Elizabeth: A Era de Ouro
Foto: Divulgação/Universal
Há exatos nove anos, estávamos diante da mesma equipe, do mesmo diretor e da mesma protagonista para contar o início da história da mais carismática rainha do início dos tempos da corte britânica, Elizabeth I. O diretor Shekhar Kapur, indiano como o nome evidencia, tinha predileção pelas histórias passadas nos universos de cortes e intrigas palacianas, como tinha mostrado em um longa de seu país de origem, Rainha Bandida, mostrando uma conterrânea sua em embates políticos durante sua gestão. Seu nome, no entanto, causou espanto ao ser anunciado no projeto. Somente com o lançamento do filme percebeu-se o tamanho do talento e da sensibilidade do diretor, que acompanha o início do reinado de Elizabeth I, as pessoas vis ao seu redor e os motivos do surgimento de vários temas, como o porquê do seu apelido de ‘Rainha Virgem’. A seu lado, vimos surgir a explosão do talento da mais prolífica atriz da nossa década, a fabulosa Cate Blanchett numa interpretação definitiva, onde somente quase dez anos depois ela se mostra capaz de superar (no ainda vindouro Não Estou Lá, de Todd Haynes). Cate viria a perder seu óbvio Oscar para a ainda insossa Gwyneth Paltrow no multipremiado Shakespeare Apaixonado, assim como outras cinco indicações também seriam derrotadas pelo longa sobre a vida do bardo inglês (incluindo filme e roteiro), apenas vencendo em maquiagem. Nada disso tirou o brilho ou a importância de um filme excepcional.
O mesmo Kapur agora vem mostrar-nos o que aconteceu dez anos depois dos acontecimentos mostrados no longa anterior. Elizabeth I agora é uma monarca estabelecida e respeitada, adorada pelos seus súditos, embora o rei espanhol deseje seu trono e a ameace de todas as formas através do catolicismo regente na Espanha, já que a rainha seria protestante. Armando e conspirando de longe, ao lado de Mary Stuart da Escócia, o Rei da Espanha não desconfia da fragilidade de Elizabeth, que se sente só e desamparada como mulher. A chegada do aventureiro Walter Raleigh (vivido por Clive Owen) tira seu coração da letargia que vivia e um embate romântico será necessário durante a invasão espanhola, que poderá ser ainda mais letal à rainha que as guerras marítimas que virão.
Na ala positiva do filme, vemos o retorno de Geoffrey Rush como o conselheiro da rainha, em mais uma grande interpretação; os figurinos de Alexandra Byrne continuam imbatíveis (e tem chances no Oscar desse ano); a maquiagem do filme ainda é superlativa. Mas a verdade é que a década que separa os dois filmes foi prejudicial principalmente ao diretor, que perdeu o rumo de sua criação e pariu agora um dos longas mais histéricos e desconexos já feitos sobre a realeza. Em primeiro lugar, toda a sobriedade mostrada no primeiro filme ficou por lá, e aqui vemos uma profusão de cores e situações que beiram o ‘carnavalesco’. Em segundo, o tão acertado roteiro do primeiro deu lugar a um ‘samba do crioulo doido’ sem maiores explicações ou coerências, com fatos sobrepostos uns aos outros e personagens colocados em segundo plano de maneira medíocre (pobre Mary Stuart, personagem fabulosa defendida por Samantha Morton). Em terceiro lugar, o tom de comédia romântica adolescente adotado quando Elizabeth decide disputar o amor de Raleigh com uma de suas aias é o mais equivocado possível; aliás, tudo nessa sub-trama é pavoroso. Para completar, Kapur não foi generoso com sua estrela e a entrega a tarefa inglória de recitar frases péssimas e embarcar em situações patéticas, que tiram a força da interpretação da diva Blanchett, mesmo que ela demonstre garra e personalidade sempre. E danificar a performance de alguém como Cate Blanchett deveria ser passível de castigo eterno. Ou seja, o quadro final é de equívoco inexplicável, principalmente por sabermos que esse mesmo pessoal já acertou em tudo antes (e ainda evitei de narrar o grande número de cenas constrangedoras que o filme trás, como o incrível cavalo nadador!!!).
Reza a lenda que um próximo (e último) capítulo da saga da ‘Rainha Virgem’ é programado para a próxima década, onde veríamos a parte final de sua vida, além de seu ocaso como governante. Que os anjos do céu ajudem-nos a voltar a ter um espetáculo de primeira grandeza, porque se a regra for ‘ladeira abaixo’, preparem-se para um merecido indicado ao Framboesa de Ouro.
Cotação para este filme:
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