ENCANTADA
Foto: Divulgação/Disney

Lá se vão 17 anos da estréia mundial de um dos filmes de cabeceira de românticos do mundo todo. Na ocasião com 12 anos, lá fui eu sozinho ao cinema do meu bairro, amparado pelo sucesso estrondoso do filme em questão, mas também munido de um triste sentimento de perda: era o último dia de funcionamento do extinto Cine Palácio, próximo a minha casa. A época era do boom das igrejas evangélicas, e o malfadado Bispo Edir Macedo tinha feito da capital dos meus sonhos sede de mais uma filial de suas instalações, prática comum na década passada. Já saí de casa triste, lembro bem, pois tinha sido naquele lugar que meu amor pela sétima arte tinha florescido, foi lá que minha alma cinéfila foi formada. Fui duplamente arremessado no mundo em que vivo até hoje e à mente do genial Steven Spielberg no mesmo instante, já que minha primeira aventura na tela grande foi testemunhar o vôo do extraterrestre mais famoso da história do cinema (E.T.). E lá, eu voltei para tantas outras aventuras... Quero ser Grande, Nas Montanhas dos Gorilas, Uma Secretária de Futuro, tantos filmes dos Trapalhões... foi lá também que, acredito, ter sido o palco de minha primeira catarse cinematográfica, exatamente nesse domingo tão vívido ainda na mente. Era o retorno de Richard Gere ao estrelato, era o surgimento da maior estrela feminina da minha geração de nome Julia Roberts, era Uma Linda Mulher, como já disse: filme inesquecível para tanta gente por tantos e diversos motivos. Os meus foram descritos aqui, mas eu nem sabia o quão essa película marcaria minha vida (e olha que ao sair do cinema eu não sabia se chorava mais pelo filme em si ou se pela despedida ao meu ‘velho amigo’). O fato é que, 17 anos depois, eu voltei a sentir a magia daquele mesmo novembro de 90, algo inexplicável e tão intenso, algo que eu lembro ter voltado a sentir pelo menos em duas outras ocasiões na companhia da mesma Julia Roberts (em O Casamento do meu Melhor Amigo e Um Lugar chamado Notting Hill). Uma vibração tão positiva, um alarme soando tão forte, um sinal claro de estar diante de algo que também “vai ficar para sempre”. Seu nome? Encantada.
Estava empolgado de verdade para assistir ao filme desde bem antes das críticas especializadas internacionais posicionarem-no exatamente da forma com que o coloco agora, mais precisamente desde que assisti ao delicioso trailer do filme, que mostrava claramente o óbvio sucesso que viria pela frente (e que se concretizou, com o filme atualmente tendo acumulado mais de 90 milhões de dólares só nos EUA, e a cada dia mais...). Mal sabia que voltaria a sentir as emoções que tentei descrever acima, um misto de felicidade, prazer, encantamento e expectativas plenamente saciadas. Muito provavelmente, Encantada é uma das experiências mais felizes da década, onde absolutamente tudo dá certo.
O roteiro simples não é sinônimo de ‘simplório’. Gisele é uma princesa de contos de fadas, da mesma lavra de Cinderela e Branca de Neve, uma mocinha cantarolante vivendo feliz e sorridente numa floresta de bichinhos falantes, todos seus amigos e testemunhas do seu desejo de encontrar o tão cobiçado príncipe encantado. No dia em que o tal príncipe aparece, a paixão desenfreada faz com que eles marquem casamento para as próximas 24 horas, em que a madrasta má (lógico que ela existiria aqui também) só consegue pensar em um único meio de afastá-los: mandar Gisele para outro reino, muito distante de lá. Mais precisamente... a Nova York dos dias atuais. E estando aqui, Gisele viverá muitos apuros até ser salva por um advogado bondoso que poderá ser o real príncipe que ela tanto sonhou a vida toda.
Pois bem, não sei se deixei claro, mas Encantada não só parece um dos tantos desenhos da Disney como realmente o é: seus primeiros 15 minutos são todos contados em forma da mais tradicional animação do estúdio, e somente quando Gisele chega a Nova York é que os personagens começam a ser atirados no nosso mundo de carne e osso, transformando o filme numa sessão deliciosa a quem se propor embarcar na magia.
E é no elenco que encontramos os maiores responsáveis pelo sucesso da empreitada. Amy Adams, surgida há dois anos na fantástica interpretação indicada ao Oscar® de uma grávida falastrona em Retratos de Família, volta triunfal numa nova interpretação onde faltam adjetivos suficientes. Posso estar muito enganado, mas é provável que seja o caso de nascimento duplo de uma estrela de primeira grandeza e de uma das atrizes mais talentosas dessa geração. Sua entrega, suas nuances, toda a sua absoluta verdade num personagem essencialmente fabular são impressionantes, e conforme o filme caminha sua interpretação cresce de forma ainda mais surpreendente. Igualmente brilhante está James Marsden como o príncipe transformado em gente; incrível como se transforma em grande ator o que um dia foi apenas o Ciclope de X-Men. Patrick Dempsey é o outro príncipe, o do nosso mundo, e ele dá conta do recado de ser o par romântico da estrela do filme de maneira exemplar. Susan Sarandon não poderia ser um nome mais acertado para viver a bruxa má da história, e seu talento somado ao de Timothy Spall (que vive seu atrapalhado empregado) são também essenciais para o sucesso do filme. A cereja do bolo é a pequena Rachael Covey, a filha do advogado, uma gracinha de menina, muito inteligente e sagaz.
Um roteiro eficaz e efeitos especiais muito bem realizados, além da inesquecível trilha sonora, contribuem ainda mais para o excelente produto final, um dos mais bem acabados produtos para o público infanto-juvenil (entre os filmes live-action) desde Babe. E talvez por isso mesmo aja de forma tão inusitada também em nós, adultos. Gisele e seu mundo são, a partir de agora, não somente ‘encantados’, mas também inesquecíveis.
Cotação para este filme:
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