo um
barulhinho chiado, e enquanto comia contou que quando
vinha pela estrada velha, mais ou menos à altura
do pé de plátano, o tordilho marchador
se assustou com alguma coisa, tastavilhou e o tirou
de cima do lombo, e que quando ele estava tentando se
aprumar apareceu-lhe a aparição da negra
Jaci.
- A negra Jaci? – perguntou Sinhá Pitoca
escorada na pia.
- Pois não lhe digo? – respondeu meio que
interrogando, o negro.
- Mas e o que ela haveria de querer contigo? –
tornou a perguntar Sinhá Pitoca.
- E eu sei lá Sinhá. Não fiquei
lá pra saber. Me afirmei nos estribos e aqui
estou.
Parece que o negro fazia de propósito: dava pequenas
pausas com a colher cheia de leite, no ar, e enquanto
fazia biquinho para chupá-la, olhava pra mim,
arregalando bem os olhos amarelados.
- Só sei que quando galopava pra cá ainda
senti uma fungada gelada no cangote – prosseguiu.
- Credo-em-cruz-ave-maria – disse como num suspiro
e persignando-se Sinhá Pitoca.
Nessa noite tive medo de dormir solito. Enfiei-me sob
o bichará, e como um filhotinho de guaipeca me
aninhei no braço forte e aconchegante do pai,
que ressonava, exalando um leve cheiro de cachaça.
Adormeci.
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