Sombras de Goya
Foto: Divulgação

Não sei dizer o porquê, mas desde que me entendo por gente tenho simpatia pelo nome de Milos Forman. Lembro de ouvir seus filmes anunciados na Rede Globo durante minha infância e seu nome sempre ressoou de maneira exemplar aos meus ouvidos, sempre com curiosidade a respeito do dono da alcunha. Naquela época, não sabia que esse orgulhoso filho da Polônia seria uma referência essencial à minha alma cinéfila. Seu primeiro filme a chegar a mim foi o mais que clássico Um Estranho no Ninho, talvez o melhor retrato da contracultura americana em plenos anos 70, uma metáfora exemplar sobre a repressão que a moralista sociedade americana impôs a seus membros mais ‘divergentes’, na história de um presidiário que se passa por louco para que, estando num hospício, a fuga seja facilitada. Seu dia a dia na instituição, a revolução que ele provoca entre os internos e seu embate com a enfermeira-chefe dão o tom de uma narrativa clara, onde cada fotograma é uma analogia tão óbvia e tão urgente, ao mesmo tempo.
Devido a essa ligação em especial com minha infância e também ao hiato gigante que se formava desde seu último longa (O Mundo de Andy, de 99), todo e qualquer boato a respeito das filmagens ou projetos de algo ligado a Forman eram absorvidos por mim com muita avidez. E logo surgiu Sombras de Goya, o filme que enfim assisti. Tudo nele parecia único e especial, da volta de Forman depois de muitos anos (ao final, foram 8) ao roteiro de Jean-Claude Carriére; dos temas abordados (a Santa Inquisição) ao elenco reunido: Javier Bardem, Natalie Portman e Stellan Skarsgaard na ponta de lança. Mas os contratempos eram o que mais se ouvia a respeito do projeto.
De atrasos nas filmagens a trocas no elenco coadjuvante, de orçamentos estourados a incríveis ‘estrelismos’ por conta de um elenco invejável, nada parecia bem. Mas a natureza de Forman animava-me; afinal, qual seria o limite da mediocridade a um cineasta tão acostumado a óbvias excelências? Quando você tem uma filmografia que inclui Hair, O Povo contra Larry Flynt, Valmont, Na Época do Ragtime, outra obra-prima como Amadeus e os já citados anteriormente, não há chance de algo sair errado, nem querendo. Mas quiseram os deuses do cinema que a escorregada de Forman fosse feia, e eis que surge Sombras de Goya.
No fim das contas, o que vem à cabeça é a premissa do nosso Saneamento Básico, mostrando que quando o poder público cede dinheiro para a produção de um longa-metragem, o primordial é fazê-lo, e não deixar que o dinheiro volte para o governo, já que o mesmo provavelmente “desaparecerá”. Pois parece bem isso que aconteceu com Forman, tendo conseguido o financiamento para o projeto e, na falta de um, resolveu rodar qualquer coisa. Por onde começar a escorraçar esse ‘Judas cinematográfico’? A verdade é que dá muita pena de ver um projeto desse naipe (ou melhor, quase não há naipe aqui) ser capitaneado por alguém tão relevante na esfera da Sétima Arte, vencedor de prêmios diversos inclusive dois Oscars, e atores tão excepcionais quanto os mencionados. Mas pouco há a salvar por aqui.
A trama trata da ajuda que o pintor Francisco Goya resolve prestar a uma mulher que foi sua modelo no passado e hoje é uma mendiga em estágio avançado de insanidade. Procurado por ela, que deseja reaver uma filha nascida nos porões da prisão da Inquisição, Goya chega até o líder dos inquisidores na época, hoje um homem ciente das crueldades da Igreja e longe das práticas religiosas, que foram abandonadas por ele. A medida que a trama avança, percebemos nitidamente o nível do ‘imbroglio’ que une a mendiga ao ex-inquisidor, na qual o pintor é apenas testemunha. Ou seja, porque Goya é mostrado aqui? E isso é apenas um dos muitos absurdos do filme. De roteiro burocrático, que tenta envolver com uma trama vagabunda e diálogos inacreditavelmente ruins, o filme fica marcado também pela indigência técnica, onde a preguiça da fotografia, montagem, figurinos e cenários imperam. E no campo das atuações, o desastre é digno de lágrimas. Enquanto Javier se esforça como o ex-inquisidor num personagem absurdamente sem qualquer relevância, Portman chafurda numa interpretação caricata e afetadíssima, observados pela apatia de Skarsgaard como a lenda da pintura. O pior a dizer é: o trio está tão ruim pelo impressionante péssimo trabalho de direção de atores, já que os três apareceram posteriormente em condições normais (ou seja, excelentes).
No meio de tanta desgraça, o que pensar de Milos Forman daqui pra frente? Respondo a vocês que, com tanta grandiosidade no currículo e de posse de uma moral irretocável, ficarei esperando seu próximo trabalho da mesma maneira que sempre fiz: cercado de ansiedade. Até porque preciso tirar da mente a péssima impressão que Sombras de Goya deixa ao seu final, de que dificilmente esse projeto seria melhor, em qualquer momento, com qualquer cineasta. É assistir, ter conhecimento de que até as ‘lendas’ erram e tratar de esquecer.
Cotação para este filme:
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