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Título do Filme: Não Estou Lá
Título Original: I’m Not There
País de Origem: EUA/Alemanha
Duração: 130 Minutos
Gênero: Drama/Musical
Produtora: Killer Films
Distribuidora: Europa Filmes
Direção: Todd Haynes
Roteiro: Todd Haynes & Oren Moverman
Elenco: Cate Blanchett, Heath Ledger, Christian Bale, Richard Gere, Bem Wishaw, Marcus Carl Franklin, Julianne Moore, Charlotte Gainsbourg, Michelle Williams, Bruce Greenwood.
www.europafilmes.com.br
Estréia no Brasil: 21/03/08


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francisco carbone »

rosquinhamabel@hotmail.com

» RIO DE JANEIRO, 21 DE MARÇO DE 2008

NÃO ESTOU LÁ

Foto: Divulgação/Europa Filmes

Vou ser muito apedrejado depois de escrever essa resenha, mas a verdade é que nunca fui muito próximo a Bob Dylan. Como artista ou personalidade, nunca tive acesso a sua vida ou música. Sabia de sua reclusão voluntária em alguns períodos da vida, de seu lado panfletário em outros momentos. Sabia também de seu passeio pelos caminhos da música americana durante os tempos, mas sem nunca deixar de ser fiel a si próprio. Nasci numa época em que todos juravam que Bob Dylan estava morto e enterrado (os anos 80) e de fato durante a infância seu nome ecoava na minha cabeça da mesma forma que Bob Marley, Marvin Gaye e John Lennon, na galeria de artistas falecidos. Quando veio a compreensão que seu sumiço era apenas artístico, Dylan era encarado como ‘artista decadente’ para o universo juvenil do início dos anos 90. Logo, fui deixando Dylan pra trás, aprendendo por osmose o que era Dylan. “Like a Rolling Stone”, “Blowin’ in the Wind”, “Knockin’ on Heaven’s Door”... aos poucos ia me tornando menos indigente com o bardo. Mas nunca me aproximei, nem depois do Oscar 2000, quando Dylan saiu da festa com o careca dourado na mão graças à “Things have Changed”, de Garotos Incríveis (também pudera, eu estava torcendo por Paul McCartney entoando a bela Vanilla Sky do filme homônimo). Mas no caminho de Dylan tinha um cineasta, tinha um cineasta no caminho de Dylan...

Corrigindo: cineasta não, Todd Haynes. Uma das cabeças pensantes mais criativas do cinema mundial na atualidade, Haynes junta-se a Paul Thomas Anderson, Irmãos Coen, Pedro Almodovar, Fernando Meirelles, Tsai Ming Liang, Lucrecia Martel, Michael Haneke e poucos outros na deliciosa tarefa de oxigenar e renovar a Sétima Arte como a conhecemos e entregar a nós, espectadores e fãs, o melhor do cinema moderno e vanguardista em nosso tempo. A carreira de Haynes é simplesmente irrepreeensível, desde a estréia pauleira de Veneno, que nada mais é que uma releitura do mesmo caso real que inspirou Hitchcock na trama de Festim Diabólico, onde uma dupla de assassinos pretende provar sua genialidade expondo seus crimes e desafiando a sociedade a os ver como culpados. Se no caminho Haynes desnuda os filmes de serial-killers e entrega um longa dos mais corajosos sobre a homossexualidade, tanto melhor.

Seu filme seguinte, o possante A Salvo faz com que nunca mais vejamos uma dona de casa com os mesmos olhos. Depois que Julianne Moore encara a vida ‘normal’ de uma dessas mulheres e libera toda a paranóia delas em busca do mundinho perfeito, nenhuma ‘dona de casa desesperada’ fica de pé. Então veio Velvet Goldmine, e tivemos o primeiro sinal de genialidade do rapaz. Ousando vocar o afetadíssimo mundo do ‘glam rock’ dos anos 70, Haynes faz pelo universo musical da época o que PT Anderson fez pelo cinema com Boogie Nights. Deu textura, cheiro, cor e sabor a uma época. E quis mais. E o ‘mais’ veio com Longe do Paraíso, mais uma desculpa em forma de filme. Revisitando o universo dos anos 60 pelas idéias de Douglas Sirk e seus petardos melodramáticos, Haynes entrega nova antológica performance de Julianne Moore como uma esposa que cai no abismo quando descobre o caso de seu marido com outro homem, enquanto se apaixona por um homem negro. Alguém falou nitroglicerina pura por aí? E mais: cada plano do filme é uma obra de arte, tudo digno da melhor produção dos anos 60... em pleno 2002!

Sendo fã do trabalho dele, o medo inicial era compreensível quando anunciado o projeto da biografia de Bob Dylan em suas mãos. Logo, encarei um ‘intensivão Dylan’, com direito a leituras de material sobre o biografado, muito estudo sobre seu comportamento e principalmente muita música, de “The Times they are a-changing” a “Modern Times”. Logo após a sessão, minha surpresa: meu trabalho foi em vão, pois Haynes promove tudo na tela grande, menos uma biografia. Ficou o saldo positivo de ter conhecido Dylan finalmente, mas o diretor jamais tenta contar sua vida de maneira linear ou mesmo de forma ‘quebrada’. Vemos seis atores em busca de um rosto; ora um poeta folk andarilho, ora um atormentado cantor às vésperas do sucesso... em dado momento um artista liberto de convicções e avesso a polêmicas, em outro um cavaleiro andante e preocupado com o futuro à sua volta. Como diz o material publicitário, todos são Dylan, mesmo que nenhum deles tenha seu nome. O que vemos são leves pinceladas de vida, com um fato verídico aqui e outro acolá (um acidente de moto que sofreu quando jovem, por exemplo, é lembrado apenas no som de uma batida num fundo preto), mas a prioridade é sua essência, seu espírito. Pelas reações do homenageado, está tudo lá.

O que o público tem de verdade é um espetáculo único e sensorial, um conjunto das mais belas imagens aliadas ao total domínio técnico e narrativo da linguagem cinematográfica. Sabe-se lá como, mas no meio da salada verbal e visual servida, um roteiro sublime é apresentado e um elenco de sonho se apresenta a nossa frente. Dos coadjuvantes (Charlotte Gainsbourg, Michelle Williams, Julianne Moore – que deusa) aos seis Dylans, sem nenhum exagero. Marcus Carl Franklin, Ben Wishaw, Christian Bale, Heath Ledger, Richard Gere e a messiânica Cate Blanchett deram o sangue por um projeto que necessitava de alma. Alma e coração são tudo o que Não Estou Lá tem. Graças a Todd Haynes e Bob Dylan, estamos diante do filme-evento do ano.

(Leia outras críticas - Francisco Carbone e Fabrício Mohaupt - publicadas durante o Festival do Rio 2007; coluna Mise In Scène )

Cotação para este filme:
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