Desejo e Reparação
Foto: Divulgação
Ian McEwan e Joe Wright são estrelas britânicas ascendentes, isso é fato. O primeiro teve seu livro de estréia (Reparação, aqui no Brasil) alçado à categoria de melhor romance do novo século, até agora, e sua publicação seguinte (Na Praia) já é disputado a tapas pelos produtores de cinema e também foi elogiadíssimo pela crítica literária mundial. O segundo é um cineasta que estreou na tela grande há dois anos, por conta de uma nova adaptação de um dos grandes livros de Jane Austen, Orgulho e Preconceito. Já na estréia também fez barulho como o conterrâneo, concorreu a quatro Oscars e lançou ao mundo ao menos dois talentos: o compositor Dario Marianelli e a estrela transformada em atriz Keira Knightley (uma das indicações ao Oscar do filme foi para sua performance). Independente dos elogios e prêmios, merecidos ou não, McEwan e Wright estão na ponta de lança do novo boom cultural do Reino Unido, um escritor e um cineasta, vindos do berço da arte em sua esfera mais clássica, trabalhando inseridos em um universo tradicional e sendo capazes de virar do avesso esse universo, dando requinte e modernidade a algo que imaginávamos intocável.
Pois o encontro de ambos não poderia ser mais feliz. Ao ser comprado pelos mesmos produtores da versão de Wright para Orgulho e Preconceito, a adaptação de um livro já tão mitificado quanto Reparação (clique aqui e leia outra crítica na página do Festival do Rio 2007) foi cair nas mãos de imaginem quem? Os responsáveis gostaram tanto do trabalho de Wright e acreditaram tanto no seu potencial como autor que não pensaram duas vezes ao lhe entregar um material considerado por muitos como de difícil adaptação, por conta dos fãs e da complexidade da obra. Pois o jovem diretor tira de letra praticamente todas as pedras do caminho da adaptação e nos entrega um filme inesquecível, ao mesmo tempo clássico e extremamente autoral. O trabalho da adaptação deve ter sido árduo, já que o livro conta com um dos personagens mais ambíguos já vistos ultimamente e que (ufa!) é levado de forma fiel as telas. E se torna um dos grandes motivos de seu brilho.
A trama não tem nada do clima ‘romântico mexicano’ que poderia se supor à primeira vista; esqueçam ...E o Vento Levou, o clima aqui é outro. Trata-se de uma história, a princípio, de diferença de classes, quando percebemos que o filho dos caseiros de uma grande propriedade na Inglaterra da década de 40 demonstra sérios interesses por uma das herdeiras da família. A jovem também parece interessada, mas até por saberem as batalhas que precisarão enfrentar, ambos são muito discretos e cuidadosos, um com o outro, assim como o filme. Mas nada foge à vista de Brionny, a irmã caçula da jovem. A menina de 13 anos nutre um amor platônico pelo mesmo filho dos caseiros e observa tudo ao longe, não perdendo nenhum detalhe de vista. Como sabe da impossibilidade de seus sentimentos, inclusive pela idade, Brionny não medirá esforços para que a felicidade de sua irmã também não se consuma e trama para que eles nunca se unam. Mas ao ver que seus intentos foram por água abaixo (e que o casal acaba se entregando ao fogo de uma paixão avassaladora numa das muitas fantásticas seqüências do filme), a menina criará uma intriga para cima do jovem rapaz, fazendo-o pagar pelo estupro de uma prima. É o que basta para o casal se separar e a guerra meter-se entre suas vidas. A partir daí, acompanhamos os cinco anos seguintes, onde Brionny começa a espiar uma culpa que atravessará toda sua vida, destruindo-a aos poucos, enquanto o jovem casal fará de tudo para voltar a ser felizes juntos.
A parte técnica do filme demonstra como Wright está praticamente com o talento formado. Os acertos na fotografia impressionante de Seamus McGarvey, no fabuloso figurino de Jacqueline Durran, na montagem excepcional de Paul Tothill só não são superiores que a melhor trilha sonora do ano, a cargo de Dario Marianelli, mais uma vez. Suas composições, que apontam todas as luzes ao talento de Brionny como escritora, são um achado e uma das coisas mais originais e bonitas a surgir nas telas em anos. O filme tem um caráter cerebral que vinha impresso no livro, mas que era difícil de se imaginar traduzido de forma tão vigorosa e fiel como na aula de roteiro que o mestre Christopher Hampton dá, um dos maiores exemplos da atual excelente safra de roteiros, que discute de forma definitiva seres humanos e suas idiossincrasias, seus pequenos erros e sua forma de reparar dores irreparáveis.
Em outro grande trunfo seu, Wright consegue extrair o máximo de seu elenco. Keira Knightley e James McAvoy convencem como o casal cheio de amargura e com um passado enorme a esclarecer. Todos os coadjuvantes estão em forma também, mas num filme dominado por uma personagem, seria a escolha de sua intérprete que concentraria sua força ou fracasso. E o trio escolhido para representar Brionny consegue extrapolar o limite do talento. Vanessa Redgrave é responsável pelo ato final da trama, num monólogo de 5 minutos estarrecedor, onde ficamos a par da ‘reviravolta final’ mais surpreendente dos últimos tempos. A juventude de Romola Garai e seus tristes olhos azuis ajudam-na a mergulhar fundo na alma de uma pessoa cheia de pecados, com muitos ainda a cometer, mas que só pensa em reparar o maior erro da sua vida. Mas é Saoirse Ronan o grande nome de Desejo e Reparação. O olhar, a respiração, os gestos, a voz, seu caminhar, tudo anseia ser exposto, e cada cena da jovem menina é um assombro em matéria de técnica interpretativa. Desde o surgimento de Haley Joel Osment (o astro de Sexto Sentido e A. I.) não se vê uma interpretação infantil de tamanha força dramática, garra e acerto.
Se Desejo e Reparação não é perfeito, deve-se a um breve miolo, onde perdemos a referência a todos os personagens que não são os protagonistas, pela qual o filme nunca se dedica e na qual nada explica. Seria um grande motivo para a queda de qualidade de qualquer produção, mas não uma com tantos evidentes acertos, tantos gigantescos acertos, tanto valor cinematográfico quanto Desejo e Reparação. O filme é tão imensamente perfeito em praticamente tudo, que esse deslize é visto apenas como um deslize, onde em qualquer outro lugar seria absurdo. Duvidam? Aventurem-se então por essa obra que discute culpa e perdão como poucas, cuja dor de uma personagem é capaz de mudar tudo ao seu redor e transformar todo o resto em puro encantamento.
Cotação para este filme:
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