Paranoid Park
Foto: Divulgação/IFC Films / Imovision
É ainda sob o impacto do estúpido falecimento de Heath Ledger que venho escrever essa crítica, que muito reflete as idéias que seu diretor Gus Van Sant vem tentando passar adiante a respeito do seu assunto preferido e quase único: a destruição da juventude. É quando assistimos um jovem astro do cinema, com carreira ascendente, no auge do sucesso, pai de família, bonito e disputado por mulheres e projetos, simplesmente partir. É nesse caleidoscópio de sentimentos que tentamos encontrar respostas ao vazio que se sente ao constatar realmente o fim da juventude, desesperançada e solitária. O caso de Ledger deve ser um bom exemplo do nível de adultos que estão se formando com a cabeça ainda cheia de dúvidas, angústias e falta de limites.
Gus Van Sant sempre foi um cronista da juventude transviada, de Drugstore Cowboy (onde um grupo de jovens drogados assaltam farmácias para sustentar o vício) a Últimos Dias (que mostra um quase fictício Kurt Cobain aproveitando o fim da vida, enquanto invariavelmente enlouquecia), Sant sempre investigou o caminho tortuoso dos jovens desajustados. Flertou com a vertente hollywoodiana em seu mais alto grau com filmes como Gênio Indomável (um grande campeão de bilheteria e vencedor de dois Oscars), ao mesmo tempo que explodiu também como grande ‘auteur’ do cinema indie americano, com a Palma de Ouro em Cannes ganha pela sua obra-prima Elefante. Já fez de praticamente tudo e agora resolveu ousar ainda mais, misturando elementos dos dois caminhos que já trilhou como diretor e nos entregando um thriller reflexivo, ao mesmo tempo denso e pop.
Acompanhamos a trajetória de Alex, há pouco tempo na adolescência, mas que já trás todos os conflitos da idade: deslocamento, mudanças bruscas de temperamento e atitude, agressividade latente; basicamente um adolescente como outro qualquer. Mas seria ele capaz de um ato de violência? Bem, a polícia acha que ele é um dos suspeitos pelo assassinato de um segurança da área de trens de sua cidade, próxima a um lugar chamado Paranoid Park, nada mais que uma pista de skate freqüentada por toda sorte de malandros e jovens estudantes. Como Alex. Vemos, a partir desse momento, como a dúvida vai agir na cabeça desse menino e como sua imaturidade pó ser a chave para muita coisa; afinal, Sant está preocupado em mostrar fielmente o interior e as inquietações da juventude moderna (ou como vemos em sua longa filmografia, a juventude de todos os tempos). Além desses contornos extremamentes exasperantes que o cineasta mostra acerca da alma humana, ainda há o viés particular de Sant, homossexual assumido que desde sempre mostra também o lado ‘sui generis’ e ambíguo de cada um. E dá-lhe fetichismo de todo o tipo atrás de corpos adolescentes e exploração da beleza masculina adolescente. Acusação de pedofilia? Longe disso, pois Sant maquia de forma belíssima sua adoração quase pudica a esses ‘bad boys’, graças ao fenomenal trabalho de fotografia de Christopher Doyle (mestre por trás de Amor a Flor da Pele e 2046).
Na área interpretativa, como em Elefante, Sant se cercou de atores não-profissionais, recrutando-os até através da internet, o que deu uma cara muito saudável ao projeto. O protagonista Gabe Nevins, apesar da crueza e da inexperiência cênica, tem vigor juvenil e provavelmente a mesma idade do personagem, o que lhe dá ‘bagagem’ fora do comum para entrar na cabeça de Alex. O resto do elenco está muito bem por um todo.
Resta-nos agora esperar pelo próximo projeto do diretor, que vai dar uma parada em suas peregrinações pelo cinema alternativo e abraçar a biografia do político americano Harvey Milk, o primeiro gay assumido a abraçar um cargo político nos EUA, a ser vivido por Sean Penn. Esperemos que esse seu novo passeio pelo lado abastado do cinema lhe dê novo gás, já que em Paranoid Park já vemos, em uma cena ou outra, repetições de tiques e uma ligeira gratuidade de situações mostradas em seus outros projetos (e um final especialmente didático). Nada que tire o brilho de um homem que entende como poucos um universo cada vez mais longe de si, dando voz a uma juventude que poucos querem mostrar, onde quase nenhum consegue a verdade que ele imprime.
(Leia outra crítica sobre este filme )
Cotação para este filme:
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