» FICHA TÉCNICA |

Título do Filme: XXY
Título Original: XXY
País de Origem: Argentina
Idioma: Espanhol
Duração: 85 Minutos
Gênero: Drama
Produtora: Historias Cinematográficas
Distribuidora: Imovision
Direção & Roteiro: Lucía Puenzo
Elenco: Inês Effron, Ricardo Darín, Valeria Bertuccelli, Martin Piroyanski.
Estréia no Brasil: 29/02/08


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francisco carbone »

rosquinhamabel@hotmail.com

» RIO DE JANEIRO, 22 DE FEVEREIRO DE 2008

XXY

Foto: Divulgação/Imovision

A cineasta Lucía Puenzo começou com o pé direito e olha que nem estou falando ainda de sua estréia cinematográfica, mas sim de seu nascimento. Enquanto filha de Luiz Puenzo, o único cineasta latino-americano a faturar um Oscar para sua pátria Argentina por A História Oficial, em 85, Lucía deve ter tido uma infância ao menos politizada e excepcional, do ponto de vista cinematográfico. O filme que seu pai dirigiu e varreu o mundo há mais de 20 anos é um petardo dramático que comoveu o mundo, trazendo prêmios de Cannes, da Itália, da Alemanha e de todo os EUA, contando a história de um casal tomado de surpresa pelo golpe militar que a Argentina sofreu em 76. Toda a influência paterna deve ter aflorado sua sensibilidade, já que vemos, logo em seu primeiro longa, uma clara preocupação com o sentimentalismo em seu filme, que inexiste. Tudo bem que seu pai tem uma curta carreira de apenas seis filmes, mas se espera que o talento claro que Lucía exibe seja suficiente para vermos seu nome brilhar cada vez mais forte.

O tema escolhido para a estréia é ao mesmo tempo acertado e polêmico, mostrando que a jovem diretora não tem medo de mostrar realidades ainda não assimiladas pelo grande público. Aqui o centro da trama é Alex, uma adolescente de quinze anos que não sabe como lidar com seu hermafroditismo. Criada como uma menina e sendo vista como uma pela pequena ilha pesqueira onde vive com os pais, Alex começa a questionar sua posição com a chegada dos hormônios, que já embaralham a cabeça de qualquer jovem, imaginem então uma nessa situação. Quando um casal de amigos de seus pais vão passar um fim de semana na ilha, parece que Alex terá de tomar várias decisões, tais quais se entregar ou não à paixão adolescente pelo filho do casal, refletir sua condição e decidir se vai ou não operar para decidir sua opção sexual de uma vez por todas, tendo em vista que o casal amigo é médico e se mostra muito mais interessado em Alex que no fim de semana em si.

Logo o filme começa a abordar o preconceito em torno da falta de informação em relação à questão de Alex, mas, principalmente, da ignorância da sociedade com o desconhecido, que choca ao mesmo tempo que fascina. O que fica claro na direção de Puenzo é sua delicadeza em tocar em temas praticamente inéditos no cinema, tudo decidido e conduzido de forma exemplar. Não é a toa que o filme foi o candidato da Argentina a brigar por uma vaga entre os indicados ao Oscar desse ano, que acabou não vindo. O que percebemos no final é como seu toque feminino também ajudou a compor uma história cheia de nuances e metáforas femininas.

Os problemas aparecem quando percebemos que se precisa de mais que dois personagens bons para fazer um bom filme e, além disso, Inês Effron e Ricardo Darín contribuem com suas interpretações riquíssimas como pai e filha. Isso só fica ainda mais evidente quando vemos todo o resto do elenco servir a personagens tão pateticamente mal desenvolvidos pelo roteiro. Chegamos ao cúmulo, em dado momento, de notar que o casal de médicos que os visita praticamente não tem falas, sendo que ambos têm muito peso na trama. Vendo algo tão primário acontecer, acabamos rezando para que Lucía Puenzo não se deixe abater (principalmente por ela também ter escrito o roteiro). Sorte de principiante? Talento bruto a ser lapidado? Lucía Puenzo começou muito bem atrás das câmeras; o que temos na contabilidade final é um filme bonito e bem conduzido, mas que não consegue ser mais que isso por conta da inexperiência das mãos responsáveis. Que venha o aprendizado e um breve amadurecimento para a filha de Luiz Puenzo. Que ela seja tão grande quanto o pai.

(Leia as duas críticas - Francisco Carbone e Daniele Costa - publicadas durante o Festival do Rio 2007)

Cotação para este filme:
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