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Filme: Onde os Fracos não tem Vez
Original: No Country for Old Men
País de Origem: EUA
Idioma: Inglês
Tempo de Duração: 120 Minutos
Data de Estréia: 01/02/2008
Produtora: Paramount Vantage
Distribuidora: Paramount
Direção & Roteiro: Joel & Ethan Coen
Elenco: Tommy Lee Jones, Josh Brolin, Javier Bardem, Woody Harrelson, Kelly MacDonald, Garret Dillahunt, Tess Harper.
Site oficial: www.uip.com.br


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francisco carbone »

rosquinhamabel@hotmail.com

» Rio de Janeiro, 31 de janeiro de 2008

ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ

Foto: Divulgação/Paramount-Vantage

Os irmãos Coen nunca ficaram tanto tempo afastados do cinema como agora. Três anos separam seu último e pior filme (Matadores de Velhinhas) desse novo opus, o mais que consagrado Onde os Fracos não têm Vez; a enxurrada de prêmios que têm recebido parece que é mais que saudade deles. Se não, vejamos: eles são os recordistas absolutos em prêmios em 4 categorias esse ano (filme, direção, ator coadjuvante e roteiro adaptado), ganharam o Sindicato dos Diretores e dos Atores (como melhor elenco), além de terem empatado com o também admirável Sangue Negro em maior número de indicações ao Oscar esse ano, num total de 8 (filme, direção, ator coadjuvante, roteiro adaptado, fotografia, montagem, som e efeitos sonoros). Eles devem estar roucos de tanto agradecer e seus sorrisos não se agüentam mais. Dito isso, a dúvida: há merecimento nessa comoção?

Joel e Ethan Coen têm apenas doze filmes no currículo, em mais de vinte anos prestados ao cinema. A grande maioria são (desde o início) obras únicas, brilhantemente filmadas, maravilhosamente escritas e infinitamente bem interpretadas. Junto a Matadores de Velhinhas, há apenas outro escorregão de fato, Na Roda da Fortuna. Os outros variam entre o ‘muito bom’ e o ‘sublime’, e os gêneros escolhidos sempre apontam um lado para o humor negro, mas são basicamente filmes bem diferentes. Essa sua versatilidade de temas (mas não de estilo ou assinatura) transformou-os em cineastas cada vez mais superiores, com a crítica e o público os endeusando, enquanto a Academia não fazia questão de demonstrar nada em especial, indicando-os apenas quando extremamente necessário e em categorias pífias (Barton Fink, Na Roda da Fortuna, O Homem que não estava Lá). Apenas uma vez eles estiveram no olho do furacão antes de agora, quando do lançamento de sua obra-prima (para muitos) Fargo. Num momento parecido com esse ano, Fargo venceu várias categorias no ano e acabou levando dois Oscars (roteiro original e atriz para Francis McDormand, esposa de Joel). Mas isso já faz mais de dez anos e pode ser que tenha chegado a hora de um reconhecimento mais amplo e irrestrito.

A trama policial baseada em livro de Cormac McCarthy foi muito bem roteirizada e, ao contrário do que se imagina, os Coen já roteirizaram muitos trabalhos adaptados de terceiros, como Ajuste Final, Na Roda da Fortuna, E Aí meu Irmão Cadê Você? e Matadores de Velhinhas. Dessa vez, conseguem o ponto máximo de sua carreira, um filme que caminha com perfeição por todos os seus aspectos, desde a brilhante abertura até o desconcertante final (graças a Deus, todos os filmes da temporada estão terminando de forma magistral). A trama é básica, a princípio: um caçador depara-se certa manhã com um sangrento quadro no meio do deserto que separa o Texas do México. São tantos mortos entre homens e cachorros que é difícil caminhar; na certa uma negociação entre traficantes de drogas que deu errado, Lewellyn Moss (Josh Brolin) avista a chance de sua vida ao encontrar a mala com dois milhões de dólares intocada o meio da chacina. Vai embora levando a mala e deixando a cocaína, mas não imaginava que sua vida transformar-se-ia no mais aterrador pesadelo depois de tentar dar-se bem com tanto dinheiro. Logo os mandantes por trás da negociata estarão atrás dele, tanto do lado americano quanto do lado mexicano, mas, se fossem apenas esses homens em seu encalço, tudo seria perfeito. Entretanto, Lewellyn não esperava dar de cara com um tal Anton Chigurh (Javier Bardem), simplesmente a encarnação do mal. Serial-killer, caçador de recompensas, sanguinário, Anton é implacável com qualquer um que atravesse seu caminho. Ele está decidido a ter aquela mala e o pobre Lewellyn está em sua direção. Agora, o xerife prestes a se aposentar Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) seguirá o rastro da carnificina que ambos deixarão entre os dois estados, sem acreditar nos rumos que a violência atingiu o coração dos homens. E isso tudo se passa em 1980.

Antes de qualquer coisa, uma metáfora sobre a desintegração do bem com a chegada do progresso, quando a violência banalizada começaria a se tornar cada vez mais comum, o filme mostra como valores ‘antigos’ (moral, honra, justiça) caíram por terra com a desvalorização da vida humana e como homens com esses códigos ainda ilibados perdem lugar à próxima saraivada de balas desenfreada (e o título do filme ganha força e precisão a cada nova cena). Acima disso, é bom deixar claro que os Coen construíram um filme que também é escapismo puro, podendo ser visto como diversão de primeiríssima qualidade e sem o uso das metáforas, funcionando tão bem quanto.

Tudo isso é fruto de um trabalho coletivo dos melhores, pois estamos diante de autores de verdade, e não de ‘diretores de verão’. Responsáveis por direção, roteiro e montagem (sob o pseudônimo de Roderick Jaynes – será divertido vê-los ganhar esse Oscar), os Coen tem controle total e absoluto sobre sua obra. O elenco é um aliado rumo a excelência; e como bem disse um colega crítico, Brolin é a alma, Jones é o coração e Bardem é a cara desse produto de enorme qualidade, cada um deles emprestando valores incomensuráveis ao todo (e o auxílio luxuoso de Kelly MacDonald, Garret Dillahunt e Woody Harrelson torna tudo ainda melhor). Infelizmente, apesar da boa interpretação de Harrelson, a nota 10, que reluz todo o tempo na produção, fica inviável por conta justamente do seu personagem que traz muito pouco à trama (será que traz algo de fato?), parecendo perdida toda sua sub-trama, que talvez necessitasse da ajuda da sala de montagem ou do bom senso de se aprofundar mais naquela situação.

Pena que isso aconteça, arranhando o brilho de um filme com incrível força dramática e intensidade constante, mas jamais desmerecendo o fabuloso trabalho de uma dupla de irmãos que só nos presenteia de tempos em tempos com obras do gabarito de Onde os Fracos não têm Vez. Independente de tudo, é louvável como a Academia se rende ao imenso talento autoral e de tintas rebeldes como o deles. Melhor um escorregão nesse nível premiado que bobagens melodramáticas disfarçadas de ‘lição de moral racial modernosa’ por aí. Um grande ano para a Academia, o ano da vida dos irmãos Coen.

(Leia outra crítica sobre este filme)

Cotação para este filme:
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