UM BEIJO ROUBADO
Foto: Divulgação/Europa Filmes

Durante quase um ano, esperamos. Desde a estréia na abertura do Festival de Cannes do ano passado, quando o mundo (ou melhor, o lado francês do mundo) teve a oportunidade de conferir o novo filme de um dos diretores mais acertadamente festejados da atualidade, Wong Kar-Wai. Como acontece com freqüência, seus filmes são lançados no festival, e desde que 2046 estreou não tínhamos novo petardo romântico nas telas, mesmo que ele não tenha atingido de maneira tão arrasadora os corações de seus fãs como Felizes Juntos e Amor à Flor da Pele; ainda assim, era um típico Kar-Wai e isso bastava para todos.
Há mais de uma década, acostumamo-nos com seu cinema extremamente sensorial, feito de sons e cores sempre fortes e realçadas em constrastes perfeitos. Há pouco tempo atrás, ele afirmou numa entrevista que essa sua forma de filmar (dando destaque à vivacidade que seus tons e áudio sejam um espetáculo a parte) vem do fato de ser um diretor estrangeiro e sem ligações com Hollywood, o que o motivava a dar uma atmosfera marcante a seus trabalhos, com isso se diferenciando de seus colegas. Se isso foi estratégia para ganhar visibilidade ou apenas uma resposta qualquer para aplacar a curiosidade jornalística, pouco importa, pois temos, graças a ele, uma filmografia de categoria invejável, sejam quais forem seus motivos por trás de sua forma de filmar. Toda a sutileza de Amor à Flor da Pele emociona e intriga, por saber exatamente o quanto de romantismo entregar a uma história melancólica sobre o amor que nasce do desamor; toda a riqueza narrativa vista em Felizes Juntos, um conto sobre o começo do fim de um relacionamento; toda a celebração de um amor em sua fase mais harmoniosa mostrada em Viva o Amor!; toda a confusão que nós mesmos podemos causar por tentar esquecer um amor com vários outros mostrada em 2046... como se pode ver, Kar-Wai é um grande romântico incurável, que já falou de tantas e tantas facetas do sentimento mais procurado e mais temido dos tempos modernos e que não cansa de mostrar conhecimento de causa, o que nos leva a esse Um Beijo Roubado.
Elizabeth (Norah Jones) é uma jovem que acaba de terminar um caso de amor onde ela parece ser a única machucada e, ao procurar abrigo onde possa ancorar suas mágoas, acaba no bar de Jeremy (Jude Law), ele também um solitário. Mas nada será o mesmo para ambos depois que a especialidade de Jeremy for servida a Elizabeth e, mesmo com a certeza do sabor da torta de mirtilo (a ‘blueberry’ do título original) na boca, a moça prefere sumir no mundo catando os cacos do coração a pensar na possibilidade de uma nova chance com alguém. Nessa viagem, ela vai trabalhando como garçonete em diversos outros bares, onde encontra gente como Arnie (David Strathairn), um homem que acaba de ser abandonado pela esposa e vive um martírio propagado por ele próprio; enquanto isso, Sue (Rachel Weisz) tenta reconstruir a vida longe do marido que não ama mais. Quando uma tragédia assolar esse ex-casal, Elizabeth partirá mais uma vez, chegando até Leslie (Natalie Portman), uma jogadora compulsiva que vai levá-la a uma viagem pelo deserto de Nevada até Las Vegas, em busca do carinho que nunca teve. Todos esses encontros são primordiais pra mostrar que Kar-Wai entende das dores de um coração partido e que somente tendo contato com histórias ainda mais fortes que a nossa podemos tomar novo rumo na vida.
Tendo a lente de Darius Khondji sob sua rédea, Kar-Wai trava seu habitual balé de belas imagens e abusa da belíssima trilha do habitual colaborador de Win Wenders, Ry Cooder (e de Try a Little Tenderness, tocada repetidas vezes, que só nos emociona mais e mais) para nos entregar mais um legítimo representante do seu cinema, emocionado e cheio do mais puro afeto, pelo espectador e pelo cinema em si. No elenco, ele reuniu coringas do nível de David Strathairn, Rachel Weisz e Jude Law, em interpretações irretocáveis. Estamos diante de um dos grandes filmes do ano então? Sim e não.
Por todos os motivos já citados, Um Beijo Roubado merece ser conferido e com certeza está numa posição de destaque dentro da lista de produtos oferecidos pelo circuito cinematográfico atualmente. Mas existem dois problemas graves em seu resultado final e eles não são pequenos: tudo que diz respeito à personagem de Natalie Portman soa forçado e gratuito, e acabamos não nos importando nem um pouco com sua trama ou desenvolvimento; mas o mais grave é mesmo Norah Jones, que Kar-Wai tenta transformar em algo aproveitável, em vão. A jovem cantora não tem carisma, muito menos talento. É um alívio que sua personagem funcione mais como testemunha do que como catalisadora de ação e toda vez que o foco é ela, o filme perde em comunicação com a platéia.
No fim, é um típico Wong Kar-Wai, porém pequeno. Mas... ei, ainda é um Wong Kar-Wai! Esqueçam os deslizes do ‘estreante’ mais talentoso do ano (esse é seu primeiro filme falado em inglês) e curta as pequenas doçuras desse beijo.
*Leia outra crítica em MISE EN SCÈNE
Cotação para este filme:
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