FIM DOS TEMPOS

Nem parece, mas já fazem quase 10 anos que o mundo ouviu esse nome pela primeira vez: M. Night Shyamalan. Até hoje muita gente ainda não sabe pronunciar seu nome, mas o impacto que seu filme causou na indústria em agosto de 1999 nunca foi esquecido. Na semana anterior a 6 de agosto, acontecia finalmente a expansão para um grande circuito do filme mais falado do momento na ocasião, o ‘mockumentary’ (como são chamados os falsos documentários lá fora) A Bruxa de Blair, levando 28 milhões de dólares para casa e só parando atrás de Noiva em Fuga, com Julia Roberts e Richard Gere. Pois ninguém esperava o que iria acontecer na semana seguinte, o tal histórico 6 de agosto de 99: ao contrário da Bruxa alcançar o primeiro lugar (no que estava mais que esperado), um filme retirado do lançamento no fim do ano e jogado as pressas naquele dia estourava surpreendentemente. O Sexto Sentido, um pequeno filme de suspense estrelado por um Bruce Willis servindo de escada para uma criança, arrecadou 30 milhões de cara. Cinco semanas em primeiro lugar, três meses no TOP 10 e quase 300 milhões arrecadados só nos EUA depois, o filme era o fenômeno do ano, só perdendo o topo da bilheteria de 99 para o retorno da saga Star Wars.
Logo isso tudo se transformaria também num incrível sucesso da temporada de prêmio, ancorado por críticas formidáveis por onde passou. Seis indicações ao Oscar, nenhuma delas transformada em prêmio, não importava; O Sexto Sentido ultrapassou o topo que se esperava pra ele, e levou junto seu realizador, o tal M. Night Shyamalan. Mas quem era esse indiano audacioso que transformou um pequeno segredo de um menino e seu psiquiatra no grande acontecimento pop do ano? Logo descobriu-se que era seu terceiro filme, que os anteriores não tinham sido percebidos por ninguém e que a partir daquele momento ele era um astro. Ou melhor, ele acreditou nisso. Um ano após, ele já acreditava nisso e lançou Corpo Fechado, uma grande e incompreendida obra, pessimamente vendida pelo estúdio de maneira ‘sobrenatural’ quando na verdade era um longa de ‘super/anti-heróis’. Resultado: 80 milhões de dólares, e uma decepção pra muitos executivos. O filme seguinte poria mais uma vez Shyamalan no caminho do sucesso, Sinais, uma produção de ficção-científica que arrecadou mais de 200 milhões de dólares. Mais um sucesso depois (A Vila, com seus quase 150 milhões e uma trama que era uma metáfora para o 11 de Setembro, no seu melhor filme para muitos) não previam o desastre que viria a seguir.
Completamente cego pelo poder que achava ter, Shyamalan concebeu então uma fábula baseada em histórias de ninar que contava a seus filhos. Assim nascia A Dama na Água, recebido com frieza no mundo todo e arrecadando minguados 50 milhões de dólares, nem chegando a pagar seu custo. Era a porrada que precisava pra fazer o diretor que sonhava ser astro perceber que faltava humildade a ele, ao mesmo tempo que deixava claro como seu manancial de idéias poderia ser amplo e confuso, ao mesmo tempo. Esse Fim dos Tempos foi então a bóia de salvação do diretor, pois parecia seguir os passos de seu maior sucesso em ritmo e sustos explícitos. O resultado, no entanto, parece agradar mais a emoções fugazes e menos a uma segunda olhada, podendo demonstrar ainda mais a fragilidade do seu roteiro.
Acompanhamos aqui a saga de um professor de Ciências e sua esposa em fuga pelos EUA, tentando sobreviver ao que parece ser um ataque terrorista a princípio e depois demonstra ser um fenômeno ainda mais radical em tese e bobo em suma. Comandando um belo exercício de direção, Fim dos Tempos lembra o também belo e vazio Revelação, de Robert Zemeckis. Ambos são grandes palcos para seus realizadores demonstrarem seus domínios de narrativa, mas com seus roteiros capengas deixam claro qu são apenas veículos para vôos solos de seus realizadores. A diferença é que Shyamalan está numa perigosa curva descendente e, apesar da estupenda realização em muitos momentos (como a coragem de mostrar cruéis suicídios e no desenrolar de uma dupla de adolescentes inseridos na metade da produção), o filme em outros tantos demonstra fragilidade absurda (como em um diálogo pavoroso travado entre Mark Wahlberg e uma samambaia!).
O elenco também deixa a desejar. Mark Wahlberg é o único que tenta dar dignidade ao seu trabalho; enquanto Zooey Deschanel varia entre o fraco e o desastre total; a menina Ashlyn Sanchez só é exigida uma vez, e naufraga; John Leguizamo pouco tem a fazer, mas é um bom ator e segura as pontas; mas a vergonha total vem da veterana Betty Buckley mesmo. Merecedora de toda o apedrejamento que possa vir, a atriz encara um personagem desastroso (é verdade), mas não dá humanidade alguma a ele, simplesmente sendo uma boneca velha e rabugenta a proferir despautérios ridículos.
Como último pesar, fica o fato de Shyamalan não seguir com o caminho que ele investe na metade, quando fico claro que uma guerra civil surgiria me meio ao caos, no que o filme poderia crescer em alguns pontos, talvez. Isso é cogitado e abandonado rapidamente, restando apenas uma bela seqüência de acontecimentos. É disso que vive Fim dos Tempos, de várias passagens marcantes em meio a erros fáceis de ser corrigidos, mas que não foram evitados por um diretor que ainda precisa vencer uma batalha ainda maior que a das bilheterias: a com seu próprio ego.
Cotação para este filme:
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