QUANDO ESTOU AMANDO

Há dois anos atrás, ao assistir Quando Estou Amando pela primeira vez, não sabia que um filme de conexão tão popular com o público demoraria tanto tempo pra desembarcar no circuito. Pois bem, sabem que ao contrário de todas as ocasiões a impressão que fica dessa vez é a de que esperar foi a melhor opção? Afinal, de dois anos pra cá o talento e a fama de Gerard Depardieu continua a mesma, mas a de Cécile de France... essa se tornou a musa do cinema alternativo local, e a diagramação do pôster concebido pela distribuidora só confirma a estratégia: “Gerard Depardieu / Cécile de France... de Um Lugar na Platéia”, associando o nome da jovem atriz belga ao do sucesso que explodiu aqui em meados do ano passado. Além de tudo, o filme em si é uma deliciosa celebração ao amor, a vida e a música, exatamente como era também o já citado longa francês que foi o maior sucesso alternativo da temporada 2007.
Em si, o filme tem uma pegada bem simples: o cantor de baile Alain Moreau já está em decadência, física, artística e emocional. Sozinho e cada vez mais afundado em dívidas, Alain não tem muitos motivos pra deixar de ser o cara relaxado e largado que é. Até que em umas de suas apresentações (onde a faixa etária varia entre 60 e 70 anos) ele conhece o oposto de seu público, a jovem divorciada Marion, também solitária mas sem nenhum interesse em algo romântico no momento. Logo surge uma afinidade entre eles, e o sexo casual é consumado. O que para Marion deveria ter ficado naquela noite, trás de volta o colorido a vida de Alain e o baqueado cantor de sucessos franceses do passado vai virar um cavalheiro sedutor e encantador, capaz de tudo para conquistar a mulher que lhe reacendeu uma chama apagada há tempos.
Dentro dessa proposta, dá pra imaginar o que o público irá encontrar na sala escura, que é justamente o clima e a leveza de Um Lugar na Platéia. Muita música boa, cantada por um inspirado Depardieu, uma trama agridoce capaz de derreter corações e momentos divertidos tirados por um casal no ápice de sua química e talento. Depardieu há tempos que vivia um “momento Robert DeNiro”: lá atrás ambos se encontraram no épico de Bernardo Bertolucci 1900, uma saga pelo século passado. A partir daí, a trajetória e sucesso de Depardieu se tornou impressionante, principalmente pelo enorme talento que ele sempre esfregou na nossa cara. O Ultimo Metrô, A Mulher do Lado, O Retorno de Martin Guerre, Danton, Bela Demais pra Você, Sob o Sol de Satã, Camille Claudel e a explosão mundial de seu talento em Cyrano de Bergerac, indicado ao Oscar e vencedor do prêmio de ator em Cannes. Só que, como DeNiro, na virada da década passada sua carreira sofreu um revés, muito provavelmente causado pela idade. E se seguiram filmes de gosto duvidoso como 102 Dálmatas, O Homem da Máscara de Ferro, até chegar a série Asterix e Obelix, extremamente comercial. A virada que ele consegue em Quando Estou Amando ainda não aconteceu a DeNiro, mas é bom ver que alguém com anos de estrada como esse grande ator francês ainda é capaz de explodir em talento na tela, ainda mais ao lado de uma promessa como Cecile. Apresentada ao público brasileiro em Albergue Espanhol e sua continuação Bonecas Russas, Cecile é uma promessa tão evidente de talento que todo ano concorre ao César, já tendo 5 indicações ao prêmio (e vencido 2 vezes, justamente por sua personagem em Albergue... e Bonecas...). Mas foi mesmo com a garçonete francesa rodando por artistas na Avenida Mountaigne do ano passado que a linda jovem atriz se tornou famosa aqui. Já não era sem tempo, pois talento e beleza a moça tem de sobra.
Agora é esperar e conferir: Quando Estou Amando terá o mesmo destino de Um Lugar na Platéia por aqui, ou seja, o sucesso. E será merecido, porque um filme tão bem interpretado e de singeleza tão óbvia não terá outra saída entre nós que não as filas em frente as salas. Parabéns ao diretor Xavier Gianolli por retrato tão delicado sobre a decadência de um homem e sua recuperação pelo amor, puro e simples.
Cotação para este filme:
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