Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet
Foto: Divulgação/Warner

Se Tim Burton está de volta na área, é hora de comemorar. Se o seu filme novo é o mais cotado a indicações principais ao Oscar, isso então é pra comemorar. Agora, se a Academia é doida o bastante para ignorá-lo, como sempre, já não é problema nosso. De qualquer forma, tenho uma notícia boa e outra má: a boa é que Johnny Depp está de volta, concorrendo ao Oscar e fazendo a parceria mais brilhante da atualidade ganhar mais um capítulo; a má é que a Academia fez certo em indicar o filme somente a três categorias (ator, figurino e direção de arte). O fato é que o filme é favorito nas três, mas em ator ele não tem chance alguma, pois seu favoritismo é dividido com Daniel Day-Lewis, que praticamente já ganhou o Oscar por Sangue Negro. O filme precisa enfrentar Desejo e Reparação nas outras duas categorias e a briga será boa. Mas porque estou celebrando Burton e seu novo longa, mas acabei de declarar que somente as três indicações fora suficientes? Bem, a verdade é que Sweeney Todd é mais um filme de Tim Burton que fica devendo algo, e já faz quase dez anos que ele não entrega um filme excepcional em todos os sentidos (o último foi A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça). Planeta dos Macacos, Peixe Grande, A Fantástica Fábrica de Chocolate e A Noiva Cadáver foram excelentes, mas em todos faltou o toque de gênio que vimos em Ed Wood, Edward Mãos de Tesoura, Marte Ataca! e Os Fantasmas se Divertem. Aliás, foi com esse filme que invadi o universo ‘burtoniano’, e antes mesmo da adolescência e do amor declarado pelo cinema que vim a ter, já sentia coisas abstratas por esse filme, como a inadequação de um filme basicamente de zumbis ser tão repetido na Sessão da Tarde global (nunca descobri o porquê da emissora exibir à tarde filme tão cruel, de humor tão negro e tão adulto); não sabia o motivo, apenas gostava muito da proposta surreal e incomparável a tudo que assistia na época.
Depois Burton veio nos convencer que sua visão do Homem-Morcego era a definitiva e até o aparecimento de Christopher Nolan e de Batman Begins jurávamos que Tim era o homem que melhor tinha entendido a cabeça e o coração de Bruce Wayne. Após Batman, a alegoria Edward Mãos de Tesoura inauguraria a parceria entre ele e Depp, que se transformaria em ouro puro em Ed Wood, a biografia do chamado ‘pior diretor de todos os tempos’, na verdade uma aula de amor ao cinema. O resto é história, e estamos carecas de saber como desde sempre a Academia de Hollywood ignora Burton, que nunca obteve uma indicação como diretor nem seus filmes. Ainda não foi dessa vez que o erro foi corrigido; ainda bem, pois dessa vez Tim Burton só merece nossos aplausos e nossa simpatia, mas não prêmios.
A história clássica do barbeiro assassino da Londres do século retrasado já esteve em diversas mídias, desde as páginas dos jornais (dizem que é um fato real) até romances e chegar na Broadway pelas mãos de Stephen Sondheim em um musical multipremiado. Pois Sondheim passou anos de sua vida tentando convencer algum grande diretor hollywoodiano a assumir a direção de adaptação de seu musical para a telona. A proposta rola há pelo menos vinte anos. Quando o texto chegou no colo de Burton, todo o passado veio na sua cabeça, ao lembrar do jovem que era ao assistir a montagem original do musical. Pronto, estava escolhido o diretor e, de quebra, também o protagonista. Ou alguém duvida que a história de um barbeiro serial-killer que usava o corpo de suas vítimas como recheios de tortas teria alguma outra cara que não a do alter-ego do diretor, Johnny Depp?
Talento não falta espalhado pelo longa. Depp está ótimo como o atormentado homem que, jogado numa prisão australiana, volta fugido de lá quinze anos depois para tentar recuperar a mulher e a filha. Ao saber que sua mulher envenenou-se de tristeza e sua filha foi ‘adotada’ pelo juiz que o condenou, o barbeiro Benjamin Barker assume a identidade de Sweeney Todd e não vai descansar até pôr as mãos no Juiz Turpin (Alan Rickman, também em grande momento) e se vingar pela destruição de sua família. Helena Bonham Carter é a sra. Lovett, a mulher que alugará a casa de Todd de volta a ele e que o ajudará a se livrar dos corpos das pessoas que começa a matar da forma mais bizarra possível: moendo seus corpos e recheando as tortas da sua falida lojinha, que voltará a fazer sucesso quando carne não mais faltar. Junte-se a eles os talentos em pequenas participações de Sacha Baron Cohen (o grande intérprete de Borat) e Timothy Spall e mais a revelação infantil Edward Sanders (um pequeno grande ator), e temos um elenco de sonho. Tudo seria ótimo se o casal Jamie Campbell Bower e Jayne Wisener não fosse tão fraco em todos os sentidos, e sua trama de paixão jovem não fosse tão fraca e perdida dentro de um roteiro já deficiente.
A parte técnica é um assombro, no entanto. A fotografia de Dariusz Wolski é muito boa, assim como os figurinos de Collen Atwood e os cenários de Dante Ferretti, ambos indicados ao Oscar pelo filme e várias vezes indicados por outros trabalhos (ele venceu por O Aviador; ela, por Chicago e por Memórias de uma Gueixa). A montagem de Chris Lebenzon também é um achado e a trilha impecável de Sondheim está toda lá, intacta. Mas, como já elucidei, o roteiro todo furado, faltando explicações demais e cheio de incongruências, acaba por levar muito dos méritos do filme. E logo num filme de Tim Burton, onde os roteiros geralmente são brilhantes. De qualquer forma, diversão não falta e três cenas ao menos tornam o filme inesquecível: as cenas respectivas das canções “The Worst Pies in London” (onde Carter dá um show matando baratas e fazendo tortas), “A Little Priest” (Depp e Carter escolhendo as vítimas de sua navalha afiada) e “By the Sea” (Carter alucinando sobre um final feliz ao lado de Depp na praia). Diversão garantida, ainda deixando a vocês os momentos certos de ir ao banheiro: toda vez que os personagens de Bower e Wisener aparecerem.
(Leia outra crítica sobre este filme)
Cotação para este filme:
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