4 MESES, 3 SEMANAS, 2 DIAS
Foto: Divulgação
Querem saber da única prejudicada com a não-indicação ao Oscar de 4 Meses, 3 Semanas & 2 Dias? A própria Academia. A Europa deu a Cristian Mungiu e a seu filme todo o reconhecimento e o valor que ele merece; ficam mais uma vez sob suspeita as atividades do grupo formado para escolher os indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro, que todos já sabem tratar-se do quadro mais conservador a votar nos prêmios. Muito provavelmente ‘afetados’ com o tom áspero do filme, os idosos votantes optaram por não abraçá-lo, também provavelmente procurando terreno mais calmo e seguro para trilhar (leia-se filmes ao menos minimamente convencionais). Sem querer me alongar muito na questão, há tempos se faz necessária uma mudança radical nas regras da categoria, para que ao menos as pessoas não sejam obrigadas a votar e a assistir filmes que, na verdade, não desejam. Talvez quando a categoria depender única e exclusivamente de lobby as coisas não melhorem?
Mas esse assunto não precisa se alongar, já que numa tacada rápida, afirmo sem culpa: a Romênia nos entrega o grande filme do ano. Talvez ao lado de Sangue Negro (que assisto semana que vem), 4 Meses, 3 Semanas & 2 Dias leva-nos a uma viagem sem rumo e desatinada por um caminho assustador: nossa angústia. Através de Otilia, reconhecemos o desconforto que Mungiu impôs à história e que salta da tela, nos transformando em reféns das 24 horas mais exasperantes dos últimos tempos (te cuida, Jack Bauer!). Há tanto o que dizer sobre um filme tão cheio de camadas...
Antes de mais nada, vale ressaltar que a escalada da Romênia enquanto ‘novos queridinhos do cinema’ chega ao seu ápice, em matéria de prestígio e qualidade. Após apontar o caos da saúde (A Morte do Sr. Lazarescu), a perda de identidade de heróis e oportunistas na guerra (A Leste de Bucareste) e o olhar puro das crianças sobre o fim do comunismo (Como eu Festejei o Fim do Mundo), os cineastas romenos não poderiam encontrar expoente maior e de talento mais óbvio que Cristian Mungiu. Seu desejo de acertar e seus acertos de fato transformam até mesmo nosso olhar sobre a filmografia de seu país, já que não é possível apenas um ‘Mungiu’ naquela terra; há de haver mais de onde surgiu esse. É com 4 Meses que finalmente a Romênia sai da promessa e se torna uma realidade enquanto pólo de cinema, com seus diretores devassando os intermináveis problemas do país com uma verdade tão crua e genuína.
Depois de acompanhar jornadas tão distintas nas veias de um país tão caótico que parece perdido no passado, o que vemos aqui é o retrato do atraso moral, político e social, através de um ponto-chave: o aborto. Proibido no país desde 1966, o aborto é prática clandestina com direito a condenação à pena de morte, caso seja descoberto e realizado. Isso não impede histórias como a de Gabita acontecer, uma universitária que se enxerga grávida após terminar um namoro. Extremamente dependente e sem iniciativa, Gabita conta com a amiga Otília para resolver toda a negociação do aborto que precisa fazer. E é já na cena inicial (onde acompanhamos a absurda tentativa de conseguir um mero sabonete) que Otília cai nas nossas graças, uma amiga com “A” maiúsculo disposta a tudo para salvar sua amiga do pior destino: de início, ser uma mãe despreparada... e, logo à frente, ser presa por toda a vida. Para Otília, o dia será para alugar um quarto num hotel onde Gabita possa fazer o procedimento; contatar o Dr. Bebe, o responsável pelo procedimento; ir ao aniversário da mãe do namorado; livrar-se do feto após o procedimento; cuidar da amiga convalescente. Mas nada será assim fácil, com o hotel criando empecilhos para a estadia de ambas, o aniversário da sogra se tornar uma armadilha familiar, mas principalmente lidar com o gênio irrascível do Dr. Bebe, que irá atormentar a vida das amigas.
O nível de tensão que Mungiu imprime a cada cena é bárbaro, e incrível é perceber que, mesmo com apenas um título anterior, Mungiu já esteja completamente ciente do seu ofício, vendendo talento, transbordando juventude e com uma inquietude vibrante. É gratificante ver um cineasta que sabe posicionar a câmera exatamente em todas as cenas, que cria um estado de tensão mais crescente que em muito blockbuster por aí, que conduz um elenco com tanta maestria. O trio Anamaria Marinca, Laura Vasiliu e Vlad Ivanov é tão superlativo e intenso que fica difícil acreditar que não passam por situações verdadeiras; em especial Marinca, que consegue hipnotizar a platéia com sua inteligência cênica.
Dizendo isso em 24 de janeiro fica difícil de imaginar que algo melhor não surja pelos próximos 11 meses, mas será difícil encontrar algo com igual vigor (técnico e narrativo) e capacidade de assombrar nossos pensamentos. E felizmente fica o desejo: que Mungiu não suma do radar; algo me diz que um talento tão extraordinário não pode ser esquecido tão facilmente. Desde Sam Mendes em Beleza Americana não se vê algo tão autêntico e explosivo, e Cristian Mungiu responde com igual demonstração de craque. Nasceu sabendo ou sorte de principiante? Por enquanto a resposta é: 4 Meses, 3 Semanas & 2 Dias, O Filme.
(Leia outra crítica sobre este filme)
Cotação para este filme:
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