UM AMOR JOVEM
Foto: Divulgação/DreamLand Filmes

Acompanho a carreira de Ethan Hawke há anos, e até hoje conto nos dedos às vezes que ele me decepcionou. Vi seu primeiro filme nas Sessões da Tarde da vida inúmeras vezes, Viagem Fantástica, onde ele e seus amigos (o saudoso River Phoenix, entre eles) criam um foguete no quintal de casa. Cinco anos depois, ele apareceria impondo presença no premiado Sociedade dos Poetas Mortos e também em Meu Pai, sendo neto de Jack Lemmon! Depois foram vindo vários filmes que mantinham seu nome em voga (Caninos Brancos, Noites Calmas, Vivos, Caindo na Real), todos bonitinhos e que transformaram a imagem de Hawke num galã típico dos anos 90, desleixado, desgrenhado, com legiões de fãs.
E veio Antes do Amanhecer. Hawke, Julie Delpy e o diretor Richard Linklater construíram uma poesia em forma de cinema, uma aula de história de amor inusitada e com a cara do nosso ‘tempo moderno’. Os fãs não tardaram a aparecer. E aí o nível dos filmes também subiu. Foram Gattaca, Newton Boys, Grandes Esperanças, Neve sobre os Cedros, Waking Life, todos exigiam mais dele e ele correspondia em todos, todos grandes filmes. E aí, a primeira e surpreendente indicação ao Oscar por Dia de Treinamento, tratado como coadjuvante onde era o protagonista máximo (porém obscurecido pela estrela Denzel Washington). Depois disso, três anos longe do cinema.
E veio Antes do Por do Sol. O que era poesia no primeiro, tornou-se mágica nesse segundo, com o trio mais uma vez realizando um trabalho tocante, arrebatando o mundo todo e Hawke tendo nova indicação ao Oscar (junto com sua equipe), pelo roteiro do filme. Depois, uma passada rápida pela lata de lixo (Assalto a 13a DP), e a volta aos grandes filmes com O Senhor das Armas e em breve com “Antes que o Diabo saiba que você está Morto”. Ano passado, contudo, Hawke voltava pela terceira vez pela cadeira de diretor, e seu último filme é o primeiro que ganha nossas telas, uma adaptação do seu próprio livro Um Amor Jovem. O romancista Hawke e seu alter-ego (o homem sem rumo na vida que encontra ainda mais problemas que soluções no amor) já me são caros, pois li seus livros. E com Hawke dirigindo e roteirizando a obra, pode-se dizer que a transposição (leia-se alma) do artista está intacta.
Assistimos o protagonista/narrador William nos mostrar a mulher de sua vida, aquela que também será a autora de sua grande desilusão. A partir daí, o filme poderia ganhar uma cara chata (afinal, já sabemos onde o romance tão bem cuidado irá parar), mas a aura do próprio personagem é carregada de erros impregnados que obviamente farão com que Sarah veja a saída para a história de amor deles. O filme é todo melancólico, e sua trilha sonora originalmente composta serve para nos situar ainda mais num calvário existencial e emocional que William parece ser propenso. Mergulhado em situações parecidas, danei a analisar o filme sob a minha perspectiva e não tive como não entendê-lo e gostar ainda mais dele. É compreensível que muita gente possa achá-lo chato mesmo, mas acredito que qualquer pessoa que já sofreu por amor (simplesmente todos) possa se identificar com William em todo seu manancial de erros que comete em busca de um retorno que, obviamente, não acontecerá.
Mark Webber parece encarnar como poucos a personagem desse jovem homem já tão desesperançado de coisas boas. Catalino Sandino Moreno faz boa dupla com ele também. As participações especialíssimas de Laura Linney e do querido diretor contribuem ainda mais para o ar de ‘bela reunião entre amigos’, todos no ímpeto de contar uma ótima história. E mesmo me identificando cada vez mais com Hawke e sua face tristonha e isolada, tenho o discernimento para dizer que o filme, independe da minha opinião, é bem mais que ótimo.
Cotação para este filme:
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