» FICHA TÉCNICA |

Título do Filme: Império dos Sonhos
Título Original: Inland Empire
País de Origem: EUA
Duração:
175 Minutos
Data de Estréia: 14/12/2007
Gênero: Suspense
Produtora:
Distribuidora: Europa Filmes
Direção & Roteiro: David Lynch
Elenco: Laura Dern, Justin Theroux, Jeremy Irons, Harry Dean Stanton, Grace Zabriskie.
www.europafilmes.com.br


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francisco carbone »

rosquinhamabel@hotmail.com

» Rio de Janeiro, 14 de dezembro de 2007

IMPÉRIO DOS SONHOS

Foto: Divulgação/Europa Filmes


Galera, David Lynch está na área. Essa simples frase pode provocar calafrios de pavor ou suspiros de felicidade em cinéfilos, dependendo das preferências de cada um. E isso desde que apareceu pela primeira vez, comas bizarrices indecifráveis de Eraserhead, por exemplo. Logo, Lynch parecia ter se enquadrado, quando dirigiu sua primeira obra-prima sem nada de bizarro na estrutura. Mas era um filme pegadinha, onde a falta do 'freak' na forma sobrava no conteúdo. Falo de O Homem Elefante, trama baseada em história real sobre um homem com uma doença fatal nos anos 20, cujo cérebro não parava de crescer de tamanho, e que causou comoção no mundo todo. O belíssimo filme não levou nenhum dos 7 Oscar® a que concorreu, mas foi necessário para mostrar Lynch ao 'mundo normal'. A maioria dos seus filmes anteriores a Eraserhead nunca foi exibido no Brasil, todos filmes esquisitíssimos, que só serviriam ao preconceito para com ele aumentar. Após a aula de direção bem cuidada na emocionante história do pária de 'cabeça gigante', ele viria com outro filme considerado 'dentro dos padrões'. Quem foi conferir Duna, no entanto, se deparou com uma ficção científica indecifrável, quase absurda de tão esquisita, e estrelada por ninguém menos que Sting, o vocalista do The Police. Baseado num romance cultuado de Philip K. Dick, Lynch levou a linguagem do escritor às últimas consequências, e muita gente até hoje tenta entender o filme.
 
Dois anos depois, Veludo Azul. O mundo foi pego de surpresa com essa sua homenagem ao cinema 'noir', tudo com as marcas e características de Lynch, num universo caótico. Orelhas perdidas, mulheres fatais, um vilão que sofria de asma e um investigador medroso, isso é Veludo Azul, que já trouxe Lynch de forma algo inteligível, e mesmo por isso concorreu aos Oscar® de direção e roteiro original. Em 90, Lynch conquistaria o mundo, e mais precisamente a França, com a Palma de Ouro em Cannes conquistada por Coração Selvagem, um 'road movie' lisérgico sobre dois jovens apaixonados (Nicolas Cage e sua musa de sempre, Laura Dern) perseguidos pelos assassinos contratados pela mãe dela (vivida pela mãe de Laura na vida real, Diane Ladd, indicada ao Oscar pelo papel). Cannes se rendeu, e todos então começaram a chamá-lo pelos epítetos que o perseguem até hoje: gênio e louco.

Pensando em um novo longa, David Lynch bateu de porta em porta com um roteiro policial na linha de Veludo Azul, e só recebeu negativas, diante do nível de degradação em que jogava toda a sociedade americana. Foi encontrar abrigo (quem diria) na TV a cabo americana, e assim nascia o fenômeno Twin Peaks, que em apenas duas temporadas se tornou um dos seriados mais cultuados da história. Lynch adaptou seu roteiro para caber nas temporadas, e destruiu todo o conceito de ingenuidade do povo ianque, na história da cidadezinha que se desestrutura depois da morte da hoje icônica Laura Palmer, uma adolescente com mais culpa no cartório do que se poderia imaginar. Um filme baseado no longa acabou sendo seu maior fracasso, não agradando a ninguém, e um descanso de 5 anos foi necessário para que Estrada Perdida visse a luz do dia. Assuntos? O bizarro de sempre. Um homem, sendo perseguido por um serial killer que mora escondido em sua própria casa é preso por engano, e na cadeia se transforma em outro homem, literalmente (o personagem incialmente vivido por Bill Pullman acorda na prisão com o rosto de Balthazar Getty!). Nova aclamação, novos narizes torcidos pelos detratores. Após isso, ele se dedica então ao seu único filme singelo e com estrutura clássica até hoje, História Real. Partindo realmente de um fato verídico ocorrido no Texas, o filme mostra a história de um velhinho saudoso do irmão que não vê há mais de 30 anos e que sai em busca dele ao redor dos EUA. Detalhe: ele está a bordo de seu trator! A bela interpretação do veteraníssimo Richard Farnsworth emocionou a todos, e a Academia o indicou a um prêmio (logo depois, Farnsworth cometeria suicídio por conta de um câncer incurável que o matava aos poucos). O cinema não estava preparado, no entanto, para seu próximo passo.

Cidade dos Sonhos estreou em Cannes, e de lá saiu com um prêmio de direção e com as melhores críticas do Festival. E realmente ele nunca esteve tão mergulhado no bizarro e ao mesmo tempo tão brilhante. narrativa fluida (sabe-se lá como), montagem precisa, fotografia fantástica, trilha sonora do grande Ângelo Badalamenti, ou seja, tudo absolutamente no lugar, de maneira exemplar. E Naomi Watts ainda se revelara, numa das maiores interpretações femininas da década. Um filme que já entrou para a história do cinema. Como então, após isso tudo, ele aparece com um filme que bebe na mesmíssima fonte de Cidade dos sonhos e parece ter deixado de lado todo o incomensurável talento mostrado três anos antes.

Império dos Sonhos não é um filme, e sim pinceladas. A base é: um casal de atores é contratado para a refilmagem de um filme polonês que nunca foi terminado. O que eles não sabiam é que o filme nunca foi terminado porque o casal protagonista fora assassinado com requintes de maldade. O casal atual não teme e parte para cima das filmagens, quando a sanidade de todos (principalmente a do espectador) começa a ser posta à prova. Em meio a 4 (sim, eu disse quatro!) vertentes da trama (o casal original em meio a maldição; o filme não-concluído anteriormente; as filmagens atuais; e a piração da protagonista de hoje), quase toda hora você se perde na narrativa. O correto a fazer é jogar a toalha e curtir somente o inteligível, que são: a grande Laura Dern numa interpretação magistral, a trilha assustadora de Badalamenti e a fotografia mais claustrofobica que já vi no cinema. No meio de tanta informação, Lynch dessa vez pôs muito filme no corte final (175 Minutos!), e não esclareceu várias coisas. O que poderia então ser chamado de ‘obra-pima’, fica com a alcunha de ‘novo ótimo exercício visual de Lynch’.

O incrível é constatar que, apesar de todos os excessos, Lynch continua com uma excelente mão para projetos, nos entregando os produtos mais interessantes de cada temporada, simplesmente pesadelos assustadores travestidos dos mais singelos sonhos.

Cotação para este filme:
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