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Filme: Sangue Negro
Título Original: There will be Blood
País de Origem: EUA
Idioma: Inglês
Duração: 160 Minutos
Gênero: Drama
Produtora: Paramount/Miramax
Distribuidora: Disney
Direção & Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Ciaran Hinds, Kevin J. Connor, Dillon Frasier.
Estréia no Brasil: 15/02/08


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francisco carbone »

rosquinhamabel@hotmail.com

» Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 2008

SANGUE NEGRO

Foto: Divulgação

Primeiro, as montanhas. Daniel Plainview está no fundo de um poço cavado no meio delas; de lá, tenta retirar a prata da qual está concentrado em achar. Uma explosão talvez seja necessária, e Daniel crava dinamites nas paredes do poço e as acende. O pavio é grande e o tempo que Daniel tem para sair do poço é suficiente. Na ânsia de retirar também sua caixa de ferramentas lá de baixo, Daniel tenta suspendê-la antes da explosão, mas não há tanto tempo assim. Enquanto a fumaça encobre o ar dentro do poço, Daniel já desce rapidamente atrás do motivo que o levou até ali. Na escada vacilante que ele utiliza para tanto, escorrega para dentro do poço e cai violentamente, quando ouvimos o barulho de sua perna partindo. Para Daniel, no entanto, o mais importante é a prata que ele foi até lá buscar. Sua jornada depois disso tudo será outra e ainda maior: arrastar-se até o escritório onde é vendida a prata, já que ele não conta como o auxílio de ninguém. Durante tudo isso, ouvimos escapar um sussurrado “oh, my G...”, que sai entre os dentes, praticamente não-pronunciado. E pronto, essa é o primeiro e único som humano a saltar da tela nos primeiros 15 minutos de projeção de Sangue Negro, a mais nova obra-prima de Paul Thomas Anderson, um cara de 37 anos que, no seu quinto longa metragem, alcança um nível de autoralidade, de domínio cinematográfico, de pleno exercício narrativo e um grau de genialidade só visto em outro alguém na sua idade: Martin Scorsese.

Mal comparando as duas carreiras, vemos uma progressão parecida entre eles. Vejamos: Jogada de Risco, primeiro filme de Anderson, tem uma pegada com o submundo do crime no seu lado mais medíocre, que podemos também identificar em Caminhos Violentos, o ‘boom’ de Scorsese no mundo. Enquanto Scorsese viria depois a dirigir Alice não Mora mais Aqui, o filme seguinte de Anderson seria sua primeira-obra prima Boogie Nights, ambos são dois filmes tão arraigados nos anos 70, com a década dominando as vidas, ambições e destinos de seus personagens. Depois Scorsese faria Taxi Driver; Anderson, Magnólia... e dito isso, fica desnecessária qualquer maior explanação sobre um ou outro filme. O diretor de Os Infiltrados viria depois com um filme menor em sua carreira (New York, New York) até muito criticado, assim como Anderson (Embriagado de Amor), que conseguiu poucos fãs, mesmo que esses sejam fiéis. O ano de 1980 marcaria o início do casamento de Scorsese com Oscar, com as tantas indicações para Touro Indomável (embora ele tenha sido indicado em ocasiões anteriores) e só aqui explodindo como autor incomparável (e dando um Oscar a um inesquecível DeNiro). Chegamos a Sangue Negro, então.

Quando PTA (seu apelido) anunciou o interesse em filmar a adaptação do livro de Upton Sinclair “Oil!”, os queixos tiveram de ser recolhidos do chão. “Oil!” era um épico, um livro ambientado durante o início do século passado e que mostra os esforços de um homem na construção de império à custa de todo seu esforço empreendedor e do sangue de quem passasse sua frente. Mas basicamente era um livro sobre a formação da América e de como o sonho americano moldou-se na cabeça dos primeiros americanos, de 1900 pra cá; e também um livro político, que mostrava bem a posição do autor diante da situação de um país praticamente em formação. O que vemos na tela, no entanto, não é a adaptação desse livro, e sim a re-imaginação de suas primeiras 150 páginas (e o filme, tendo a duração de 2 horas e 40, teria quantas horas se adaptado por inteiro?). Quando digo re-imaginação, atenho-me ao fato de que Anderson pegou a essência do livro e não fez um longa clássico, mas um longa que bebe nas águas de Terrence Malick e Werner Herzog, na relação do homem com o ambiente em que vive, e em Stanley Kubrick e mais uma vez Scorsese, quando decide dissecar o que habita no coração e alma dos homens.

O personagem principal, Daniel Plainview, é eloqüente e firme em seus propósitos; ele tem suas convicções quanto a enriquecer e não vê motivos nem obstáculos para continuar uma escalada rumo ao poder. Seu dom da palavra acaba fazendo que sua extração de prata dê lugar à de petróleo em apenas quatro anos. Sua principal atividade no momento que o filme reencontra-o, doze anos após seu início, é o de ‘vendedor de sonhos’ e comprador das terras alheias, nas quais ele vê cada vez mais e mais do ouro negro. Para sua retórica ser perfeita, ele anda com seu filho adotivo sempre ao seu lado, mostrando um lado família convincente e tentando provar às pessoas sua integridade com isso. É bom deixar claro, no entanto, que não vemos um monstro, mas um homem duro como a terra, de onde ele retira sua fortuna (em seu genuíno amor pelo filho é que vemos sua humanidade em forma explícita). O que ele não esperava era a chegada de Eli Sunday, um jovem pastor evangélico, criador da Igreja do Terceiro Milagre, que viria a disputar com ele a ascenção sobre a população daquela humilde vila onde ambos vivem; no fundo, uma fera prestes a escapar como Plainview, Sunday na verdade esconde atrás da religiosidade o quanto também luta pelo poder, luta para dominar corações e mentes naquele lugar, e com isso começa a devassar as intenções de Daniel pelo lugar, defendendo as famílias que perdem suas prioridades para a ganância do milionário. Os embates começam leves e vão se intensificando de maneira progressiva, indo em direção a um final catártico,  impactante e inesquecível.

O filme obteve as oito mais merecidas indicações ao Oscar da temporada e é, para mim, o melhor entre os cinco, mais que disparado. A equipe técnica é simplesmente um assombro, desde o que Johnny Greenwood constrói na sua trilha até a inacreditável fotografia de Robert Elswitt. Mas, além de tudo, é a dupla central que fascina: Daniel Day-Lewis e Paul Dano. Enquanto Dano transcende tudo o que um jovem faria com esse personagem nas mãos, utilizando o também jovem pastor Sunday para expor sua imensa gama de nuances e imortalizando o personagem, Day-Lewis faz o mesmo com Plainview, e faz mais: ao contrário do que se imaginava e do que tem sido dito por aí, Plainview jamais é um vilão, mas sim um ambicioso empresário com uma sede de poder que só cresce a cada novo pedaço de terra adquirido. Toda essa humanidade vê-se presente graças à magistral interpretação de um monstro contemporâneo como Day-Lewis, que sabe tudo da arte de ‘viver’ outra pessoa, literalmente. E falei isso tudo de suas em cenas em separado, porque juntos eles são um vulcão em erupção contínua. Seus confrontos estão entre os grandes momentos da história do cinema.

Poucas são as cenas que não estarão imortalizadas ao final da sessão, tudo que Anderson filmou é digno de antologia. Mas duas cenas particulares ficarão na cabeça por dias e dias ao fim: a cena da conversão religiosa de Plainview, em que ele e Sunday  estudam-se somente em olhares e com suas claras intenções ficam a se instigar mutuamente; e o incêndio da propriedade de Plainview, onde vemos o maior arsenal de categorias técnicas em busca do máximo de qualidade, numa cena que deve ter sido rodada numa única vez e que tem o resultado mais fabuloso que poderia esperar-se. Na minha opinião, a grande cena do ano e também um dos momentos onde a sensibilidade escondida do personagem de Day-Lewis vem à tona.

Daniel Plainview encontra Eli Sunday para uma conversa em seu salão de boliche particular, já no auge de sua riqueza. O diálogo será árido como tantos outros travados entre os dois e, embora eles não saibam, já estamos em 2 horas e 30 minutos de filme. O que veremos a seguir é a conclusão de um momento raro da Sétima Arte, onde tantos talentos de tantos períodos diferentes convergiram e nos entregam o que de melhor o cinema poderia nos trazer: uma reflexão sobre a ganância e o poder inerentes a todo homem (mesmo que extremamente ligados à cultura americana), uma aula de aparato técnico e interpretativo (onde nem os mais superlativos elogios poderiam chegar), a transformação de um notável diretor em mestre de seu ofício (com capacidade de lapidar qualquer diamante bruto) e uma diversão de primeira qualidade (ainda que disfarçada de cinema reflexivo).

A sessão acabou, as luzes acenderam e a música inesquecível de Johnny Greenwood invade a sala... não conseguimos sair do transe em que Paul Thomas Anderson nos impôs durante quase 3 horas. Um conselho: voltem a bilheteria e comprem novo ingresso, de preferência para a sessão seguinte. Afinal, uma obra-prima se descortinou na nossa frente e sabe-se lá quando teremos as sensações provocadas por Sangue Negro de novo em nossa retina.

Cotação para este filme:


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