PECADOS INOCENTES

Foto: Divulgação/Califórnia Filmes
Houve um tempo em que podíamos correr ao cinema sem medo quando víamos o nome de Julianne Moore nos créditos. É lógico que sua carreira não data de tantos carnavais assim. A memória chega até A Mão que Balança o Berço quando pensamos na primeira produção onde Julianne deu o ar da graça, como a melhor amiga da protagonista que é vítima da maldade sem limites da babá vivida por Rebecca DeMornay, e 3 anos depois ela estaria no indicado ao Oscar O Fugitivo, num pequeno mas decisivo papel. Sua primeira aparição impactante veio logo após, no excelente Short Cuts, de Robert Altman, onde ela fala durante mais de cinco minutos completamente nua em cena. Uma cena corajosa para uma atriz jovem e também cheia de garra, percebia-se. Protagonizou Nove Meses ao lado de Hugh Grant e sua beleza ruiva começa a se tornar marcante, até que chegou A Salvo. O diretor Todd Haynes (que voltou a escalá-la nos filmaços Longe do Paraíso e Não Estou Lá) procurava a atriz para interpretar a dona de casa perfeita que se tornaria a mulher mais que imperfeita em seu anterior, inclusive se viciando em remédios.
A primeira indicação ao Oscar veio dois anos depois, no antológico Boogie Nights, onde Julianne era Amber Waves, uma atriz pornô amorosa ao extremo que tenta recuperar a guarda do filho, separado dela. Mais dois anos, mais novos espetáculos: Fim de Caso, O Marido Infiel, O Mapa do Mundo, A Fortuna de Cookie, com show de interpretação em todos. Mais três anos e mais duas indicações ao Oscar, pelo já citado Longe do Paraíso e pelo inesquecível As Horas. É incrível como, independente dos papéis, Julianne ia também mostrando dedos privilegiados ao escolher somente projetos fantásticos e com pedigree invejável. Só que, ao passar um ano longe das telas, seu retorno foi simplesmente um desastre. Evolução, Leis da Atração, Os Esquecidos, Totalmente Apaixonados, A Cor do Crime, O Vidente, até filmes que nunca chegaram ao Brasil de tão ruins (Marie & Bruce; The Prize Winner of Defiance)... é tanto filme ruim, vagabundo mesmo, que chega a dar pena... no meio de tudo, uma breve participação no filmaço Filhos da Esperança foi um alívio. E agora, essa tralha horrorosa que, como todas as bombas citadas acima, só não é pior porque ela está no elenco.
A trama dessa coisa é baseada na história real de Bárbara Baekland, uma socialite americana da década de 60 que está em viagem constante com marido e filho. O filme situa-os num período em que eles estão numa praia espanhola (belamente fotografada, diga-se) e vemos seu filho Tony aflorar em homossexualidade. Ao mesmo tempo em que descobre os rapazes nas belas praias da cidade, Tony deixa-se levar uma relação bizarra que sua mãe alimenta, e nem um amigo da família chamado pra interceder (Hugh Dancy, também tentando emprestar alguma dignidade ao filme) vai conseguir impedir a espiral de eventos altamente doentios e trágicos que virão a seguir.
Como eu disse, nada impede o filme do ralo em que ele se joga. A trama misógina, com altas doses de homo erotismo, parece fazer parte de alguma tara do diretor, que filma os corpos masculinos como um fetiche vagabundo. Na verdade, o filme todo tem uma atmosfera extremamente cafona e canalha, quase caricato. Eddie Redmayne, o ator que interpreta Tony, é uma escolha das mais desastradas, pessoa sem carisma, talento ou qualquer tique de ator. Deveria ser trancafiado e impedido de atuar para que não pudéssemos voltar a ver desastre igual. Nada no roteiro funciona, mesmo sendo tudo ‘real’, e Julianne fica perdida no meio do freak show, numa personagem inglória e cheia das nuances que a própria já nos apresentou tantas vezes.
Ou seja, desastre perde. O filme decepciona principalmente pela quantidade enorme de potencial que tinha, nada aproveitado. E antes que eu me esqueça, guarde esses nomes: Tom Kalin e Howard Rodman, diretor e roteirista da obra. Todo o ‘pé atrás’ do mundo na próxima incursão dessa dupla na tela.
Cotação para este filme:
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