O ESCAFANDRO E A BORBOLETA

A primeira vez que assisti ao novo filme do (cada vez maior) diretor Julian Schnabel foi em outubro passado, Cannes tinha acabado há poucos meses e de lá lê tinha saído justamente com o troféu de direção. Na ocasião todos estranharam a premiação a um filme aparentemente sensível e nada grandiloquente, o contrário do que se costuma premiar na categoria em Cannes. Um filme de personagens, centrado nos atores e em sua interação com o projeto, mas que parecia pouco ligado a uma direção intrusiva. Em outubro, percebi a escolha do júri do festival francês ao constatar o contrário de tudo que parecia, já que o filme é um aprimoramento de tudo que Schnabel tinha construído em seus longas anteriores (Basquiat e Antes do Anoitecer), uma estética de aproximar ao máximo os atores do diretor e fazer uma comunhão entre os setores de um filme, tudo numa conexão única. Nos trabalhos de Schnabel, tudo é interligado e em O Escafandro e a Borboleta isso é colocado a prova com os mais excepcionais resultados. O fim da história todos conhecem: 4 indicações ao Oscar (direção, roteiro, fotografia e montagem, todos merecídissimos), mais vitória no César em montagem e protagonista (um brilhante Mathieu Amalric), além de outras 5 indicações nas principais categorias, e o título de filme mais premiado na categoria ‘estrangeiro’ do ano passado nos EUA (inclusive no Globo de Ouro, onde também levou o de direção). Tudo com muita justiça.
Assistir ao filme novamente não foi simplesmente um prazer, mas a certeza de que precisava rever minha nota e minha colocação um pouco reservada quanto ao filme dada durante o Festival do Rio passado, onde fiz por menos diante de produto tão poderoso. Na ocasião, fui com impressão clara de ter visto um longa por demais parecido com o igualmente excepcional Mar Adentro, onde Alejandro Amenabar narrava a história real de um jovem espanhol tetraplégico após um mergulho, que lutava pela dignidade de escolher o fim da própria vida (com o auxílio luxuoso da melhor interpretação da carreira de um monstro como Javier Bardem). Pois não vi o óbvio: a infinita sofisticação narrativa do Escafandro o coloca num patamar acima a Mar Adentro, e isso se mostra não somente nos brilhantes 20 minutos iniciais do filme, mas em toda a projeção. Como já alçada a categoria superior, a montagem de Juliette Welfling e a fotografia do mestre Janusz Kaminski transformam a experiência de ver o filme em algo sublime. Mas o mérito realmente é coletivo.
Como falar de O Escafandro e a Borboleta sem destacar a brilhante e dificílima performance de Mathieu Amalric, ainda mais desafiadora que a de Bardem no filme já citado? Todo amarrado a muletas interpretativas que poderiam limitar de forma definitiva sua interpretação, Amalric faz delas suas aliadas e encanta com uma interpretação inesquecível. Sua interação com todo o elenco é fantástica, e em especial Max Von Sydow oferece as cenas de maior emoção do filme, como o pai adoentado do protagonista (tente resistir ao telefonema entre pai e filho). O mais impressionante é perceber como Julian Schnabel dirige a beira da perfeição apenas no seu terceiro filme, e como em particular aqui foge de toda a emoção barata indo sempre ao âmago dos sentimentos. Só isso já seria suficiente de coloca-lo entre os melhores do ano passado, mas eis que o danado alia a mais pura emoção a técnicas invejáveis de realizar grande cinema. Descrever é impossível.
A história do editor da Elle francesa, que de uma hora pra outra tem uma paralisia quase total, é desde sempre uma história extremamente visual e cinematográfica. A partir do momento que ele conseguiu, com a ajuda de uma enfermeira e contando apenas com o piscar dos olhos, escrever um livro (o homônimo O Escafandro e a Borboleta, na qual o filme é baseado), a necessidade de contar essa história foi latente. Outro grande mestre também emprestou seus serviços ao filme, e o roteirista Ronald Harwood (vencedor do Oscar por O Pianista e autor do belíssimo O Fiel Camareiro) entregou realmente um dos melhores textos do ano passado, um trabalho possante que serviu de mola mestra pra (agora sim assumo, sem medo de errar) um dos melhores filmes do ano. Um trabalho exemplar de todos os profissionais envolvidos, que deveria servir de portfólio para todos os participantes do projeto; parabéns a todo e qualquer envolvido nele.
Cotação para este filme:
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