CHEGA DE SAUDADE
Foto: Divulgação
E a moda do ‘filme-coral’ pegou de vez no nosso cinema. Antes de mais nada, o que seria um ‘filme-coral’? O inventor dessa gracinha atende pelo nome de Robert Altman, que lá no início dos anos 70 apresentou ao mundo M.A.S.H., ganhando a Palma de Ouro e o Oscar de roteiro. Lá já aparecia o que seria uma constante em seu trabalho, sua marca registrada e sua fonte de inspiração a outros diretores. O grupo de personagens que se conhecem e vão aos poucos construindo uma história única com suas tramas paralelas foi se apriomorando ao longo das décadas até achar em Paul Thomas Anderson o seu melhor tradutor, com Boogie Nights e Magnólia como carros-chefe. Tivemos até um vencedor do Oscar que representou essa tendência em Crash. E o cinema nacional, tendo lançado com esse seis filmes esse ano, constatou que apenas Meu Nome não é Johnny não segue essa linha narrativa. O Signo da Cidade, Sexo com Amor?, Polaróides Urbanas, Fim da Linha e Chega de Saudade fazem parte do segmento. No saldo final, todos devem pedir a benção a Lais Bodanski, a única a fazer um filme memorável entre todos (na verdade, todos os outros são porcarias que envergonham nossa cinematografia, num começo de ano preocupante para nós). Mas como o papo aqui é Chega de Saudade, chega de falar de filme ruim.
A palavra-chave aqui é uma só: maturidade. Com apenas dois filmes no currículo e pulando de um extremo a outro (da crise de juventude e posterior intolerância de Bicho de Sete Cabeças à felicidade e plenitude de ter mais de 40, 60, 80... desse aqui), Lais vai se confirmando como cineasta de primeiríssima linha em dois projetos igualmente brilhantes, porém muito distantes entre si. O fascínio pela dança sempre esteve presente na vida da diretora e de seu marido, o roteirista Luis Bolognesi e, de tanto freqüentar bailes como o mostrado no filme, Lais decidiu mergulhar nesse universo. Ao final da empreitada, quase três horas de material rodado e uma dor imensa no peito: a montagem seria responsável por cortar simplesmente a metade do filme. Na ânsia de não perder personagem algum, o casal cortou na duração de todas as histórias, mas não sacrificou por completo nenhuma delas, sendo generosa com um elenco não menos que brilhante.
O filme mostra uma noite na vida de cada uma daquelas pessoas, freqüentadoras de um mundo de sonho que só dura uma noite. Pessoas que durante uma noite são protagonistas num salão de dança onde não há preconceito e toda idade é permitida. O casal veterano das pistas que hoje se estranha na realidade da vida (Leonardo Villar e Tonia Carrero); a viúva alegre em busca de um par numa noite que não será generosa (Betty Faria); uma mulher consciente da personalidade ‘bon vivant’ de seu companheiro (Cassia Kiss e Stepan Nercessian); o DJ jovem e sua doce namorada (Paulo Vilhena e Maria Flor), numa crise que irá esbarrar em outro casal na noite; e tantas outras figuras clássicas de um típico ‘baile da terceira idade’ (expressão nunca dita no filme, em decisão acertada do roteiro, que tira qualquer preconceito que ainda possa haver com os bailes).
Em uma colaboração primorosa, Walter Carvalho entrega uma das fotografias mais impressionantes do nosso cinema, deslizando pelo salão e pelas vidas de cada um dos personagens retratados, nunca perdendo o foco da ação e mantendo vivo ritmo impecável do filme ao lado do craque da montagem Paulo Sacramento. De características simples mas com um enorme coração, toda a complexidade de Chega de Saudade reside em cada um dos seus personagens, pessoas que independente da idade, dos problemas, das crises e do futuro, sabem que durante algumas horas a dança está do lado delas. Lais Bodanski convida-nos a viver suas histórias com graça, elegância e muito gingado e nós obedecemos, extasiados e emocionados.
Cotação para este filme:
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