» FICHA TÉCNICA |

Filme: Senhores do Crime
Título Original: Eastern Promises
Idioma: Inglês
Duração: 115 Minutos
Gênero: Drama Policial
Produtora: Focus Films
Distribuidora: Playarte
Direção: David Cronenberg
Roteiro: Steven Knight
Elenco: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassell, Armin Müller-Stahl.
Estréia no Brasil: 22/02/08


ARQUIVOS:
» Todas as críticas deste autor [+]

» Críticas de outros autores [+]

 
francisco carbone »

rosquinhamabel@hotmail.com

» RIO DE JANEIRO, 22 DE FEVEREIRO DE 2008

SENHORES DO CRIME

Foto: Divulgação

David Cronenberg encontrou sua cara-metade em alguém como Viggo Mortensen, o ator que um dia deu a cara a tapa em projetos como Um Crime Perfeito (refilmagem ‘qualquer nota’ de Disque M para Matar, do tio Hitchcock) e Até o Limite da Honra (tosqueira sem fim dirigida por Ridley Scott e estrelada por Demi Moore) até se mostrar brilhante na trilogia Senhor dos Anéis. A dupla vive um segundo momento na parceria depois do antológico Marcas da Violência e onde Mortensen deveria ter concorrido a tudo, porém nada veio. Agora ele concorreu a quase tudo, inclusive ao Oscar, por esse Senhores do Crime, e mesmo sem saber ao certo se é merecido ou não, o que vemos nitidamente na tela é um amadurecimento que pode gerar ainda mais projetos. O sentimento é de ‘torcida diante de time azeitado’, e devemos ficar de fato rezando por mais reedições da parceria, que mais uma vez se mostra rica e eficaz. Pena que Cronenberg não pediu ao roteirista Steven Knight que desse um trato melhor no roteiro; talvez numa análise mais profunda, fosse percebido a fragilidade da trama paralela que envolve a protagonista Anna, vivida por Naomi Watts. Do jeito que ficou, o clima de ‘quase’ é onipresente.

A verdade é que, até Marcas da Violência, Cronenberg poderia se dizer com facilidade ‘caminhando em direção a um deserto de idéias’ e mesmo com algo tão poderoso como Spider lançado, o diretor canadense estava atrás de refazer sua origem. Depois de viver décadas explorando o bizarro como metáfora para os descaminhos da mente humana (Scanners, A Mosca, Mistérios e Paixões, Videodrome), ele pode ter achado coerente continuar sua busca limpando os excessos visuais e centrando seu foco no homem em si, esse ser ele mesmo tão cheio de maneirismos verbais e de atitude que dispensa muletas estéticas. Pois bem, Marcas da Violência nasceu calcado nisso; longe da ficção científica para contar a trajetória do ‘homem que é produto de seu meio e suas reações pra fugir à sua sina’ (premissa que sempre permeou a sua obra), ele fez talvez o melhor filme de sua carreira, talvez um dos melhores da década. Quando o projeto seguinte foi anunciado com o mesmo Mortensen protagonizando, a comemoração antecipada pode não nos fazer perceber a fragilidade do novo ato.

Como já dito, a culpa em nada recai sobre Mortensen, mais uma vez brilhante em sua função de fio condutor numa trama que trás a mesma compreensão do anterior, uma investigação sobre a face do bem que reside mesmo no mais sujo coração e vice-versa, o lado sombrio existente em almas puras. A culpa de Cronenberg só se faz presente diante da análise não-feita em cima de um roteiro com escorregadas fortes em clichês muito chatos.

Anna (Naomi Watts) é uma parteira de um hospital público que assiste a morte de uma jovem grávida após dar a luz, e acha um diário entre seus pertences que pode levá-la à família da jovem. A investigação coloca-a dentro do restaurante cujo dono é Semyon (Armin Muller-Stahl), um russo ligado às suas tradições. O que Anna a princípio não sabe é como a menina estava envolvida com esse universo, na verdade uma fachada para a máfia russa localizada no coração de Londres, onde se passa a trama. Em busca dos segredos que podem ser revelados através desse diário, o velho Semyon convoca seu filho (Vincent Cassell) e o motorista/braço-direito Nikolai (Mortensen) para trazer tal diário até ele, custe o que custar. Numa espiral de desconfiança banhada a sangue, Anna terá que escolher um lado numa pequena guerra onde nem ela sabe estar metida: a guerra pela recuperação de um homem.

O ponto (muito) fraco do filme diz respeito à família de Anna, cuja mãe e tio representam tudo de pior que pode existir num roteiro, com falas-chavões, situações pouco inspiradas e interpretações fracas, que chegam ao ponto de não interessar a ninguém. Em contrapartida, o núcleo mafioso cresce e só vemos acertos em cada fala, em cada cena. O lado bom de tudo: esse núcleo sobressai e acaba fornecendo mais méritos ao filme que o outro núcleo fornece desacertos. Com isso, sobrevive a obra de Cronenberg e mais um grande trabalho de Mortensen, com auge já na famosa cena da luta pelado no banheiro turco. Ao final, faz-se necessário uma ‘melhor de 3’ entre diretor e astro, para que mais uma vez possamos ter acesso a cenas magníficas como o plano final de Nikolai, ciente da realidade falsa que o prende a uma vida falsa, cuja possibilidade de fuga é inexistente. Há apenas o trabalho a ser feito e a certeza de que há muito tempo a humanidade perdeu-se em algum lugar. 

Cotação para este filme:


up | Cinema | Ir para todas as Críticas | Capa


   
Crônicas Cariocas® - 2006 / 2008
Matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores
» Outros Canais | 2 Dedos de Prosa | Artes das Ruas | Caderno de Cultura | 1º Concurso Crônicas Cariocas 2008 | Cultura: agenda | Cultura: artes plásticas | Cultura: eventos | Cultura: meu clássico favorito | Cultura: show | Cultura: teatro | Cinema | Cinema Falado | Cinemão | Cinematógrafo | Mise en Scène | Respirando Cinema | TelaGrande | Festival do Rio 2007 | Contos | Contos de Terror! | Convidado Especial | Copa 2014 | Cristo Redentor | CrônicasTur | Dicas de Português | Editorial | Entrevistas | Esportes & Saúde | Exclusivo | HQ's | Infantil | Infantil: english | Literatura | Meu Bairro | Música | Música & Voz - Tatiane Vidal | Oise | O Que Estou Lendo | O Rio em P&B | Pan2007 | Poesias | Reportagens | RsRsRs | Crônicas Sociais |
 
PARCERIAS