A CULPA É DO FIDEL
Foto: Divulgação/Disney

Qual será a sensação de encontrar um seguidor à sua história dentro da própria casa, mais precisamente em nossa própria família? Com certeza não é novo o fato de que filhos seguem a carreira dos pais, e isso no cinema chega a ser lugar comum. Kirk Douglas viu seu filho Michael chegar a um patamar nunca alcançado por ele próprio (Douglas filho tem dois Oscars e o pai nenhum); a família Barrymore continua rendendo frutos desde os primórdios do cinema (de vovô Lionel à netinha Drew, muitas gerações se passaram); os Coppola então, nem se fala, esses fazem de tudo (papai Coppola e sua filha Sofia são realizadores de primeira; o avô de Sofia, Carmine, tem um Oscar como ‘trilheiro’ e também como roteirista; Tália Shire e Nicolas Cage também orgulham o clã, assim como o jovem Jason Shwartzmann... essa família é especial, como se vê...). O difícil é vermos um cineasta dar origem a outro em idéias, atitudes e propósitos, e algo me diz que uma certa casa grega está em festa com o nascimento de um novo talento.
Desde tenra infância que o nome do maior cineasta político da história, Constantin Costa-Gavras, causa-me um misto de respeito e deferência devido aos títulos memoráveis que já tiveram seu crivo. Desde o petardo Z, talvez o mais emblemático filme político da história do cinema, acompanhamos a evolução constante de sua carreira, que diminuindo ou acelerando sua verve, sempre foi fiel aos seus princípios e ideais políticos. De Z em diante, vemos sua filmografia traduzir o melhor do assunto desde sempre, de Estado de Sítio a O Quarto Poder, de Sessão Especial a Amem, de Missing ao recentíssimo O Corte, grande sucesso por aqui no ano passado. O que Costa-Gavras não deveria imaginar era que teria a emoção de assistir ao ressuscitar de um gênero tão datado quanto o ‘cinema político’ pelas mãos da própria filha, Julie Gavras, no belo A Culpa é do Fidel!. (mais em Festival do Rio 2007)
Ainda que doce e terno, o filme é somente a primeira contribuição de Julie ao cinema de ficção, portanto muito ainda teremos de acompanhar na carreira dessa jovem. É óbvio, além de tudo, que ao menos a escolha dos temas foram herdados do pai, numa clareza de intenções muito interessante. Com cuidado, podemos ver inclusive os olhos de Julie impressos nos olhares da pequena Anna, a protagonista de seu filme, tão interessada nos “assuntos dos pais”, aos poucos tomando conhecimento do mundo ao seu redor.
O filme é claramente uma iniciação, e é o tema no qual a diretora resolveu se debruçar também. Partindo de um livro de Domitilla Calamai, Julie parece ter encontrado a história perfeita para sua estréia. Anna é uma menina de nove anos, francesa, moradora da capital parisiense no início dos anos 70. Sua infância corria na mais absoluta normalidade até que ela começa a perceber uma estranha movimentação diferenciada em sua casa, mais precisamente em seus pais. Questionadora e vivaz como toda criança e irrequieta como poucos adultos, Anna move e persegue a trama, ao mesmo tempo. Com isso, o filme (e o público) vão descobrindo as cores do roteiro em parceria com ela, com a cortina sendo aberta lentamente para que se veja o momento político da América Latina na época e como grupos europeus se moveram a ajudar alguns países daqui (no caso do filme, Cuba) sem nenhum benefício próprio, apenas visando o bem social. Como ativistas sociais políticos, essas pessoas eram perseguidas como guerrilheiros e tantas vezes sumiram sem deixar rastro, muitas vezes sem nunca ter pegado em armas.
As cenas mais vibrantes da produção são do confronto entre Anna e os homens que passam a freqüentar sua casa da noite pro dia, que ela costuma chamar de ‘barbudos’. A interação entre os personagens e seus diálogos sensacionais são molas primordiais para o sucesso do filme, no qual podemos ver como o roteiro escrito por Julie também é de excelente qualidade. O carisma da pequena Nina Kervel é a ‘cereja do bolo’, sem a qual o filme não teria nem metade da sustentação. Ela é pura verdade como o alter-ego de Julie, apenas um pequeno ser tendo contato pela primeira vez com o universo das pessoas que ama.
É na pureza de intenções e na força de um novo talento surgido que dá pra acreditar em A Culpa é do Fidel!, um filme que já vimos algumas vezes anteriormente, mas que ganha fôlego graças a uma estréia que qualquer pai teria orgulho de presenciar. Parabéns, sr. Gavras.
Cotação para este filme:
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